O português falado na época do achamento do Brasil, conforme apontado no item anterior, traz consigo marcos de substrato, adstrato e superstrato de diferentes línguas que estiveram em contato, no fluxo do tempo de formação sócio-cultural do reino luso. Apresenta uma notável unidade e arcaicidade, segundo Silva Neto (1951), para quem se tratava de uma língua que apresentava aspecto camponês e provençal, além de diferentes modos ou falares. Para o autor aqueles que aqui chegavam vinham das mais diferentes regiões portuguesas: Viana no Minho, do Alentejo, de Lisboa, da Serra da Estrela, na Beira Baixa, dos Açores, da Madeira, do Porto. Nessa acepção, embora falassem a mesma língua, esta apresentava variações regionais o que implicava um uso lexical diferenciado.
Transplantados para o Brasil, esses povoadores tinham seus vocabulários — restringidos pela força da nova paisagem, do novo clima, da nova fauna, da nova flora, do novo homem — ora bastante distantes, ora com diferentes graus de semelhanças entre o que sabiam e conheciam — de modo que tal vocabulário lhes era insuficiente para dizer o novo mundo pela velha língua.
O esforço para compreender e interpretar esse mundo novo pelo ponto de vista do velho continente é registrado por Hoehne (1937), ao retratar, o seguinte “hino” feito por Anchieta:
Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosques e não se vê em todo o anno arvore ou herva secca.(1) Os arvoredos se vão ás nuvens (2) de admirável altura e grossura e variedade de espécies (3). (4) Muitos dão bons fructos e o que lhes dá graça é que há nelles muitos passarinhos (5) de grande formosura e variedade e em seu canto não dão vantagem aos roxinoes, pintasilgos, colerinhos e canarios de Portugal e fazem uma harmonia (6) quando um homem vai por este caminho, que é para louvar ao Senhor, e os bosques são tão frescos que os lindos e artificiaes de Portugal ficam muito abaixo. (7) Ha arvores de cedro em quantidade, aquila, sandalos e outros páos de bom olôr e varias cores e tantas differenças de folhas e flores que para a vista é grande recreação e pela muita variedade não se cança de vêr. (HOEHNE, 1937, p. 108-109).
(1) na Europa em função do clima elas secam, no Brasil estão sempre viçosas; explodem em vida;
(2) na Europa não há encontros entre o céu e as árvores;
(3) elas são baixas; troncos finos, pouca variedade de espécies;
(4) as árvores de lá não dão bons frutos e não são povoadas por pássaros de grande formosura e variedade;
(5) o cantar desses pássaros desconhecidos é variado e harmônico;
(6) os bosques portugueses não têm frescor e beleza natural: são artificiais; (7) as árvores são de numerosas espécies. 2
O Jesuíta faz observar, por meio do processo da comparação, a diferença entre a fauna e a flora portuguesa em relação à brasileira, avaliando a primeira como artificial e pouco rica e significativa em relação à segunda, quer quanto à suas variações e variedades.
Os estudos de Hoehne (1937) apontam a dificuldade encontrada pelo Jesuíta para designar árvores e plantas de gêneros diferentes:
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Os “cedros’ aqui referidos não são como supoz Ordoñez, so da Europa, são antes do gênero Cedrella. A “aquila” foi resultado de confusão feita por Anchieta, porque a Aquilaria agallochum Roxb. Que é conhecida por tal nome, como a sua afim, A. malacensis Lm., planta do Velho Mundo e não natural da América e muito menos do Brasil. (HOEHNE, 1937, p. 108-109).
Assim, Anchieta busca semelhanças de cores, de odores, formas ou de funções para nomear o que lhe é estranho, para torná -lo familiar, por meio do vocabulário que domina:
O nome deve ter sido aplicado por espírito de derivação. Acreditamos que, sendo a confusão motivada pelo produto resinoso da árvore, que encontra empregos como incenso e para embalsamar cadáveres, sem dúvida Anchieta teve em mira a “Corohiba”, citada por Frei Vicente do Salvador, que, deve ser o “Myroxylon toluiferum, H. B. K., cujo nome vulgar é “Cabureiba” ou “Balsamo” e fornece uma resina ou balsamo fortemente aromático, utilizado para os fins em questão. O “Sândalo” foi nome arranjado pelos padres, graças à semelhança do produto, porque o Santalum álbum L. como o S. Freycinetum Gaud. Também não pertencem à flora americana, mas sim à asiática. É possíve l que a árvore observada tenha sido uma espécie de Protium, que fornece a “Almecega”, resina pastosa repetidas vezes aconselhada como excelente sucedâneo para o “Sândalo”. Se a semelhança e conseqüente confusão foram baseadas na madeira, deve, porém, ter sido a Ximenea americana L., a árvore que Anchieta quiz referir-se nessa citação. (HOEHNE, 1937, p.108-109).
Desse processo de comparação e do princípio da deriva, criam-se designações para nomear o que se desconhece. Nessa acepção, a língua portuguesa ia se consubstanciando como meio para construir pela designação “as coisas do novo mundo” pelo velho vocabulário, de modo que o português ia se fazendo presente no espaço que se buscava dominar e conquistar. Por esse processo de nominalização, o plano da expressão é enriquecido, quer pelo esforço acima mencionado, quer pela adoção de inúmeros vocábulos indígenas e posteriormente africanos, pois no período de
colonização efetiva, os negros integravam os engenhos da cana-de-açúcar e conviviam com os portugueses da Casa Grande. (LIMA SOBRINHO, 2000).
Assim, os vários usos da língua lusa vão aqui se mesclando e se fundindo deixando alguns vestígios das peculiaridades regionais européias, porém se busca um novo modelo de interação, o qual vai diluindo o português da Coroa, em uma modalidade de uso de que se originará o uso do português no Brasil.
Observa, nessa acepção, o padre Antonio Vieira:
(...) falam (nas nações asiáticas) a língua portuguesa, mas cada uma a seu modo, como no Brasil os de Angola, e os da terra... A língua portuguesa... tem avesso e direito: o direito é como nós falamos, e o avesso como os falam os naturais... meias línguas, porque eram meio políticas e meio bárbaras: meias línguas, porque eram meio portuguesas, e meio de todas as outras nações que as pronunciavam ou mastigavam a seu modo. (VIII, 165-6) (SILVA NETO, 1951, p. 58).
Vieira faz referência, no caso do Brasil, conforme afirma Silva Neto (1951), ao aparecimento do semicrioulo que se caracterizava pela adaptação do português arcaico e provençal ao uso cotidiano pelos mestiços, nativos e negros que, na tentativa de se comunicar deturpavam a pronúncia e simplificavam a estrutura gramatical da língua portuguesa. Relata esse missionário o esforço que fazia para compreender o que lhes diziam esses novos homens da terra:
Por vezes me aconteceu estar com o ouvido aplicado à boca do bárbaro e ai da do intérprete, sem poder distinguir as sílabas, nem perceber as vogais, ou consoantes de que se formavam, equivocando-se a mesma letra com duas ou três semelhantes... (SILVA NETO, 1951, p. 59)
Desse esforço, propõe o padre, uma metodologia para descrever esse “outro” modo de falar e usar o sistema lingüístico do português: “o primeiro trabalho é ouvi-la; o segundo percebê-la; o terceiro reduzi-la a gramática e preceitos; o quarto estudá-la; o quinto... pronunciá-la” (SILVA NETO, 1951, p. 59).
Assevera, por fim, tratar-se de línguas travadas que tanto o torturavam. Designa a essas modalidades de falares por “o nheengaíba, o juruuna, o tapajó, o teremembé, o mamaiana — que só os nomes parece que fazem horror”. (SILVA NETO, 1951, p. 59).
Nesse contexto de estranhamento e dificuldades, buscavam os portugueses aprenderem à língua da terra e dessa aprendizagem, com vistas a comunicação, vão emergindo as línguas travadas designadas pelo termo genérico “língua geral”, que, em verdade, se explica por distinções entre o tupi, o guarani e o nhengatú. Para M. Mansur o tupi e o guarani são dois aspectos de uma mesma língua comum que, embora sejam discutidas como pertencentes ou não a uma mesma matriz lingüística, são denominadas por esse estudioso como língua mãe. Observa Silveira Bueno (1998) que convém considerar
(...) que por tupi entendemos exclusivamente a língua dos tupis, como a registraram os Jesuítas nos séculos dezasseis e dezasssete. Ao lado dessa língua policiada, desenvolveu-se uma fala popular, deturpada pela ignorância e pelos vícios de pronúncia dos mestiços e alienígenas, que devia diferir ainda um pouco de sul a norte. Que nos impede dar a esse tupi mestiço o nome de brasiliano? Ao descendente amazônico do brasiliano conservamos o eufemismo usual de nheengatú. (Introd. a 4 ed do Tupi na Geografia Nacional de Teodoro Sampaio Salvador-Bahia-1955, p. 6 apud SILVEIRA BUENO, 1998, p. :667).
Nesse sentido, a designação língua geral ainda se faz bastante complexa, mas é dela que se têm registros para o estudo do século XVI; razão pela qual o pesquisador se aterá a esses registros.