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2. Description de l’intervention

2.4 Description des activités et réalisations

Com a licença dos mais céticos, abre-se aqui um parêntese para algo impossível de ser ignorado pelo produtor do Ratha Yatra, por mais objetivo que este deseje ser.

Uma “energia cósmica” rege o Festival de Ratha Yatra, e o produtor há de se render a ela, senão é clara a sensação de se nadar contra a corrente. Como se o próprio Senhor Jagannatha fosse o cliente (exigente) que assinou contrato com o produtor. Planejamentos, organização, horários determinados, tudo pode ser minado sem qualquer razão palpável. Difícil por em palavras esta experiência, que todo produtor obviamente tem ao trabalhar associado a outras pessoas e não estando sobre o controle de todas as situações. Mas no Ratha Yatra, é como se essas experiências se amplificasse, e uma pequena forma de compartilhar é ilustrando-as.

Começando na Índia, em Jagannatha Puri, na cerimônia de Chhera Panhara, segundo o “Jóia do Universo”:

O maharaja de Puri é conhecido como Gajapati, uma designação que caracteriza sua posição extraordinária entre os reis. Ele também foi o imperador natural de Kalinga (Orissa), quando a Índia era governada pelos reis, devido ao seu relacionamento especial com o Senhor Jagannatha.

(...) Esta história narra um incidente com o Gajapati Maharaj, Dibya Singha Deva, ocorrido durante o Ratha Yatra em 12 de Julho de 1972. O Senhor Jagannatha Se recusou a mover o Seu Carro, que ficou parado por muitas horas na avenida. Por fim, o Gajapati Maharaja foi solicitado a intervir e suas orações, com lágrimas nos olhos, concluíram a situação.

(...) A procissão cerimonial seguia passo-a-passo, descendo os vinte e dois degraus até a porta dos leões e a entrada nos carros. Esta procissão é conhecida como “Pahanti”. Os três carros voltados para o Norte ficam lado a lado, prontos para o embarque. Quando as Deidades sobem nos carros, o maharaja é informado. E então, quando o maharaj chega, ocorre outra procissão. Com a vassoura de cabo de ouro em suas mãos, o rei vai varrendo à frente dos carros. Este evento é conhecido como “Chhera Panhara”. Então, as três “charas”, um tipo de elevador feito de palhas de coqueiro com a finalidade de subir a Deidade até o carro, são desatadas. Quando tudo está pronto, umas cordas bem fortes são atadas aos carros para serem puxadas pela multidão.

(...) Agora, lá estavam os três carros, rodeados por uma multidão enorme. Logo que o Senhor apareceu majestosamente em cena, os devotos fervorosos começaram a cantar hinos e orações. As pessoas ficavam nas pontas dos pés, ávidas em ver o Senhor.

A polícia militar de Orissa coordenava o espaço necessário para os três carros defronte à porta dos leões e fazia esforços para conter a multidão. Havia um cordão de isolamento e só era permitida a entrada de pessoas credenciadas. Isso é feito todos os anos para manter a disciplina. As pessoas se aglomeravam em volta do cordão. Todo mundo estava olhando o “pahandi”.

(...) Por fim, o Senhor chegou para embarcar no carro. Foi a primeira vez que as Deidades subiram nos carros tão depressa. Em muitas outras ocasiões, a procissão com as Deidades continuava até o final da tarde e os carros só eram puxados no dia seguinte. Mas, por exceção, as Deidades vieram embarcar muito cedo. O céu estava nublado. Havia garoado um pouco, o chão ainda estava meio molhado. Logo nuvens mais pesadas, trovejando, fizeram cair um aguaceiro. Os devotos estavam em êxtase, pensando que as Deidades haviam Se antecipado por causa da chuva. A chuva caia e a multidão exclamava: “Hari bol!”. A chuva durou pouco, foi só para refrescar os devotos.

Era uma hora da tarde quando a rádio Cuttack, que transmitia o evento, anunciou:

- As Deidades vieram adornar os carro. O recém-coroado Gajapati Maharaja Sri Dibya Singha Deva deverá chegar em seguida para a cerimônia da varredura.

Às duas da tarde a rádio anunciou:

Agora o Gajapati está vindo com sua comitiva para a: “Chhera Panhara”. Ele vem vestido com um trave de seda vermelha e um manto

sobre os ombros. Ele vem a pé. O elefante vem atrás dele. Agora ele está oferecendo as suas orações aos Senhor Balarama com suas mãos postas.

Mais tarde a rádio anunciou:

- Agora o Gajapati está se aproximando de Subhdadra Devi e prestando-lhe reverência. Agora ele se aproxima do carro do Senhor Jagannatha.

A cerimônia da varredura é sagrada para o Gajapati. Para este propósito ele é trazido do palácio por um palanquim. Ao se aproximar dos carros ele desce do palanquim e vai cumprir o seu dever. O maharaja vindo a pé era uma quebra da tradição. Os devotos estavam curiosos em saber o motivo daquilo. (...) O Primeiro ministro e outros ministros estavam ali, bem próximos da Deidade, esperando que o Senhor subisse no carro, ansiosos. Todos tentavam mover a Deidade com muito esforço. Ele Se movia um pouco e voltava para sua posição inicial. Os esforços dos daitapatis e dos seus auxiliares era inúteis. O administrador do templo empenhado em por as Deidades em seus tronos nos carros agora estava confuso. Ele verificava que todos os esforços eram inúteis.

Mahaprabhu Jagannatha não tinha vontade de subir no carro. Os que tentavam erguê-lo à força eram derrotados, incapazes de suportar o peso. Parecia que o Senhor era impossível de ser movido. Alguns daitapatis musculosos estavam ocupados em fazer subir a Deidade, colocando os ombros nas costas do Senhor.

Passaram-se horas, e quando todos realizaram que os seus esforços eram inúteis, fadigados, esgotados, eles perderam a esperança. Aquilo fazia lembrar outros passatempos do Senhor. Na época em que Krishna veio para o planeta Ele vivia pregando peças nas gopis. Agora Ele não queria subir do carro. Os daitapatis são as suas pessoas mais íntimas. Se Ele não desejava ser bondoso e desejava lhes pregar uma peça, quem mais seria capaz de erguer o Senhor do Universo?

(...) O espetáculo gerava comentários os mais diversos na multidão: - A falha é do administrador do templo. A procissão de Pahandi com as Deidades começou muito cedo, antes da hora auspiciosa. O administrador marcou que as Deidades deveriam estar sobre os carros às dez horas! E lá pelo meio dia os carros já deveriam estar sendo puxados. Mas até agora o Senhor Jagannatha nem subiu no carro. Por mais que eles tentem, nada!

Gajapati Maharaja prostrou-se diante das duas Deidades que estavam sobre os Seus carros e aproximou-se da Deidade de olhos redondos com as mãos postas. (...) A cena de duelo entre o criado e o criador comovia muito o rei. Lágrimas rolavam por suas faces quando ele se aproximou da Deidade.

Os esforços não haviam cessado. A todo instante a Deidade se movia um centímetro e escorregava para trás. Gajapati observava atentamente. Seu coração estava agonizando. Nisso, uma surpresa mística tomou conta dele.

Não havia muitos anos que os ganapatis maharajas eram as autoridades absolutas no que dizia respeito a administração do templo. Segundo a tradição, o rei era a corporificação do Senhor Jagannatha. Aconteceu que aqueles santos reis caíram de sua glória e deixaram a administração desleixar. Fora quebrada a disciplina dos vários rituais e cerimônias das Deidades. O governo de Orissa foi obrigado a assumir o encargo da administração e a colocou nas mãos de um magistrado distrital. Mas como ser fixado um tempo para o infinito? Como apreciá-lO com a

mente racional se para Ele o racional e o irracional são apenas as duas vias do infinito?

O administrador havia marcado um tempo para o Senhor chegar ao carro. Se os funcionários da governo sevem chegar ao serviço na hora certa, por que não o Senhor Jagannatha? São os homens que fazem tudo pelo Senhor. Se eles desejavam, por que o Senhor não deveria embarcar no carro na hora certa? O administrador era muito racional.

O Gajapati estava banhado de lágrimas. O seu olhar estava fixo na Deidade. Todos deram passagem para o rei. Ele subiu lentamente o charmal (chara) e ficou às costas da Deidade. Os musculosos daitapatis amarraram uma corda de seda em volta dEle, mas o Senhor não fazia progressos. Ele se recusava a embarcar por algum motivo desconhecido.

O jovem Gajapati não pôde conter a emoção. Ele chorava como uma criança. Colocando as mãos nas costas do Senhor Jagannatha, ele disse:

- Ande, meu Senhor!

A resposta foi imediata. O Senhor subiu rapidamente para o Seu posto. As pessoas o erguiam pareciam apenas enfeites. Ele havia esperado pelo Seu querido lugar-tenente, o representante que Ele havia escolhido. Cabia a ele dar o sinal verde, conforme o Senhor Jagannatha desejava.

Há instantes atrás Ele pesava como uma montanha, e agora estava leve como uma pluma. Ele logo assumiu seu trono, antes que a multidão pudesse notar alguma coisa.

Foi um evento, uma mensagem e um alerta contra as atitudes do ego humano, que vive atolado na poça do pensamento racional. Quem pode avaliar o quanto o Gajapati é uma alma íntima do Senhor Jagannatha!

(GANESHA PRASAD PARIJA, 2002, pg 145)

Algo semelhante aconteceu no Ratha Yatra de Salvador. Todo o ano, a parafernália das Deidades, específica do RY, é recolhida após o festival e cuidadosamente guardada pela equipe de Pujari, em especial pelas pujaris Madhurya Lila Devi Dasi (Priscila de Oliveira) e Karuna Mayi Radhika Devi Dasi (Karuma Obi). As cordas de tecido que servem para manter as Deidades fixas em Suas bases sobre o Carro também são sempre cuidadosamente guardadas. No entanto, em determinado ano, as cordas simplesmente desapareceram, e só se deu por sua falta quando as Deidades já estavam sobre o Carro. Tudo estava adiantado, e o Ratha Yatra iria sair no horário previsto, sem atrasos, como poucas vezes acontecia. Mas o detalhe dessas pequenas cordas de 3 metros cada estava atrasando toda a programação! A produção estava incrédula, pois após pesquisar com quem poderiam estar essas cordas, sem sucesso, pensava em como conseguir, em uma tarde de Domingo, material que o substituísse sem prejuízo para as

Deidades (com a grande quantidade de movimento do Carro durante o percurso, qualquer material mais grosseiro poderia danificar Sua pintura e Sua madeira).

Havia sido notado pela produção, também, que alguns devotos muito ligados às Deidades, como o presidente do Templo, Aniruddha Das, e um ônibus de um grupo de capoeira infantil vindo de Camaçari, além de outros, não haviam chegado, e, que, se não considerasse uma grande irresponsabilidade com o horário e falta de respeito com os presentes pontuais e entidades públicas e privadas envolvidas (concessores das licenças, fiscais de trânsito, polícia militar mídia), decidiria por postergar o início do evento e aguardar a presença destes participantes fiéis.

Mas não foi necessário: a falta das cordas realizou o justo atraso para estas chegadas. MISTICAMENTE, Aniruddha Das e as cordas se manifestaram simultaneamente, e, quando o Carro estava pronto para sair, de um ônibus saiam crianças sorridentes, vestidas de camisas, calças e cordões de capoeira brancos. Saímos novamente atrasados. Mas a produção não lamentou.

Pode parecer uma pequena estrela em um céu nebuloso, mas com eventos como o Ratha Yatra, onde o produtor é mais do que um profissional, instituindo-se um amador de seu produto, situações assim são como um firmamento repleto de pequenas e grandes estrelas, que por si só iluminam o planeta sem a necessidade do auxílio de nenhuma outra fonte de luz. Para não falar das vezes em que aparece uma grandiosa Lua no céu do Ratha Yatra.