8. New Properties
8.11. DEFAULT-CHARSET Property
No início do século XX, as transformações que ocorriam na Boa Vista, principalmente para os lados da Soledade, da Aurora e do Derby, chegaram até a Praça Maciel Pinheiro e Rua da Imperatriz. Segundo Sette (1948), Sigismundo Gonçalves, ao assumir o governo de Pernambuco em 1904, implementou grandes reformas na fisionomia urbana do bairro. Alargou a Rua Sete de Setembro e a Rua do Hospício, a fim de descortinar a Matriz da Boa Vista. Promoveu o calçamento da Rua da Imperatriz, o novo ajardinamento da praça, agora
chamada de Maciel Pinheiro, e o beneficiamento do Caminho Novo, que se transformou na Rua Conde da Boa Vista. Ainda segundo Sette, nas imediações da Igreja de Santa Cruz, pouco se relata além dos pardos que frequentavam a Igreja de São Gonçalo e das dificuldades da polícia para reprimir os abusos e gestos indecorosos das quituteiras que, nas calçadas, divertiam negros e mulatos.
A pujança do porto, a expansão da mancha urbana e o crescimento da população exigiram intervenções viárias de monta. Na Boa Vista, cada uma das intervenções teve grande impacto nos percursos internos do bairro e na sua integração com o restante da cidade.
A construção da Ponte da Rua Velha ou Ponte Seis de Março (Figura 30) foi iniciada em 1911 entre as obras de saneamento propostas por Saturnino de Brito e reconectou o núcleo inicial de ocupação da Boa Vista ao agora Bairro de São José. Se, no tempo dos holandeses, esse caminho estimulou a construção de igrejas e arruados que deram origem à povoação da Boa Vista, a sua permanência em ruínas durante séculos distanciou esse núcleo tanto do progresso quanto dos investimentos que ocorriam em outras partes do Recife Colonial. Se, no século XVII a ponte levava, possivelmente, ao palácio de veraneio do Conde Mauricio de Nassau, no século XX, a recém-construída Ponte Seis de Março levava à Casa de Detenção, um destino que pouco tinha a contribuir para a valorização da área.
Figura 29 - Vista aérea do Recife em 1937, com destaque para o Sítio Histórico da Boa Vista. Fonte: Álbum de Pernambuco. Imagem tratada pela autora.
A Ponte Duarte Coelho, construída em 1942 em substituição à Ponte dos Bondes, nasce na Rua da Aurora e segue até a Rua do Sol, unindo duas avenidas que se consolidavam naquele momento: o Caminho Novo que, alargado, virou a Avenida Conde da Boa Vista, com a Avenida Guararapes do outro lado do rio, quando foram arrasados quarteirões para dar
Avenida Conde da Boa Vista
Tábula rasa para a construção da Avenida Guararapes em feições modernistas
Local onde, posteriormente, foi construída a Ponte Duarte Coelho
Ponte Seis de Março
passagem aos veículos que se dirigiam do porto ao resto da cidade. A Avenida Conde da Boa Vista tornou-se um importante corredor de transportes, condição que preserva até hoje, e absorveu parte da carga viária e do capital imobiliário que se distribuía pela Boa Vista. No novo eixo de desenvolvimento promovido pela Avenida, em terreno supervalorizado, muitas casas foram demolidas para dar lugar a edifícios residenciais e de escritórios. Enquanto isso, as casas do velho caminho das ruas da Glória e Velha perderam muito do seu valor comercial, o que em certa medida possibilitou a permanência do uso habitacional.
A intensificação dos fluxos no primeiro núcleo de ocupação da Boa Vista, em decorrência da construção da Ponte Seis de Março, transformou a Rua Velha e a Rua da Glória em um corredor de passagem para veículos de passeio e, posteriormente, para veículos de carga e de transporte coletivo. Tal intervenção, para atender aos fluxos e à demanda da centralidade urbana, em certa medida desrespeita a escala do tecido histórico e tem grande impacto sobre os imóveis existentes na área.
Além das pontes, os novos meios de transporte contribuíram para a transformação da feição da cidade e a consolidação dos subúrbios. Os bondes de tração animal da Ferro Carril, em funcionamento desde 1871, foram substituídos em 1914 pelos bondes elétricos da
Pernambuco Tramways and Power Company, “com muito mais destinos”40
e conforto. Esse fato propiciou a ocupação habitacional, e não sazonal, dos subúrbios e, consequentemente, a evasão habitacional do centro.
Como tantas outras cidades brasileiras, o Recife passou por reformas urbanas para a melhoria das suas condições de salubridade. Ampliaram-se as redes de abastecimento d’água e de esgotamento sanitário. Criaram-se normas para garantir a salubridade das construções novas e exigiu-se a adaptação dos imóveis às exigências sanitárias recém-criadas Mesmo as casas coloniais, sem recuos laterais ou frontais, deveriam ser reformadas de modo que todos os ambientes de permanência prolongada dispusessem de ventilação e iluminação natural. Em 1909, o sanitarista Saturnino de Brito propôs a reforma dessas edificações a fim de eliminar as alcovas pouco ventiladas ou iluminadas e construir, em bloco anexo à construção principal, as cozinhas, banheiros e lavanderias. Para tal, far-se-ia uso dos terreno de fundos de quadra e se abririam poços de ventilação e iluminação zenital nas cobertas dos sobrados, como mostra a Figura 31.
40 As principais linhas existentes em 1930 eram: Afogados-Herval, Afogados-Caxias, Torre,
Madalena, Derby, Fernandes Vieira-Hospício, Fernandes Vieira-Conceição e Santo Amaro-Aurora (Ludermir, 2005).
Figura 30 - Modelo para “Casas salubres em lotes estreitos” por Saturnino de Brito. Fonte: Acervo IPHAN
Registra-se, novamente, a inadequação das edificações do Sítio Histórico da Boa Vista, dessa vez às leis de edificações vigentes no século XX. As reformas necessárias à sua adaptação aos novos preceitos higienistas resultariam na parcial descaracterização dos imóveis e do conjunto edificado. A integridade e a autenticidade do conjunto, no entanto, não faziam parte das preocupações do poder público durante o período.
Parte das casas da Boa Vista conta hoje com a área molhada em bloco anexo à edificação principal. No entanto, a maioria não foi reformada para a instalação de poços de ventilação, conforme se verificou no local. É difícil precisar o motivo pelo qual as adaptações nos imóveis não chegaram a ser executadas. Presume-se que os elevados custos da reforma e a pouca valorização dos imóveis para o uso habitacional tenham tornado mais interessante a migração da população que os ocupava para outros imóveis, mais adequados aos princípios higienistas e às novas expectativas habitacionais, seja na Boa Vista, seja em outras partes da cidade.
A desvalorização dos imóveis em questão pode estar relacionada tanto com a substituição de usos quanto de usuários, já que muitas das edificações foram posteriormente ocupadas e reocupadas por uma população com cada vez menos recursos financeiros, desde os fugitivos da Europa no período entre as guerras, como se verá adiante, até os moradores de
Supressão das alcovas
Iluminação e ventilação natural para todos os ambientes de permanência prolongada, que passam a ter aberturas para o exterior Modificação da coberta para entrada de iluminação Criação de “varandas”
pensões que encontram nos imóveis históricos uma possibilidade de localização habitacional privilegiada, mesmo que em um imóvel em mau estado de conservação.
Enquanto as casas geminadas eram consideradas insalubres, algumas das chácaras que até então limitavam o bairro foram loteadas, criando quarteirões retangulares, com ruas e lotes largos ao norte da Rua de Santa Cruz. Nas ruas José de Alencar (Figura 32) e Marques do Amorim, casas largas, soltas no lote, eram a novidade no bairro da Boa Vista nos anos 1940, modelo do “bem-morar”, atraentes para aqueles que não mais se interessavam pela Rua Velha, Rua da Glória e Rua de Santa Cruz.
Figura 31 - Postal da Rua José de Alencar, início do Século XX. Fonte: Guia da Cidade do Recife, 1935.
Assim, a cidade moderna, limpa e higiênica, se transformava. As intervenções executadas tanto pelo poder público quanto pela iniciativa privada, seja por exigências viárias, por preceitos sanitaristas, seja por intenção modernizadora ou de lucro imobiliário, alteraram a configuração espacial do bairro da Boa Vista. A abertura de novos caminhos e as novas alternativas de transporte contribuíram para a consolidação residencial nos subúrbios. Partes da cidade colonial foram demolidas para dar passagem à saúde, ao progresso e às mercadorias do porto. Aos bairros velhos se somavam partes – ora saudáveis bairros novos, ora assentamentos subnormais. O que antes representou a totalidade da cidade vai se configurando, paulatinamente, como centro.