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O núcleo inicial de ocupação da cidade do Recife, ao longo dos seus quase cinco séculos de história, passou por intensas transformações do seu papel funcional.
A princípio, quando o porto do Recife – importante para o escoamento da produção da região – colocou a então Capitania de Pernambuco do século XVI em uma posição privilegiada no cenário econômico, político e cultural do Brasil Colônia, as relações comerciais e produtivas justificaram a fixação e a consolidação de um povoado que deu origem à cidade. Sucessivos aterros aumentaram paulatinamente a área edificável do núcleo inicial de ocupação, então composta pelo istmo (hoje ilha) do Bairro do Recife, pela Ilha de Antônio Vaz, hoje bairros de Santo Antônio e de São José, e pela Boa Vista, hoje bairro da Boa Vista.
Esse núcleo, consolidado ainda na primeira metade do século XVIII, hoje conforma o centro histórico. Durante um longo período de tempo, representou a totalidade da cidade, com sua dinâmica e heterogeneidade de funções. Passados mais de quatro séculos, a cidade abriga mais de 1,5 milhões de habitantes distribuídos em seis Regiões Político-Administrativas.
O centro histórico, indicado na Figura 14, está localizado no extremo leste da cidade e integra a Região Político-Administrativa 1 – RPA1 –, que vai da Avenida Agamenon Magalhães até o Bairro do Recife, abrangendo 11 bairros. Além dos bairros do Recife, Santo Antônio, São José e Boa Vista já referidos, fazem parte da RPA1 os bairros de Santo Amaro, Cabanga, Coelhos, Soledade, Ilha do Leite, Paissandu e Ilha Joana Bezerra.
Figura 13 – Localização do centro histórico (em verde) em relação à RPA 1 (em preto) e ao limite municipal de Recife
A RPA 1 consolidou-se como polo econômico ao concentrar grande parte da oferta dos postos de trabalho, do comércio, dos serviços, das instituições e dos equipamentos culturais do Recife, o que lhe confere uma grande importância funcional e o caráter de centralidade urbana.
Nos bairros centrais da Boa Vista, do Recife, de Santo Antônio e de São José, está localizada a maior concentração de sítios cujas edificações e conformação urbana remontam ao passado. São 27 imóveis tombados em nível federal, 13 imóveis tombados em nível estadual e 28 Imóveis Especiais de Preservação (IEPs), tombados em nível municipal, além de sítios históricos tombados pelo valor do conjunto edificado. Esses bairros, repletos de imóveis e monumentos históricos, conformam o que, para fins deste trabalho, se denomina centro tradicional do Recife. Nesse território se justapõem conjuntos edificados em distintas épocas. Os sítios históricos que remontam à gênese da cidade, muitos dos quais são delimitados por legislações municipais como Zonas de Preservação Histórica, se avizinham de um considerável acervo de arquitetura modernista e de aglomerados subnormais nas beiras dos rios e mangues. O centro tradicional do Recife tem, portanto, representações de distintas posturas arquitetônicas e urbanísticas.
Os sítios históricos que remontam ao período colonial e estão preservados no centro tradicional do Recife são testemunhos do desenvolvimento da cidade, das diversas posturas urbanísticas e dos diversos gostos arquitetônicos ao longo do tempo. Com a expansão da cidade ao longo dos séculos, o centro histórico passou de uma condição de totalidade da cidade à condição de centralidade urbana, concentrando ainda grande parte dos postos de
trabalho, das instituições, do comércio e dos serviços durante os primeiros séculos de existência da cidade.
Mais recentemente, outras áreas da cidade têm se desenvolvido intensamente, principalmente a partir da década de 1980, configurando novas centralidades e exercendo atração sobre o seu entorno. Destaca-se, nesse processo, o surgimento e a consolidação da centralidade no bairro de Boa Viagem, a partir da construção do Shopping Center Recife, o primeiro centro comercial no formato dos malls americanos, que se instalou no Recife no início da década de 1980. O Shopping consolidou-se como um grande centro de compras e atraiu uma grande diversidade de serviços para o seu entorno, dando origem a uma nova maneira de ir às compras para a classe média e média-alta do Recife. A construção desse e de outros shopping centers na cidade teve grande impacto sobre o centro. Pela forte atração que eles exercem sobre as camadas de mais alto rendimento (que, paulatinamente, diminuem a frequência das suas visitas ao centro,) o comércio do centro foi passando, desde a década de 1980, por um processo contínuo de “popularização”, sem, no entanto, perder a intensidade.35
As primeiras estradas, que partiam do interior para litoral, especialmente para o porto, guiaram a expansão urbana essencialmente “radial” do Recife. Desde a expansão e consolidação urbana dos arrabaldes até hoje, o centro da cidade manteve uma função nodal no sistema viário, tendo, atualmente, um papel fundamental no sistema de transporte coletivo da cidade.
A intensidade dos fluxos decorrente do transporte coletivo no centro da cidade é demonstrado nas Figuras 15 e 16. Das 360 linhas de ônibus que atualmente circulam no Recife (indicadas na Figura 15), 281 entram no centro da cidade e 190 percorrem a Avenida Conde da Boa Vista – no Corredor Leste-Oeste citado adiante –, onde se encontra a maior densidade geográfica de linhas de ônibus do Recife e da Região Metropolitana (Figura 16).
35 Segundo a CDL (Câmara de Dirigentes Lojistas), estima-se que circulem diariamente pelo centro do
Figura 14 – Principais corredores de transporte do município. Fonte: Prefeitura da Cidade do Recife, 2011.
Figura 15 - Densidade Geográfica das linhas de ônibus no Recife. Fonte: Prefeitura da Cidade do Recife, 2011.
Apesar do ainda importante papel funcional do centro tradicional do Recife, a área passa por um processo de evasão constatado por meio da comparação entre os dados censitários de 1991 e 2000 divulgados pelo IBGE. Os onze bairros que compõem a RPA 1, que em 1991 abrigavam uma população residente de 83.100 habitantes, no ano de 2000 tinham uma população de 78.098 habitantes. O decréscimo populacional de 5.002 habitantes representa uma evasão habitacional de 6% em menos de uma década.
A diminuição da população residente pode ter várias causas, mas indica, dentre outras coisas, que o uso habitacional que antes estava presente no centro da cidade pode estar sendo substituído por outros usos, levando à substituição de domicílios por estabelecimentos comerciais, ou ainda o esvaziamento total ou parcial de imóveis, o que representa uma perda de vitalidade36 da área central fora dos horários comerciais e a subutilização da infraestrutura
instalada, podendo colocar em risco a integridade dos imóveis que, esvaziados, dão lugar a um processo mais acelerado de degradação.
Essa evasão habitacional, no entanto, conforme é possível perceber na Figura 17, não
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ocorre homogeneamente. Alguns bairros da RPA 1 tiveram um aumento da população residente, enquanto outros tiveram um decréscimo populacional.
Figura 16 – Mapa da Evasão Populacional da RPA-1 com a indicação dos três setores censitários referentes ao Sítio Histórico da Boa Vista. Fonte: Carta Consulta ao BID do Programa de Reabilitação de Áreas Centrais da Prefeitura do Recife, 2005. Imagem tratada pela autora.
Os bairros da Boa Vista e de São José, onde alguns dos imóveis históricos ainda abrigam o uso residencial, sofreram os efeitos mais significativos da evasão habitacional e, somados, superam o valor absoluto de diminuição populacional no centro.
Os dados censitários sobre o bairro da Boa Vista indicam uma diminuição da população residente entre os censos de 1991 e 2000 da ordem de 17,7%. No entanto, os setores censitários que compõem o Sítio Histórico da Boa Vista passaram por uma diminuição habitacional da ordem de 21,3%, proporcionalmente maior do que a evasão do bairro da Boa Vista, conforme é possível ver na Tabela 3 a seguir.
TABELA 3 – Número de habitantes e percentual de evasão na RPA1, na Boa vista e no Sítio Histórico da Boa Vista, entre os Censos de 1991 e 2000
Número de habitantes Evasão
Localidade 1991 2000 Absoluta Percentual
RPA 1 83.100 78.098 5.002 hab 6,02%
Bairro da Boa Vista 17.059 14.033 3.026 hab 17,74% Sítio Histórico da Boa Vista 2.760 2.172 588 hab 21,30%
Os dados censitários do IBGE contrastam com os dados apresentados pela Pesquisa de Demanda Habitacional realizada pelo CECI em 2003, que revela que o bairro da Boa Vista teria sido apontado como o preferido para morar, dentre os bairros do centro tradicional do Recife,37 por 64% dos entrevistados. Em se tratando do sítio histórico, que foi escolhido como
o primeiro Perímetro de Reabilitação Integrada (PRI) para a elaboração de estudos de requalificação urbana por meio do uso habitacional no âmbito do “Programa Morar no Centro”, da URB-Prefeitura do Recife, pelo seu “caráter habitacional”, o dado da evasão de mais de 1/5 da sua população em 9 anos pode indicar o recuo da habitabilidade em um dos poucos “redutos habitacionais” do centro histórico do Recife.
O centro histórico do Recife apresenta hoje conflitos e paradoxos típicos do centro histórico das grandes cidades brasileiras. Esse centro, que antes conformava o todo da cidade, hoje, por causa da expansão da malha urbana e da consolidação de outras centralidades, é uma de suas partes. Centro urbano, e tratado como tal, o Bairro da Boa Vista, integrante do centro histórico, concentra parte importante dos sistemas e equipamentos urbanos imprescindíveis para a cidade do Recife. Guardando uma expressiva massa de edificações com a unicidade e a fragilidade coloniais, o centro histórico, além de referência funcional para a cidade, é uma referência cultural e afetiva para muitos daqueles que, mesmo que residam em outros bairros plenamente urbanizados, costumam dizer que vão “à cidade”, quando vão ao centro.
Como expõe Carrión (2001), quando o centro passa a dividir a função de centralidade urbana com outras partes da cidade, caracteriza-se uma situação de relativa diminuição de sua centralidade funcional para sua consolidação como uma centralidade histórica. A condição atual pode ser mais bem compreendida ao longo do processo histórico de evolução urbana da área, que será abordada no tópico seguinte.