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As atenções às questões ligada à qualidade de vida começaram a despertar maior interesse de estudiosos e sua sistematização, a partir do século XX (NÉRI, 1993), tornando-se cada vez mais foco de preocupação para as áreas da saúde, social e das políticas públicas, com a definição concebida pela Organização Mundial de Saúde – O.M.S. (1994), que apontou três aspectos fundamentais do construto qualidade de vida:

Subjetividade – que implica na percepção individual da pessoa sobre sua qualidade de vida;

Multidimensionalidade – que abrange as dimensões física, psíquica e social; Bipolaridade – abarcando aspectos positivos e negativos.

O Grupo da Qualidade de Vida da Divisão de Saúde Mental da O.M.S. definiu qualidade de vida como:

[...] a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações [...] (WHOQOL-Group, 1998).

Assim, o conceito de qualidade de vida, com base na visão da O.M.S., pode ser entendido como a percepção que as pessoas possuem sobre sua vida, dentro do contexto cultural e dos valores da sociedade na qual está inserida, levando em conta seus objetivos, expectativas, padrões, preocupações e estilo de vida. É um conceito subjetivo que implica na análise pessoal sobre o grau de satisfação que se tem de alguns aspectos da vida e que foram atingidos.

Com o advento da longevidade constatada no mundo todo e em especial nas sociedades em desenvolvimento como a brasileira, entendemos que estudar com qual qualidade de vida as pessoas estão envelhecendo torna-se fundamental para que as áreas sociais e da saúde possam revisar e reestruturar posturas e conceitos, tanto no atendimento das necessidades que este segmento gera, quanto na busca de ações preventivas e de promoção da saúde, favorecendo com que os idosos vivam com maior qualidade e satisfação.

Segundo Lawton (1991), competência comportamental representa a avaliação sócio- normativa do funcionamento da pessoa, quanto a sua saúde, como usa seu tempo, sua habilidade nos contatos sociais e cognitivos. Estas competências lhe favorecem na vida cotidiana autonomia e independência, abrangendo aspectos físicos, emocionais, sociais e cognitivos, para agir nos ambientes que freqüenta. Deficiências em competência comportamental, segundo este mesmo autor, geram impactos negativos na percepção de bem- estar, assim como implica na busca de auxílio e suporte, os quais também podem estar comprometidos, quando a pessoa não se sente apta a fazê-lo.

Para Baltes e cols. (1990), a dependência comportamental é algo nefasto ao idoso por isolá-lo de outros grupos ao serem percebidos como incompetentes.

Para o estudo sobre qualidade de vida em idosos ora empreendido, nos apoiamos entre outros estudos, ao de Néri (2000), que define qualidade de vida como o resultado da ação de eventos múltiplos e concomitantes, que influencia a adaptação das pessoas e grupos, nas diversas fases de suas vidas, inclusive no envelhecimento.

Estamos considerando a vertente da produção de conhecimento científico, voltada à análise do processo de envelhecimento que comporta além dos aspectos de perda e declínio, também as reservas de potencialidades e capacidades nas pessoas, que permitem uma plasticidade comportamental, promovendo saúde, bem-estar e satisfação na velhice, como nos mostra os estudos de Baltes e cols. (1990).

Freire (2003) considera que as dimensões física, psicológica, social e espiritual, devem ser atendidas quando se estuda qualidade de vida em idosos, por que elas favorecem o surgimento nos indivíduos sentimentos de autonomia, independência, saúde biopsicossocial, significado pessoal, continuidade de desempenho de papéis e atividades.

Dentro desta perspectiva, o processo de envelhecimento humano vem sendo tratado nas mais diversas áreas do conhecimento científico, com publicações focadas especialmente, na saúde e na doença em idosos. Geralmente os estudos procuram explicar aspectos tais como: o que é uma boa vida; como se deve viver para ter uma boa vida; e quais estilos de vida são preditores de um bom envelhecimento.

[...] a investigação sobre as condições que permitem uma boa qualidade de vida na velhice, bem como sobre as variações que esse estado comporta reveste-se de grande importância científica e social. Ao tentar resolver a aparente contradição que existe entre velhice e bem-estar, a pesquisa pode não só contribuir para a compreensão do envelhecimento e do desenvolvimento humano, como também para a geração de alternativas válidas de intervenção visando o bem-estar de pessoas maduras [...] (NÉRI, 1993, p. 11).

Estas questões vêm sendo intensamente discutidas, assim como a busca de indicadores que apontem qualidade de vida na velhice, e que variam desde status socioeconômico, satisfação de necessidades, capacidade funcional, sentido e significado da vida, controle e domínio sobre eventos, e outros aspectos (FLECK; CHACHAMOVICH; TRENTINI, 2003).

Para mensurar qualidade de vida, nas últimas décadas surgiram vários instrumentos, sendo que a maioria foi desenvolvida nos Estados Unidos. Entretanto, apesar do grande número de instrumentos existentes, poucos foram feitos com o objetivo de avaliar especificamente a população idosa.

No Brasil pode-se citar o projeto WHOQOL-Old, desenvolvido e validado pelo grupo de estudos em qualidade de vida, coordenado por Fleck e colaboradores (1999) da

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, sob os auspícios do Grupo de Qualidade de Vida da Organização Mundial de Saúde (WHOQOL-Group), cujo objetivo foi desenvolver e testar uma medida genérica da qualidade de vida em adultos idosos, para utilização internacional e transcultural.

Identificar os determinantes da qualidade de vida na velhice considerando seu aspecto subjetivo é relevante para quem busca conhecer e entender a longevidade com qualidade, plena satisfação e significado, assim como para propor ações interventivas que estimulem e propiciem tal estado (FLECK et. al, 2003).

Assim, a proposta deste estudo, voltada à pesquisa e identificação de sentimentos de satisfação e bem-estar no envelhecimento e sua possível relação com suporte social, são reforçadas por algumas iniciativas e estudos pesquisados para a realização deste trabalho e que citamos dois deste estudo a seguir, por ter nos parecido significativo para compreender a subjetividade deste construto.

Cotta et. al (2006) investigaram a contribuição das dimensões física, social, psicológica e ambiental, as quais foram avaliadas pelo instrumento abreviado de avaliação da qualidade de vida, WHOQOL-Bref (1998b), proposto pela O.M.S, e a extensão em que estes domínios explicam a qualidade de vida global, junto a idosos residentes em um município da região sudeste do Brasil.

Com o estudo demonstraram que as características sociodemográficas da amostra não interferiram no domínio global da qualidade de vida, sendo que o domínio que mais explicou os sentimentos de satisfação entre esses idosos foi o físico, seguido do ambiental e do psicológico. Identificaram também que o domínio social não mostrou contribuição significativa na qualidade de vida global. Finalizaram o estudo apontando que nesta amostra, os quatro domínios analisados não explicaram totalmente o domínio global da qualidade de vida, concluindo que bem-estar entre idosos é resultado do equilíbrio entre as diversas dimensões que geram capacidade funcional e que independe da existência de problemas em qualquer dimensão, e assim pode ser atingido por qualquer idoso, mesmo na presença de enfermidades.

Outro estudo pesquisado e intitulado Envelhecimento e Qualidade de Vida na Mulher, foi apresentado por Néri (2001), no 2º Congresso de Geriatria e Gerontologia. Neste estudo a autora relata aspectos da qualidade de vida e da feminização da velhice, trazendo significativa contribuição à pesquisa no que se refere aos aspectos determinantes que geram envelhecimento saudável, especialmente entre mulheres considerando que este segmento populacional apresenta maior fator de risco à saúde, quando comparadas a idosos do sexo

masculino, principalmente pelo fato das mulheres no Brasil estarem mais sujeitas a condições socioeconômicas mais precárias que homens.

Este trabalho vai de encontro ao estudo citado acima (COTTA et al., 2006) na medida em que demonstra a relevância do equilíbrio entre os domínios físico, social e psicológico, assim como a complexidade e subjetividade do construto qualidade de vida, e que está sujeito a múltiplas influências.

Finaliza apontando que a feminização do envelhecimento e os determinantes da qualidade de vida na velhice não dizem respeito apenas à longevidade, mas envolve também exercício de papéis e funcionalidade do self.

[...] Embora o envelhecimento, se por um lado, possa acarretar maior risco à mulher do que ao homem, em função da diferença nas condições socioeconômica existente entre os gêneros em nosso país, por outro, a mulher geralmente é mais envolvida social e afetivamente, o que atua a seu favor como fator protetor [...] (NÉRI, 2001, p. 26).

Assim, estimulada e sustentada por estes temas nos propomos a investigar se uma possível relação entre suporte social e qualidade de vida é significativa para a promoção da saúde de idosos, na medida em que tenham acessos favorecidos aos recursos que os sustentem física, emocional e socialmente.

Desta forma, consideramos a importância em estudar e identificar como idosos percebem seu momento atual de vida e o suporte social de que disponham, gerando-lhes sentimentos positivos que lhes favoreçam promoção de saúde, que os remetam a usufruir desta fase de vida, com maior empenho e motivação, indo ao encontro dos recursos ofertados pela sociedade para a melhoria da sua qualidade de vida.

Com estas considerações, que fundamentam nossa pesquisa e estudo, apresentamos a seguir os objetivos que buscamos alcançar desejando de alguma forma, contribuir e aprofundar os conhecimentos sobre o processo de envelhecimento saudável.