Segundo a Resolução CNE/CP nº 1/2002 (BRASIL, 2002), que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica em Nível Superior, em seu art. 3º, aponta a pesquisa com foco no processo de ensino e de aprendizagem, uma vez que ensinar requer tanto dispor de conhecimentos e mobilizá-los para a ação, como compreender o processo de construção do conhecimento. A perspectiva teórica e prática, aliada à pesquisa e na formação de professores, tem sido extensivamente discutida por diferentes autores (LÜDKE, 1993, 2001; ANDRÉ, 2006).
Segundo André (2006), a pesquisa ganha relevância na formação de professores no final da década de 1980. Diferentes pesquisadores argumentam em favor da pesquisa no processo de formação inicial de professores e têm em comum algumas proposições:
[...] todas elas valorizam a articulação entre teoria e prática na formação docente, reconhecem a importância dos saberes da experiência e da reflexão crítica na melhoria da prática, atribuem ao professor um papel ativo no próprio processo de desenvolvimento profissional, e defendem a criação de espaços coletivos na escola para desenvolver comunidades reflexivas. (ANDRÉ, 2006, p. 57).
A pesquisa é uma das estratégias para os cursos de formação de professores, e a problematização da realidade escolar está presente em todas as disciplinas, enquanto projeto de curso de formação de professores. Tozetto (2014, p. 29) ressalta a relevância da pesquisa no processo formativo e afirma que “a formação do professor deve fundamentar-se em uma sólida reflexão sobre as questões básicas relativas à educação, portanto, a pesquisa é um caminho para atender a essa necessidade”, desenvolvendo relação com as necessidades das escolas.
Nesse sentido, Lüdke (2001) destaca a atividade de pesquisa como indispensável à prática pedagógica do professor, pois é através da pesquisa que ele se modifica e constrói conhecimento. A autora afirma que “a primeira realidade a ser modificada por qualquer pesquisa é a do próprio pesquisador” (LÜDKE, 1993, p. 32), pois, no processo de pesquisa, descontrói saberes do senso comum e avança no conhecimento da realidade em que está imerso, chegando ao intelectual orgânico.
O conhecimento profissional deve se originar a partir dos problemas da prática, ou seja, durante a inserção dos futuros professores na escola através do Estágio Supervisionado, num contexto “onde os próprios professores estejam engajados em pesquisa educacional fundamental, na qual eles articulam problemas práticos e propostas de soluções” (LÜDKE, 1993, p. 33). A complexidade da prática pedagógica cotidiana exige do professor decisões e ações imediatas, não sendo possível, muitas vezes, se distanciar para analisar a situação.
Dessa forma, André (2006, p. 59) enfatiza que os cursos de formação têm um importante papel: “o de desenvolver, com os professores, essa atitude vigilante e indagativa que os leve a tomar decisões sobre o que fazer e como fazer nas situações de ensino, marcadas pela urgência e pela incerteza”. Assim, o futuro professor deve aprender a observar e a formular hipóteses sobre os problemas encontrados em sua prática pedagógica, ou seja, uma prática problematizadora, ao passo que os problemas que emergem da escola conduzem a pesquisa.
Nessa concepção de formação e pesquisa, a problematização e a reflexão sobre a realidade diagnosticada permitem maior clareza e conhecimento sobre o campo de atuação. De tal modo, o ponto de partida “não será a escola, nem a sala de aula, mas a realidade social mais ampla” (GASPARIN, 2002, p. 3). Com isso, desenvolvem nos futuros professores habilidades de observação e intervenção na realidade, envolvendo a totalidade do processo formativo do intelectual orgânico. Dessa forma, é possível a superação da dicotomia teoria/prática, ainda presente em muitos currículos de cursos de formação de professores.
De acordo com Gasparin (2002, p. 2), o novo posicionamento implica “uma nova atitude do professor e dos alunos em relação ao conteúdo e à sociedade: o conhecimento escolar passa a ser teórico-prático”, ou seja, deve ser teoricamente estruturado como elemento central na transformação da sociedade. A pesquisa utilizada como um método na formação de professores possibilita ao futuro docente ampliar sua análise do contexto real, superando dificuldades em buscar informações e passando a analisá-las através de atividade investigativa da realidade e do contexto social. A pesquisa pensada nessa perspectiva deve estar articulada com as atividades práticas do processo formativo, sendo considerada elemento imprescindível na formação de professores. Isto exige a “conjugação necessária da atividade de pesquisa a todo desenvolvimento do currículo planejado para o curso” (LÜDKE, 1993, p. 36).
Corroborando com Lüdke (1993), André (2006) afirma que a pesquisa deve ser utilizada como elemento mediador em todo o processo de formação, ou seja, “que as disciplinas e atividades do curso incluam a análise de pesquisas que retratem o cotidiano escolar, visando aproximar os futuros docentes da realidade das escolas” (ANDRÉ, 2006, p. 61). Isso faz com que os futuros professores refaçam os processos de pesquisa e discutam aspectos metodológicos e resultados evidenciados.
Para que os professores em formação construam seu conhecimento a partir dos problemas da prática, é necessário, além de um planejamento curricular, uma colaboração entre dois tipos de pesquisadores. Afirma Lüdke (2001, p. 91), “o de dentro da escola e o de dentro da universidade”. Esse aspecto evidencia o desafio para que a pesquisa − importante elemento da formação do intelectual orgânico − se solidifique nos cursos de formação e nos espaços escolares.
O futuro professor que não tiver acesso à formação e à prática de pesquisa terá, a meu ver, menos recursos para questionar devidamente sua prática e todo o contexto no qual ela se insere, o que o levaria em direção a uma profissionalidade autônoma e responsável. Trata-se, pois, de um recurso de desenvolvimento profissional, na acepção mais ampla que esse termo possa ter. (LÜDKE, 2001 apud ANDRÉ, 2006, p. 48)
A possibilidade de realização da formação de professores, nesta perspectiva, cria uma nova cultura nos cursos de formação de professores, e a investigação passa a ser um momento de geração de conhecimentos e contribui para a constituição do professor em um intelectual transformador.