O último contraponto que gostaríamos de apresentar para encerrar este capítulo foca na percepção dworkiniana do ceticismo externo do erro. Para Dworkin, essa espécie de ceticismo lança um “desafio filosófico”, de um ponto de vista supostamente distante do debate moral, no qual uma proposição moral é verdadeira apenas se algo no mundo que cause sua verdade. Desse modo, deveriam existir partículas “mórons” que revelassem quais julgamentos são verdadeiros, já que elas não existem, então, todas as proposições morais são falsas. Tal perspectiva assumiria
71 No original: “[…] we are perfectly within our rights to draw moral conclusions from wholly factual
premises – so long as we regard our reasoning as creating a balance of probabilities, rather than as guaranteeing the truth of the conclusion.”
uma posição arquimediana e o debate acerca da moral só poderia ocorrer a partir de pressupostos morais.
Todavia, a preocupação dos céticos do erro aparentemente não exige partículas “mórons”, nem envolve considerações substantivas a respeito das proposições morais serem objetivamente falsas. Do modo como Michael Smith (2010) entende esse tipo de ceticismo, o objetivo é esclarecer uma incoerência não tão óbvia em nossas proposições morais, pois, quando afirmamos a verdade de um juízo moral, necessariamente estamos também afirmando uma série de qualidades que não podem ser conjuntamente verdadeiras com tal juízo. Sendo incoerente sustentar a verdade de todo o conjunto, os céticos optam por desistir da verdade no domínio moral.
Essa perspectiva seria uma forma interessante de entender uma das alegações fundamentais do ceticismo do erro, seu o “argumento da estranheza” (argument from queernss):
Mackie diz que nós concebemos a bondade moral como uma característica objetivamente prescritiva das coisas, e – em pelo menos um modo justo e direto de entender o argumento – na medida em que concebemos uma propriedade como sendo objetiva, nós a concebemos como algo que não pode ser prescritivo, e na medida em que concebemos uma propriedade como sendo prescritiva nós a concebemos como algo que não pode ser objetivo (SMITH, 2010, p. 513, tradução nossa).72
A conclusão que se tira do “argumento da estranheza” é a de que, portanto, nada tem a propriedade de ser moralmente bom, pois seria conceitualmente incoerente dizer que algum ato a possui.
Para esclarecer esse ponto, Smith recorre ao argumento sobre a inexistência de Deus sob o fundamento de que a ideia de um criador de todas as coisas totalmente bondoso, poderoso e onisciente não faz sentido. Para ser todo poderoso, Deus teria que ter habilidades criativas maximizadas de tal forma que ele seria capaz de criar uma pedra que ele próprio não conseguiria levantar. Além disso, ele também teria que ter o poder máximo de levantamento de peso, de forma que ele fosse capaz de levantar qualquer coisa, incluindo toda pedra que existe. Nesse sentido, a ideia de
72 No original: “Mackie says that we conceive of moral goodness as an objectively prescriptive feature
of things, and – on at least one fairly straightforward way of understanding the argument – in so far as we conceive of a property being objective, we conceive of it being such that it could not be prescriptive, and in so far as we conceive of a property as being prescriptive we conceive of it as being such that it could not be objective.”
Deus é incoerente porque demanda, de um ponto de vista conceitual, que ele crie uma pedra tão pesada a ponto de ele mesmo não conseguir levantá-la, ao mesmo tempo em que ele tem o poder máximo de levantamento. Disso segue que não existe tal propriedade como “todo poderoso” e, então, tal ser não existe.
Se esse modo de apresentar o ceticismo do erro estiver correto, então, a acusação de Dworkin de que ele não passaria de posições morais disfarçadas pode ter um ponto frágil. A afirmação de que a qualidade moralmente boa tem uma característica de aspecto objetivamente prescritivo não é um juízo moral, ela decorre de uma análise conceitual. Ademais, seria difícil identificar algum pressuposto moral na ideia de que existe uma incoerência em apostar que uma proposição possa ser, ao mesmo tempo, objetiva e prescritiva. Tal pressuposto também estaria ausente na conclusão de que se algum ato pode ser moralmente bom, ele teria uma propriedade cuja verdade é o resultado de uma incoerência conceitual (SMITH, 2010).
Outro elemento a respeito do ceticismo do erro que podemos destacar é que, para Dworkin, os céticos do erro também estariam alinhados a uma hipótese falsa, chamada de dependência causal (DC), segundo a qual as pessoas não possuiriam qualquer fundamento para sustentar a objetividade de seus juízos morais se a verdade moral não for a causa de tais juízos.
Podemos organizar esse ponto da seguinte forma: (i) o ceticismo do erro é verdadeiro apenas se a DC é verdadeira, (ii) a DC é falsa, logo, (iii) o ceticismo do erro também é falso. Um problema em potencial para o argumento é que, mesmo estando convencidos por Dworkin de que a DC é falsa, a conclusão decorrente disso não pode ser a exposta em (iii), pois um dos fundamentos centrais da teoria cética do erro de Mackie, calcado na noção de superveniência, não depende da verdade da DC (SHAFER-LANDAU, 2010).
O argumento da superveniência traz uma outra face da “estranheza” de qualidades morais objetivas:
Outro modo de revelar essa estranheza é perguntar, sobre qualquer coisa que supostamente possui alguma qualidade moral objetiva, como isso está ligado com suas propriedades naturais. Qual é a conexão entre o fato natural de que uma ação é um caso de crueldade deliberada – por exemplo, causar dor só por diversão – e o fato moral de que ela é errada? Não pode ser uma vinculação, uma necessidade lógica ou semântica. Ainda assim, não é que simplesmente essas duas características ocorrem juntas. O errado deve de algum modo ser ‘consequencial’ ou ‘superveniente’; é errado porque é um caso de
crueldade deliberada. Mas o que no mundo é significado por esse ‘porque’? E como sabemos a relação que isso significa, se isso é algo mais do que ações sendo socialmente condenadas, e condenadas por nós também, talvez através das nossas atitudes absorvidas de nosso ambiente social? Não é nem mesmo suficiente postular uma aptidão que ‘vê’ o errado: algo deve ser postulado que possa ver de uma só vez as características naturais que constituem crueldade, e o errado, e misterioso vínculo consequente entre os dois (MACKIE, 1977, p. 41, destaques do autor, tradução nossa).73
Desse modo, se não há explicação plausível sobre como propriedades morais dependem de propriedades não morais, então, verdades morais não conseguiriam se sustentar. Além da dificuldade de estabelecer a relação entre propriedades morais e elementos naturais, saber como uma ação é moralmente boa ou ruim em virtude desse elemento levanta ainda um desafio epistemológico vinculado à capacidade de conhecer tal conexão, seja ela causal ou de outra espécie.
Após considerar diversas possibilidades de assimilação entre características morais e não morais e sobre como poderíamos chegar a ter conhecimento disso, Mackie (1977) acredita que qualquer argumento a favor da objetividade da moral não é convincente, por isso, sua conclusão é a de que seria melhor abandonarmos qualquer pretensão de objetividade de qualidades morais como “certo” ou “errado”, considerando nossos juízos nesse campo apenas como expressões subjetivas projetadas num mundo que não contém em si mesmo qualquer característica moral.