rua e no canto direito da imagem uma alusão a figura do vaqueiro cedendo espaço para o urbano. Jornal Feira Hoje. Feira de Santana. 14 mar. 1983, p. 5.
Junto à feira do gado, formou-se uma feira livre, que logo se tornaria uma das principais feiras do Norte e Nordeste do Brasil. A feira livre funcionava às segundas-feiras, na atual Avenida Getúlio Vargas, até a década de 1970, e atraía um enorme contingente populacional. Segundo Rollie Poppino:
O estudo do comércio, em Feira de Santana, não ficaria, contudo, completo, sem uma notícia da feira semanal. Esse mercado, em Feira de Santana, é que permitia aos residentes da região circunvizinha uma oportunidade pra vender o gado em pé e os produtos agrícolas e para comprar as utilidades necessárias, que não poderiam obter onde residiam... Em 1950, a compra e a venda do gado vivo e da produção agrícola ainda predominavam na feira116.
116
A feira livre deu impulso à cidade de Feira de Santana, construindo a sua visão de cidade comercial. A proximidade da região metropolitana de Salvador facilitou o escoamento de boa parte de sua produção agrícola e de carnes.
Rossine Cruz reafirmou essa posição de Feira de Santana como centro de convergência comercial. Observou que os movimentos de articulação comercial e de integração produtiva do capital nacional que utilizaram e criaram – e por isto mesmo tornaram este espaço privilegiado para facilitar a circulação do capital117. Ou seja, a cidade recebeu investimentos estatais e federais, a partir da década de 1960, com o processo de desconcentração econômica das grandes capitais. Com esta análise, Cruz avançou em comparação a Poppino.
Feira de Santana: uma modernização “forçada”
A posição de grande cidade comercial e os impulsos industrializantes geraram processos modernizantes e urbanísticos em Feira de Santana, sobretudo, nas décadas de 1970 e 1980.
A industrialização feirense não eliminou as tradições da feira livre nas áreas centrais da cidade. Foi uma tentativa que não obteve sucesso total. Não era apenas os feirantes e populares os interessados em manter a feira livre, mas a aristocracia da região não queria ter seu poder à margem do surto industrial em Feira de Santana. Sobre a questão, Santos constatou o seguinte:
Tentava-se consolidar em Feira de Santana uma nova hegemonia, que colocasse um obstáculo ao domínio agro-mercantil nas relações sociais feirenses. Este projeto ficou expresso na insistente proposição pelos políticos da ARENA na eleição de João Durval, considerado como o político da industrialização feirense, em oposição aos políticos do PSD, considerados como os representantes das elites rurais118.
117
CRUZ, 1999, op.cit., p. 233.
118
O desenvolvimento industrial feirense ocorreu em plena ditadura militar, que através das políticas de desconcentração econômica e da posição estratégica de Feira de Santana119, aliado a formação da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – SUDENE serviu ao projeto industrial na referida cidade120.
A elite governante de Feira de Santana pedia passagem, por meio de uma postura que não respeitava as tradições, aliada às práticas ditatoriais. Portanto, forçada a uma urbanização modernizante, que encontrou apoio em outros segmentos da sociedade, inclusive em projetos sociais como a Associação Feirense de Assistência Social (AFAS) e o Serviço de Integração de Migrantes (SIM), dirigido pelos presbiterianos progressistas em trabalho ecumênico, que contava com apoio de católicos, espíritas e outros grupos evangélicos.
Elizete da Silva fez referência ao trabalho ecumênico desenvolvido na AFAS e no SIM, que tinha como propósito ser uma resposta aos problemas sociais da cidade, através do encaminhamento de migrantes e mendigos ao mercado de trabalho e conscientização dos mesmos, em uma lógica capitalista, própria da perspectiva de mundo protestante.
Os jovens seminaristas da década passada (1950), agora pastores, tinham diante de si a realidade concreta da região feirense, contraditoriamente próspera e miserável pela grande atração que exercia sobre a população pobre e desempregada do Nordeste, que chegava à cidade em busca de sobrevivência e oportunidades. A teologia ecumênica e contextualizada, que aprenderam teoricamente, era um desafio na práxis cotidiana da sociedade feirense.121
Ou seja, havia o interesse de atuação, na recuperação e reinserção social de grupos marginalizados em Feira de Santana, atendendo interesses dos poderes públicos, de limpeza e adequação da cidade aos seus interesses comerciais e industriais, próprio das grandes metrópoles. Buscava-se, assim, forjar sua origem comercial e de caráter europeizante. A Princesa do Sertão, entrava na rota de uma cidade moderna e progressista. Como eram pensados os próprios projetos urbanísticos do período.
119
Ver mapa em anexo.
120
CRUZ, 1999, op.cit.
121
SILVA, Elizete da. Protestantismo Ecumênico e realidade brasileira. UEFS. Feira de Santana. 2007, p. 131-2. (Trabalho de professor pleno).
Sobre urbanização, Eloísa Petti Pinheiro comentou que a organização das cidades transformou a área rural, com a dominação das classes citadinas sobre as rurais. O que se constata em Feira de Santana, suscitando práticas geradoras de cultura urbana122. Pinheiro afirmou que as cidades são reflexos do tempo, ideologias, políticas e da própria sociedade:
Nas cidades brasileiras, a reforma urbana realiza-se em princípios do século XX, constituindo o ápice de um longo processo que começa, a partir da metade do século XIX, a mudar a imagem das áreas urbanas, a fim de adaptá-las aos novos ideais modernos e higiênicos, decorrentes do avanço científico, de novas tecnologias e de novas ideologias. Com o advento das modernas teorias urbanas, pois muda- se a forma de estruturar, de pensar, de ver e de viver a cidade123.
Essa modernização e urbanização que chegavam à cidade era, em muitos aspectos, inspiradas de grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e a própria Salvador124, que tiveram seus processos de urbanização nas primeiras décadas do século XX. O Rio de Janeiro, por ser uma das primeiras cidades brasileiras a sofrer estes efeitos, serviu como um espelho a diversas outras cidades. Contudo, o referido modelo citadino de oposição campo e cidade não se aplicava a Feira de Santana, que buscou, em sua almejada e conturbada urbanização, a aliança conflituosa entre o tradicional e o moderno.
122
PINHEIRO, Eloísa Petti. Europa, França e Bahia: difusão e adaptação de modelos urbanos. Salvador. EDUFBA. 2002, p. 22.
123
PINHEIRO, 2002, op.cit., p.25.
124
Ainda sobre a modernização em Salvador, ver: LEITE, Rinaldo, A rainha destronada: discursos das elites sobre as grandezas e os infortúnios da Bahia nas primeiras décadas republicanas. PUC – SP. São Paulo. 2005. UZÊDA, Jorge Almeida. O aguaceiro da
modernidade na cidade do Salvador. Salvador. UFBA, 2006; PINTO DE AGUIAR, Manoel.
Foto 3. A tradicional feira. O modelo urbanístico pensado para Feira de Santana não