Quelques notations et rappels
Définition 3.2. Nous définissons la multinomiale
Dimensão interacional
Relativamente ao conto áà a aàdoà a e ,àaàsuaàa lise ficaria incompleta se não se recorresse à contextualização, uma vez que, conforme se verificou acima, os contos do Panchatantra fazem parte integrante de diálogos/situações envolventes. Assim, do ponto de vista da dimensão interacional, este conto encontra-se enquadrado num contexto dialogal através do qual percebemos o posicionamento enunciativo do narrador. Repare-se na forma como o narrador dá o conselho ao narratário:
… àthe eàisàa àeffe ti eàp o edu eàothe àtha àthe six expedients. This Ià illàadopt,àa dà illà selfàleadàtheà a àtoà o ue àtheàe e . 89
Tanto a modificação do nome procedure (procedimento) através do adjetivo effective como a proposta de ser ele próprio (narrador) a levar a cabo essa tarefa (This
88Hê juwanô! Thagô thi chêti nê rahewun. Tê lôkôni wátnô kaDhi bharôsô karwô nahin. Jê wát pôtá nê
s hiàl gu àt jàa alàka .
89 Existe um procedimento eficaz, diferente dos outros seis. Eu próprio irei adotá-lo e liderar o caminho para a conquista do inimigo.
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I will adopt and will myself), o que revela uma postura pró-ativa do narrador, contribuem para reforçar a posição enunciativa do locutor, segundo o qual o comportamento dos três patifes deve ser imitado para derrotar o inimigo.
Em C2, o narrador tenta agir sobre os narratários através da focalização da moral, inscrita no final do texto:
Ó jovens! Permaneçam longe dos ladrões. Nunca confiem no que eles dizem. Devem sempre fazer aquilo que acharem melhor.90
Neste conto, ao contrário de C1, a intenção comunicativa do narrador é outra: alerta-se claramente os jovens que se devem defender de burlões.
Relativamente a C3, a frase final, que desempenha o papel da avaliação, ainda que seja apenas uma constatação, não deixa de ter uma componente interacional, pois trata-se de uma chamada de atenção para o facto de que existem pessoas que dizem mentiras utilizando a estratégia descrita.
Dimensão configuracional
Ainda antes do início do conto C1, a focalização das características das personagens e do seu comportamento (The strong, deft, clever rascals note,/Who robbed the Brahman of his goat), que se repete no final do conto, é feita através de uma nominalização avaliativa (com características pejorativas – rascals), contudo modificado pela adjetivação valorativa (strong, deft, clever), ao mesmo tempo que o ato de roubar (who robbed), associado a estas personagens é um ato universalmente condenado. Tudo isto contribui para o caráter ambíguo da posição enunciativa do narrador. Estas personagens (os patifes) espiam (spying), cobiçam (if we could eat the creature), encenam para enganar (mudam de roupa e aparecem em frente ao brâmane com aspetos diferentes), acusam (dizendo que ele está a segurar num cão/bezerro morto/jumento ao colo) e ridicularizam (apontando um defeito, o de estar
90H àju a àThag àthià h tià à ahe u .àT àl k ià t àkaDhià ha s àka à ahi .àJ à tàp t à à
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a carregar um cão/bezerro/burro, atos que são condenáveis naquele contexto), atitudes que revelam características negativas. Contudo, os ladrões agem deste modo por se encontrarem famintos (whose throats were pinched with hunger).91 A utilização
desta fraseologia de cariz hiperbólico atenua a gravidade do ato que as personagens estão prestes a cometer. Logo a seguir, porém, a intenção de enganar (let us fool him) vem de novo acentuar a crueldade do ato. Quando se dirigem ao brâmane, os patifes utilizam nominalizações avaliativas (pious Brahman, holy Sir) que o valorizam, ao mesmo tempo que o humilham com falsas acusações. A utilização da expressão avaliativa interjetiva com função interativa (alas) coloca o segundo patife numa situação de superioridade perante o brâmane, uma vez que a interjeição tem como objetivo recriminar o imaginado ato do brâmane, que, segundo esse ladrão, estaria a carregar um bezerro morto.
Quanto ao brâmane, o nome que lhe é atribuído pelo narrador (Friendly), bem como o facto de necessitar de pedir, criam no ouvinte uma simpatia para com esta personagem que será alvo do logro. No entanto, não é para se alimentar que esta personagem pede a cabra, mas para a oferecer em sacrifício religioso, (he went to another village to beg a victim for the sacrifice), o que faz com que se possa justificar o roubo dos patifes que, afinal, queriam a cabra para se alimentar. Podemos ver que, neste conto, a moral implícita é ambígua, indo da condenação do ato de enganar/roubar à aprovação desse mesmo ato.
Noà o toà Osàt sà e ti osos , ainda que haja apenas uma pequena diferença ao nível da construção dos mundos possíveis, ao nível da dimensão configuracional, a imagem dos três mentirosos é sempre negativa. Assim, a referência aos três mentirosos é sempre feita com a utilização de nominalizações avaliativas com valor pejorativo (burlões, criminosos – dhutárá, thag), que apontam para um ato universalmente condenado. Aqui, o motivo que os leva a roubar a cabra não é a fome, como acontecia em C1, mas o facto de se sentirem tentados (Os três sentiram-se tentados)92, pretendendo roubar a cabra apenas porque não comiam de barriga cheia
91 Com o estômago colado às costas. Uma tradução mais linear desta expressão seria cujas gargantas se encontravam apertadas com fome.
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(Há já muitos dias que não comemos de barriga cheia – (Não comemos bem [de barriga cheia] há muitos dias)93 e desejavam fazer um banquete:
Se nos conseguíssemos apoderar desta cabra esta noite podíamos fazer um banquete.94
A utilização de um verbo marcado com valor negativo (thagui leié - apoderar- se através do engano), relacionado com os atos dos mentirosos, bem como a referência ao riso, marca paraverbal associada a um comportamento negativo, o de destruir a face do sacerdote, também contribui para a criação da imagem negativa dos três ladrões.
Relativamente ao brâmane, o ouvinte sente desde o início compaixão por esta personagem. Assim, a caracterização do sacerdote é feita com recurso à utilização do modificador restritivo po e à e à ha ia um brâmane po e 95, associado a
fraseologias que salientam esta característica:
a) portanto não importa o quanto ele se esforçava, não conseguia alimentar suficientemente a família 96 – esta expressão traduz a sua incapacidade de lidar com
os problemas;
b) esta aà fa toà daà suaà po eza 97 – esta expressão de reforço informativo
indica uma situação extrema de desespero;
c) os seus filhos nem tinham leite para beber.98 – a conjunção copulativa nem
(panr) asso iadaà aoà leite (dudh), alimento essencial para os filhos, traduz a incapacidade de cumprir uma obrigação paternal, a de prover o sustento dos filhos.
Estas expressões acentuam o estado de indigência da personagem, facto que nos leva a condenar o ato dos ladrões e a sentir simpatia pelo pobre homem, descrito como alguém que necessita de ajuda, despertando o sentimento de solidariedade. Além disso, o facto de querer tratar bem a cabra do fazendeiro ao ponto de querer
93 ÁpRen ghanRá diwass thi bhar pêt khádhun nathi.
94 Jô á bakri ápaRên Thagui leié tô ájê sánjê ápRen bhar pêT shándár bhôjan lei shakiyê. 95 Ek gharib brahmanr hato.
96 Etlé ê gamê tetTi mehnat kartô chhatá té pôtá ná kuTum nê peT purtun khawRáwi shaktô nahin. 97 Pôtá ni daridhraté thi ê khub kantaRi gayô hatô.
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levá-la ao colo, ainda que contra a vontade do animal, revela o caráter humano do brâmane.
Do ponto de vista configuracional, a nominalização avaliativa ribaldos inserida no título de C3 contém um sentido pejorativo, pois caracteriza as quatro personagens (tal como se verifica no conto em gujarati, com a utilização de e ti osos à dhutárá). A condenação deste ato é reforçada pela utilização da forma verbal aperfiou que indica a insistência do ladrão em convencer o aldeão. Este, por seu turno, é caracterizado de rústico, adjetivação que lhe confere alguma ingenuidade, mas que, ao mesmo tempo, contém um traço pejorativo. A fórmula de tratamento utilizada para se dirigir ao ladrão (irmão), que, aliás, se assemelha às fórmulas de tratamento orientais, reforça esta ingenuidade, uma vez que o aldeão, ao colocar-se no mesmo nível que o ladrão, deixa transparecer que não consegue pressentir o perigo, não consegue distinguir um ladrão de um transeunte sem qualquer intenção maléfica. Verificamos, assim, que existe aqui uma ambiguidade, pois a maldade dos ladrões não é reforçada, pelo que se poderá inferir que o que é aqui criticado e penalizado é a credulidade do aldeão (rústico).
A análise acima efetuada revela que, em termos avaliativos, ainda que C1 e C2 sejam variantes do mesmo conto, os dois textos apresentam uma mensagem completamente divergente. Enquanto a moral, em C1, é ambígua, condenando o ato de enganar, mas dando um benefício de dúvida aos três patifes, em C2 não há lugar a dúvidas, indo a moral ao encontro dos valores axiológicos da sociedade. Por outro lado, C2 e C3, embora pertencentes a regiões cujas culturas são completamente diferentes (indiana e portuguesa), são os contos que mais se aproximam em termos avaliativos, pois apresentam uma ambiguidade em termos de moral, podendo estes dois textos ser lidos de uma forma plural (enganar é incorreto/a credulidade é castigada).
C1 pode, portanto, ser lido de duas maneiras. Por um lado, sendo o engano universalmente condenado, devemos ter cuidado com ladrões fortes, habilidosos e espertos e não devemos ser crédulos e acreditar em tudo o que nos dizem; além disso, se duas pessoas confirmam um facto/ constroem um mundo possível, isso não quer
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dizer que estejam a dizer a verdade, há que verificar essa veracidade. Por outro lado, não podemos deixar de pensar que afinal as três características dos ladrões acima apontadas (fortes, habilidosos e espertos) são positivas, facto que nos leva a pensar que a descrição das personagens aponta para um tratamento favorável. Além disso, os três patifes apenas pretendem roubar a cabra para resolver uma situação de pobreza extrema (estavam famintos e não comiam há muitos dias), enquanto o brâmane apenas quer a cabra para a sacrificar, o que é um desperdício face à necessidade que os ladrões tinham. Deste modo, a moral também pode ser O fim justifica os meios.
Em C2 não pode haver lugar a dúvidas quanto à moral, não apenas porque a mesma se encontra explicitamente inscrita no final, como também por, desde o início, a sua presença se fazer sentir através de estratégias avaliativas de modificação e de encenação dos acontecimentos que caracterizam de forma valorativa a personagem brâmane e de forma pejorativa os três mentirosos. Neste conto não há lugar para a a iguidade,àpode doàaà o alàse à Não devemos ser crédulos e acreditar em tudo o que nos dizem; se duas pessoas confirmam um facto/ constroem um mundo possível, isso não quer dizer que estejam a dizer a verdade, há que verificar essa e a idade ,àe que, aliás, se encontra presente no final do conto ( Permaneçam longe dos ladrões. Nunca confiem no que eles dizem. Devem sempre fazer aquilo que acharem melhor ).
C3 apresenta uma mera constatação no lugar da moral, o que atenua, por um lado, o ato de roubar, condenando, contudo, a credulidade e a ausência de espírito crítico e de autoconfiança.
151 Quadro 32 - A construção da moral nos três contos analisados (C1, C2 e C3)
Estratégias A cabra do brâmane Os três mentirosos Os quatro ribaldos Focalização No início e no fim do conto,
através da referência a uma situação específica. No final do conto através do destaque da moral da história. --- Desfocalização ---- ----
A frase final, que deveria ser uma lição de moral bem
assinalada, é uma constatação.
Responsabilidade enunciativa
conselheiro do rei dos corvos (personagem com autoridade)
Não especificada Não especificada
Modificação Presente na caracterização das personagens Presente na caracterização das personagens Presente na caracterização das personagens Pl u ral id ad e d e lei tu ra Moral ambígua:
- Comentário inicial e final do narrador (patifes + fortes, habilidosos, espertos)
- Patifes: famintos
- Brâmane: quer a cabra para sacrifício
Moral inequívoca
- Comentário final do narrador
- Brâmane: homem pobre, não tem leite para dar aos filhos Os 3 ladrões: roubam para fazer um banquete Moral ambígua: - Comentário final pouco reforçado - Ausência de reforço da maldade do ato dos quatro ribaldos; Aldeão:
sem instrução,
ústi o ,à ujaà
ingenuidade é
castigada.
Moral MORAL: o engano é condenável/o engano, se justificado, pode não ser condenável/através do engano podemos derrotar o inimigo
MORAL: o engano é condenável
MORAL: o engano existe não podemos acreditar em tudo o que nos dizem/se
não tivermos espírito crítico
podemos ser enganados
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