No que tange à construção do espaço, observemos o quadro comparativo abaixo, para, em seguida, analisar este elemento.
Quadro 7: Espaço no texto “Mem 5”
V1 V2 V3 Espa ços ou ambi entes B elém do Pará O utra cidade B elém B airro do Guamá M unicípio de Cametá S oure no Marajó C
asa na mesma rua onde a tia morava - --- - --- - --- C
asa do primo Edivaldo
Ô
nibus
C
urva da estrada
M
unicípio de São Miguel do Guamá B elém B airro do Guamá M unicípio de Cametá S oure no Marajó C
asa na mesma rua onde a tia morava
E
scola
C
asa grande onde morava
C
ozinha da casa
C
asa do primo José
Ô
nibus
C
urva da estrada
M
unicípio de São Miguel do Guamá
I greja
I
greja
Observa-se, no quadro, que, na V1, o único espaço geográfico identificado é a cidade de Belém, local de nascimento da protagonista, mas ela não deixa claro se é lá que os fatos se passam. Cabe ao leitor pressupor que tudo acontece nessa mesma cidade. Há também a referência a “outra cidade” para onde o namorado da mãe de Cristina foi transferido e os dois se mudaram. Não há uma identificação, nessa versão, em relação à cidade para onde eles foram. E, embora não seja Cristina quem se mude, essa é uma informação importante, já que é a mudança da mãe que propicia a ocorrência do conflito que desencadeia uma série de outros acontecimentos no enredo.
Além disso, há ambientes, locais mais específicos dentro dos espaços geográficos, onde os fatos se passam, mas que não são nomeados de forma precisa, exigindo do leitor atenção para entender, pela narração dos fatos, que ambientes seriam esses. O primeiro se refere à residência onde Cristina morava com os pais e depois só com a mãe; o segundo era a residência onde morava com a tia, o terceiro era a residência do pai e o quarto é a residência onde mora com sua família no momento em que rememorava os fatos.
Na V2, a narradora confirma a pressuposição que o leitor precisa fazer na V1 de que os fatos se passam em Belém, local de nascimento dela, ao dizer “Tudo começou quando eu morava no Guamá (...)”. Além disso, já começa a identificar por nome os espaços geográficos em que os fatos acrescidos a essa nova versão ocorreram. Assim, aparecem mais três espaços geográficos em que os fatos vão acontecendo, ao longo da narrativa, que são: os municípios de Cametá, para onde o pai teve que ir embora e onde ela morou por um tempo com ele, após fugir da casa da tia; Soure, na Ilha do Marajó, para onde a mãe se mudou com o namorado, após este ser transferido a trabalho, e São Miguel do Guamá, onde estava participando da festa de carnaval e de onde voltava quando quase sofreu um acidente na estrada. A menção a essas cidades situa o leitor, ao longo de uma dinâmica intimamente ligada aos fatos da memória da protagonista, já que se relacionam com acontecimentos marcantes e com as mudanças de domicílio, que ocorrem seis vezes ao longo da narrativa.
Em relação aos ambientes mais específicos, uma observação a se fazer é que, na V2, em comparação com a V1, é possível notar o aparecimento de informações mais precisas sobre estes ambientes onde os fatos ocorrem e é possível se constatar que, à medida que a narrativa ganha mais detalhes, mais ambientes surgem e elaborados de maneira um pouco mais precisa e direta do que na V1. Exemplifiquemos isso com as informações dadas em
relação à residência em que Cristina morava com os pais. Ela diz: “meu irmão ficou morando sozinho na casa onde morávamos na mesma rua onde minha tia mora”.
Na V3, aparecem os mesmos espaços geográficos e os ambientes exercem representatividade, mesmo não sendo descritos de maneira pormenorizada, pois cumprem, não só o papel de situar o leitor em relação à movimentação da protagonista, como também auxiliam no melhor entendimento dos fatos narrados e da maneira como ela se sentia em relação aos fatos que aconteceram naqueles locais. Como exemplo disso, podemos destacar o trecho em que ela cita a casa onde morava com a tia, na cidade de Belém, no bairro do Guamá, quando ela diz “A casa onde morávamos era muito grande para uma menina de 12 anos cuidar” e outro em que cita o local, no município de São Miguel do Guamá, em que estava participando de uma festa de carnaval. Dar ao leitor uma noção espacial em relação à casa, favoreceu o entendimento sobre o que ela mesma afirma nesta versão; que ela era explorada pela tia e por isso tinha razão de ficar triste com sua condição e cansada, o que ocasionava a falta de paciência para os estudos. Quanto a fazer referência ao local da festa, deu ao leitor condições de melhor imaginar como ela se sentia angustiada no meio de uma festa de carnaval, que pressupõe muita gente, música e um outro ânimo e que, por isso, quis voltar às pressas para a casa da irmã, enfrentando a estrada.
Observa-se, portanto, que, à medida que as versões vão sendo produzidas, ou seja, a reescrita vai se concretizando, o espaço vai se delineando com maior nitidez e contribuindo de forma mais precisa para a construção do sentido global da narrativa, uma vez que a forma como a narradora descreve esses espaços, bem como a relevância que dá a eles, quando decidi identificá-los no texto, deixa clara a importância que tais ambientes exercem em relação à forma como ela se vê inserida no mundo, seja para mostrar como se sentiu triste com a desestruturação de sua família, por ter que sair da casa que era o lar deles; seja quando descreve a casa da tia e o que viveu naquele local, demonstrando frustração e desamor, por estar num local em que era maltratada e de onde decidiu fugir. Dessa forma, é perceptível que os ambientes físicos onde ela se encontra, ao longo do texto, exercem total entrelaçamento com os ambientes sociais em que ela se via inserida nas diversas fases pelas quais a narrativa passa.