2. Méthode d’analyse
3.7. D’autres crises traitées par les manuels
O surgimento da luz elétrica deu início a uma série de experimentos que acabaram por fazer dessa “nova” tecnologia um plural campo de possibilidades para a transgressão da obrigação mimética e a instauração de novas dimensões de significação da cena. A bailarina Loïe Fuller (1862-1928), muito mais considerada como “atriz” para sua época, seria uma das precursoras das aventuras que procuravam colorir a arte com os primeiros efeitos da luz elétrica.
Vestida por grandes tecidos translúcidos, semelhantes às asas de uma
borboleta, Loïe Fuller17, na aurora das cores vivas até então desconhecidas no
espaço de representação, bordava uma coreografia auxiliada por grandes bastões de madeira que acompanhavam o movimento de seus braços, dando forma a um novo corpo. O tecido esvoaçante pululava em coordenadas helicoidais formando
17 Nascida nos Estados Unidos, Loïe Fuller conseguir alavancar sua carreira na França, quando se
apresentou, em 1891, no Follies-Bergères de Paris. Décadas depois, viria a criar o grupo Les Féeries
Fantastiques de la Loïe Fuller, com o qual se apresentaria em vários lugares do mundo, inclusive nos
EUA. Mais sobre sua biografia e seus experimentos com as novas tecnologias da época em BOURCIER, Paul. História da Dança no Ocidente. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
grandes telas nas quais eram projetados feixes de luz das mais variadas cores, cuja reflexão era auxiliada por uma série de espelhos, presos ao chão.
A dança multiforme de Fuller parecia dar vazão a tudo menos à mera materialidade do corpo e do tecido que ali se transformavam. Seria assim, uma das grandes percursoras do encontro entre dança e tecnologia, tornando-se inspiração
para bailarinos e outros artistas contemporâneos18.
Os efeitos da dança de Fuller parecem ir, pois, ao encontro das tendências de instauração de novas dinâmicas de significação da cena mediada pela tecnologia. A luz elétrica e as figuras indefinidas – e, por isso, plurais – que ela desenhará expressarão, em última medida, essa busca, característica da época, de uma cena emancipada da representação mimética, conjugando-se às tendências que buscam superar os dramas de natureza realista e naturalista.
Figura 10: Ilustração dos mecanismos de iluminação desenvolvidos para a dança de Loïe Fuller. Operadores de luz situavam-se aos lados e abaixo do palco com refletores cujos raios atravessavam
gelatinas de diferentes cores, alternadas por meio de discos giratórios. Fonte: HOPKINS, 1991.
18 Vale conferir alguns excertos com o trabalho de Fuller realizados pelas primeiras experimentações
com a tecnologia do cinema. As gravações vão de 1895 a 1908 e incluem filmes dos irmãos Lumière, que retrataram, em 1896, a “Serpentine Dance” em Paris. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=BZcbntA4bVY>. Acesso em: 02 jun. 2013.
A luz elétrica, dinâmica, ágil – e mais importante – controlável por meio de dispositivos mais precisos, iluminará muito mais do que as alvas asas de gaze da bailarina, mas sim novos caminhos, indefiníveis, inalcansáveis por onde fluiria uma reflexão profunda sobre a alma humana e a busca da verdade. Como complementa Steve Dixon:
The then “high” technology of electric light combined with the “low” technology of hidden wooden extension poles to transform the flow of energy of the human body into an image of pure energy and light, which conjured metaphors of clouds, butterflies, and dancing fire (DIXON, 2007, p. 41)19.
A luz na dança de Fuller não está mais a serviço de uma retratação de um mundo real, trazendo à cena a escuridão da noite ou a claridade de um nascer do sol. Muito menos para destacar determinada cena ou gesto em público. Seu foco não está mais sobre a mimesis. A luz na dança de Fuller parece exercer um papel de protagonismo, pois é ela que nos leva para essas novas dimensões até então desconhecidas, é ela que nos permite alçar um voo sobre a materialidade das encenações e nos liberta nas inseguras fronteiras dos significados que pode nos suscitar.
Na coreografia de Fuller, a luz não está mais escondida como no teatro de até então. Escondida no sentido de estar sempre a serviço de um efeito que vai além de si própria, e de um efeito de representação de um referente do mundo real. O ballet de Fuller nos mostra uma luz que não passa de “luz”, liberta de uma obrigação mimética: ali ela dança junto à bailarina e, mais, a essa se funde, numa figura estranha, mas muito bela, que nos trará o sonho e a magia de um mundo com os significados a construir.
Loïe Fuller fez incrível sensação na transição entre os dois séculos. O que impressiona hoje, quando pensamos nos espetáculos da dançarina norte- americana, não é tanto a sua dimensão coreográfica ou gestual, aparentemente rudimentar (...); mas é aquilo que esses espetáculos revelam em relação ao espaço cênico; ou seja, que a iluminação elétrica pode, por si
19“A então ‘alta’ tecnologia da luz elétrica combinou-se à ‘baixa’ tecnologia de extensos bastões de
madeira escondidos a fim de transformar o fluxo de energia do corpo humano em uma imagem de pura energia e luz, que fez surgir metáforas de nuvens, borboletas e fogo dançantes”. (Tradução nossa).
só, modelar, modular, esculpir um espaço nu e vazio, dar-lhe vida, fazer dele aquele espaço do sonho e da poesia ao qual aspiravam os expoentes da representação simbolista (ROUBINE, 1998, p. 23).
A coreografia cintilante de Fuller ainda será campo de experimentos de outros efeitos tecnológicos. Segundo Dixon (2007), a primeira coreógrafa moderna a usar novas tecnologias em suas apresentações incorporou ainda aos seus trabalhos projeções de filmes e efeitos de sombra buscando modificar seu próprio corpo quando em movimento.
Apesar de hoje ser concebida como grande precursora da dança contemporânea e do uso da tecnologia elétrica nas artes, o trabalho de Fuller, cujas formas até então eram desconhecidas, não foi compreendido como vertente da dança à época, mas “variedade” exótica, que seria muito admirada no Follies- Bergères de Paris.