Esse processo possibilitou a consciência da experiência, instituindo as unidades de significação. Atento ao que chegava por meio dos etnométodos dos participantes da pesquisa, articulava expressões e conceitos coloquiais aos parâmetros propostos. Nesta fase, minha mobilização se dava na multirreferencialidade e na intercrítica, para compreender como essa arena semântica é instituinte no movimento das intersubjetividades e nos jogos de poder. Indo-vindo-significando-ressignificando, passei a elaborar as unidades significativas, sínteses plurais, contextualizadas, densificando e conferindo confiabilidade ao procedimento interpretativo/compreensivo, que configura novos conceitos na teorização proposta por esta pesquisa. Dessa forma, foram
plasmadas/forjadas desde minhas intencionalidades primordiais até a análise de conteúdo.
São elas:
a. Formação na existência e aprendências:
- o outro como referência para o conhecimento; - saberes experienciais e conhecimento acadêmico;
- espaço/tempo formativos: família, amigos, cinema, teatro, livrarias, exposições, internet (redes, sites, blogs, banco de dados), televisão, escola/universidade e seus lugares e não-lugares.
b. Etnométodos, insurgências, dilemas e questões cotidianas:
- teorias/ferramentas/métodos/estratégias instituntes lastreadas nas bacias semânticas, individual ou coletivamente, para interações cotidianas;
- o presente como profusão de emergências, urgências e insurgências que alteram e deslocam o instituído.
c. Etnocurrículos:
- currículos vivos, desformatados e desencaixados da oficialidade, que explodem nas interações cotidianas provocados/provocadores de insurgências via etnométodos e existência como formação
d. Formação midiática, consumismo e deslocamento do eixo organizador do social “de cidadãos a consumidores”:
- interpelações para consumo de artefatos culturais;
-consumismo de significados de artefatos para pertencimentos e exclusões;
- consumismo como engendramentos da lógica do capital operados por arranjos governamentais/empresariais;
- pedagogias operando assujeitamentos e subjetivações para produção de efeitos de verdade e fabricação de sujeitos para práticas consumistas.
e. Opacidades e impurezas:
- dificuldades nas práticas docentes em razão das tensões sobre o papel social da escolas no espaço/tempo contingente;
- dicotomias entre as formas de aprender nas escolas e na vida cotidiana fora dela.
Durante esse procedimento, a profusão de informações se deu em diferentes fontes e formas significativas para mim, hermeneuta implicado. Essas noções sobsunçoras provocaram recorrências à minha etnoformatividade, ampliando noções e conceitos, trazendo representações ambivalentes e contraditórias que me lançaram para novas articulações e reagrupamento dos conteúdos, para que o corpus interpretativo pudesse ser redigido com muita clareza nos procedimentos compreensivos, demonstrando rigor heurístico e hermenêutico, com densidade e confiabilidade.
Em minha experiência como etnopesquisador, saliento que é o momento de maior densidade do processo interpretativo, pois não estou trabalhando aqui com a pretensa seguridade que a metodologia científica e os procedimentos acadêmicos possam me garantir como pesquisador; a atitude compreensiva nos altera e nos desloca para além de descrições, interpretações, definições certeiras e aligeiradas dos fenômenos. Gera angústia com a imaginação metodológica, me toma numa tensão interpretativa na urdidura dos significados emergidos para escolhas e marcações que definirão a apresentação da articulação semântica, demonstrando plasmação/forja daquilo que os etnométodos dos atores apresentaram. O rigor hermenêutico é compromisso ético e político com os participantes e com aquilo que está sendo proposto como epistemologia pela academia.
Iniciando as considerações conclusivas, passei a estabelecer totalizações relacionais mediante cartografias semânticas entre mapas de pequena escala e deles com os de grande escala, inspirado pela densidade analítica dos conceitos na perspectiva relacional, glocalização, de Milton Santos, e polilógica, de Dante Galeffi, sem fragmentações, nas ambivalências entre singular/plural, pessoal/comunitário, que se alteram na reciprocidade, em conexão com a problemática proposta por esta pesquisa.
O processo de triangulação ocorreu durante toda a ação compreensiva e analítica da investigação como atitude atenta a todas as possibilidades de contextualização com outras fontes e análises em entretecimento conceitual. Macedo (2009), propositor do que aqui afirmo como minha opção metodológica em etnopesquisa, indica a triangulação ampliada como expansão e abrangência da análise pretendida. Em seu texto
[...] recomenda abrir as interpretações para experiências que se
identificam com e expressam a problemática da pesquisa, não para conquistar validade, [...] já conquistada nos âmbitos da triangulação do contexto específico do objeto de pesquisa, mas para enriquecer a dialogicidade com relações diversas, que o objeto realiza em outros contextos de compreensão. Neste caso, a triangulação torna mais largo o espectro de compreensão da pesquisa, abrindo a pesquisa para a possibilidade de uma generalização analítica [...] (MACEDO, 2009, p. 101).
Nesse movimento, a autocrítica me mobilizou para o cuidado com o bailado dos narcisos, que poderia me rodopiar em danças solitárias, umbigoides, autocentradas em personalismos identitários, em conclusões generativas, produzindo efeitos de verdade interpretativa dos fenômenos. O cuidado ético com a validação implica dialogicidade e ressignificações, confrontação de minhas conclusões com as dos atores colaboradores da pesquisa, bem como com as de comunidades acadêmicas nas quais estou implicado e de outras.
Seguindo a hermenêutica descrita, aqui se consubstancia no âmbito relacional, na heterogênese, compreensões do mundo que a etnometodologia denomina tensões generativas, um pattern numa totalidade aberta e intercriticizada,
articulando saberes e conhecimento em diálogo, etnométodos e produção teórica acadêmica tratando da proposição da investigação.
O próximo capítulo da tese é também uma criação/articulação bricoleur deste pesquisador. Neste texto articulo multirreferencializadamente a teorização sobre mochilas existenciais e insurgências curriculares como etnocurrículos para interações com as pedagogias culturais do tempo presente - rotas de fuga e desgovernos da existência líquida. Nesta trama entreteço os fios dos saberes e conhecimento dos atores curriculantes em seus etnométodos, teorizando suas práticas, os fios da teorização acadêmica sobre os fundantes e os fios de meus saberes e conhecimento implicados e multirreferenciados como pessoa/professor/pesquisador.
Selecionei recortes das narrativas em direção às questões propositivas para apontar as unidades de significação sem elaborar capítulo específico, utilizando somente os recortes. Da forma como bricolei, integro-os no texto da análise, lastreando-a.
"O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te
rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente nem no
futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes." - Valter Hugo Mãe, A Desumanização
5 DAS MOCHILAS EXISTENCIAIS E INSURGÊNCIAS