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ACTIVITÉ 4 Courant continu
No capítulo anterior, no qual nos debruçamos sobre a inserção laboral, mostramos que as trajetórias iniciais do trabalho migrante eram marcadas pela precariedade, condição que mudava segundo o desenvolvimento do comércio informal nas feiras ambulantes. No que diz respeito às condições de moradia, as trajetórias iniciais estão marcadas pela instabilidade e dependência dos lugares de acolhimento. Entre os migrantes aimarás pioneiros dos anos 1950 e 1960, foi muito comum iniciar a residência em espaços destinados unicamente para dormir, denominados popularmente como “tambos124”. Estas
vivendas eram grandes galpões acondicionados precariamente para albergar os migrantes depois do trabalho; geralmente, eram pagos pelos empregadores das chácaras e por empresas para acolher temporariamente o trabalhador imigrante, assegurando a continuidade da mão de obra barata, mais lucrativa125 para o empresário tacneño de origem italiana126. Sabino nos lembra a trajetória dos migrantes pioneiros a partir do relato do encontro com seu pai:
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Tambo deriva de uma palavra quéchua /tanpu/, que foi uma vivenda usada como albergue temporário dos mensageiros incaicos e também serviu como despensa de alimentos. Cumpriu um rol fundamental para articular os caminhos de comunicação do Império Incaico.
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Os relatos são contínuos para descrever as condições de exploração laboral que viveram os migrantes aimarás em Tacna. Destaca-se a omissão dos direitos trabalhistas e os baixos salários, porém, ainda em tais condições, as testemunhas relatam as vantagens laborais de Tacna comparadas com Puno, onde o sistema de “gamonalismo” continuava acentuado para submeter os índios. Para maiores referências sobre o “gamonalismo no Peru” consultar: Manrique, Nelson “Gamonalismo, lanas y violência en los Andes”, em H. Urbano (comp.) Poder y violencia en los Andes, Centro Bartolomé de las Casas, Cusco, 1991 (MANRIQUE, 1991).
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Concluída a Guerra do Pacífico (1879-1883) o governo peruano incentivou a imigração europeia em Tacna. Chegaram fundamentalmente imigrantes italianos que constituíram o grupo de poder econômico da cidade.
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“Lo que yo sé, [llegaban] al Tambo Bacigalupo, como te conté la otra vez, allí llegaban todos los migrantes, [hace un croquis de Tacna] entraban por Tarata y/o por la minas de potosí. El tambo Bacigalupo era por Arias y Aragüés, por el barrio Rospigliosi, cerca al estadio [hace otro croquis]. Por qué le pusieron “tambo” Bacigalupo, porque los Bacigalupo eran los dueños, familia italiana, [acá había un portón] aquí se alojaban todos lo que venían de afuera, solamente venían a dormir nomas […] posiblemente los que pagaban, presumo, eran todos los italianos que viven por acá cerca y empleaban a los migrantes […] Como todos llegaban ahí, a mi madre le dijeron que vayamos ahí, y conmigo fuimos y nos acomodamos con nuestras frazaditas, veía a la gente y decía ¿Estos quiénes son? Hasta que lo vi a mi papá”127.
Na experiência das mulheres aimarás, por sua vez, é muito comum morar temporariamente na casa das famílias tacneñas que as empregam no trabalho doméstico. Esta condição é denominada de “trabalho cama adentro”, no qual a mulher migrante trabalhava em troca de comida e moradia. Esta condição inicial de alojamento temporário também é comum na experiência de crianças que chegam para trabalhar no serviço doméstico. A residência é temporária e condicionada pela continuidade da atividade laboral. Assim, a moradia não é um problema imediato na vida das migrantes, mas emerge como tal quando formam suas famílias ou perdem o emprego.
No decorrer do fluxo migratório, se criam redes de solidariedade entre os aimarás em Tacna. Os migrantes desenvolvem o intercâmbio para subsistir na cidade, com base em vínculos de parentesco ou vínculos comunitários que compartilham desde o seu lar de origem (LOMNITZ, 1978). Estes laços possibilitam o acolhimento dos novos migrantes na residência dos migrantes pioneiros128. Muitos aimarás chegam a Tacna sob recomendação de familiares e conterrâneos residentes na cidade, denominados “tios129”. Os novos são hospedados na casa dos “tios” até conseguir um trabalho e dispor do aluguel de um quarto próprio. Comumente, tanto as casas dos migrantes antigos (os “tios” da comunidade) quanto os quartos que os novos migrantes alugam se localizam nos bairros de Leoncio Prado, Vigil, La Victoria, La Esperanza.
As condições de moradia durante a trajetória inicial podem ser muito variadas, mas são sempre marcadas pela precariedade e pela dispersão. A história de Florência
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Tradução: Os migrantes chegavam ao Tambo Bacigalupo que estava no bairro Rospigliosi, perto do estádio. Por que se chamava assim? Porque a família Bacigalupo eram os donos, uma família italiana, aqui eram acolhidos os migrantes, unicamente para dormir. Eu acho que os que pagavam eram os italianos que moravam por aqui perto e empregavam os migrantes para o trabalho.
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Termo que faz referência aos migrantes mais antigos.
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Condição moral que outorga prestígio e status social dentro da comunidade camponesa aimará. Nomeia os comunheiros mais velhos com quem se possui um vínculo afetivo, seja familiar ou comunitário.
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exemplifica a emergência das redes de solidariedade que matizam a precariedade anterior à fundação do bairro. Ela chegou a Tacna aos 13 anos e foi acolhida na casa de uma
paisana130 que morava no bairro Victoria. Depois, foi recomendada por uma amiga, para trabalhar como empregada doméstica na casa da família Martorell, onde morou durante sete anos. Quando formou sua família, morou em quartos alugados, de casa em casa. Por recomendação de amigas migrantes, solicitou uma casa na Cidade Nova, onde foi residir posteriormente: “andava alugando, de casa em casa, como cigana, porque quando nasce
um filho, a dona de casa começa a criticar”.
Os relatos são contundentes para distinguir a fundação do bairro de migrantes como um momento chave na luta por moradia. A fundação representa um ato de criação e conquista que permitiu aos imigrantes aimarás uma inserção mais estável na cidade e a construção de uma nova identidade.