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Coordonn´ ees de Mumford versus coordonn´ ees thˆ eta

Último dia na Biblioteca. Como fecha mais tarde e para me despedir, decido tomar o café da manhã (antes da hora de abertura ao público) com a bibliotecária e outros funcionários do centro. O registo é muito semelhante ao do almoço. Conheço outro estudante dinamarquês que está a fazer um doutoramento sobre “liberdade” nos trabalhos de Grundtvig. Trocamos algumas ideias, mas os espectros de ambos os estudos são bem diferentes.

Não é de Copenhaga e por isso está alojado num dos quartos que Vartov disponibiliza a preços económicos para quem visita o centro com objectivos semelhantes – aliás, nos contactos iniciais (antes da ida), foi-me colocada essa hipótese.

A situação mais estranha passou-se com um dos presentes na mesa do café da manhã que pergunta se Grundtvig foi padre. Confesso que nem percebi o que ele estava a dizer à primeira, mas a resposta que a colega de Liselotte deu confirmou a suspeita. Tive tentado a dizer… “estás praticamente ao lado da sua estátua … trabalhas mesmo aqui?”. Controlei-me e mais tarde percebi que ele estava a fazer apenas um trabalho pontual. Nem todos conhecem Grundtvig!

A reunião na Associação estava marcada para as 11:00, pelo que a primeira parte da manhã foi utilizada a tirar cópias.

Fui, mais uma vez, bem recebido na Associação. À minha espera estavam Lotte La Cour e Thor West (ver transcrição da Entrevista 1). Quando pensei originalmente em visitar a Escola, o meu objectivo era essencialmente reunir dados que ajudassem a descrever as Folk High Schools Dinamarquesas. Como tal, uma entrevista – ou pelo menos uma entrevista que tentasse abranger todas as questões ligadas às escolas – nunca fez parte dos planos. No entanto, a pesquisa entretanto realizada e a própria sessão do dia anterior foram, por um lado cobrindo as “necessidades” de dados, e por outro, suscitando algumas dúvidas ou necessidade de esclarecimentos. Desta forma a reunião de hoje começou com uma breve troca de impressões sobre os dados recolhidos ou como poderia ter acesso aos que me faltam – sendo que a grande dificuldade é arranjar literatura em inglês. Partimos depois para uma “mini-entrevista” com o objectivo de colmatar as supra mencionadas lacunas.

N. F. S. Grundtvig e as Escolas Populares Dinamarquesas: Contributos para a Educação de Adultos

Ilustração 2 - Entrada da Associação

Esta parte da conversa durou quase cinquenta minutos onde abordamos temas diferenciados. Thor dominou muito a conversa … deu-me a impressão que por dominar melhor o inglês e pelo seu carácter extrovertido – que já tinha observado na sessão do dia anterior.

Ambos têm uma vasta experiência como professores e dirigentes de escolas, sendo que a família de Lotte está envolvida no movimento desde o início – ambos os seus avôs tiveram papéis dominantes em duas escolas.

Confesso que a entrevista não correu exactamente como estaria à espera. Não que as questões chave não tivessem sido abordadas. Foram-no efectivamente. A diferença em relação às expectativas foi mesmo no conteúdo ou no sentido como as questões foram abordadas. Explico-me: o meu ponto de partida é o teórico, e é o teórico das ideias de Grundtvig – que o próprio nunca pôs em prática. O ponto de vista dos meus interlocutores é precisamente o oposto, imerso na prática que se vem afastando das ideias de Grundtvig não por oposição ou antagonismo, mas por desfasamento temporal.

Houve partes da entrevista, onde a minha voz interior interrompia o que diziam “não não é nada disso, o que Grundtvig defende é …”

Voltei para Vartov ainda a tempo do almoço e a parte da tarde foi passada a preencher o plano de recolha de dados. Entretanto Liselotte ofereceu-me uma cópia em francês de um dos livros que eu tinha achado mais interessante e um outro livro fotocopiado. A biblioteca tem uma série de materiais para distribuição gratuita, na sua esmagadora maioria em dinamarquês. Estive um pouco a falar com ela sobre o que tinha conseguido reunir. Disse-lhe que havia uma série de livros que me parecem super importantes, e que inclusivamente já tinha encomendado dois – usados e relativamente baratos através da Amazon. Há um outro, sobre a história das escolas que, no entanto, não consigo encontrar. Liselotte mostra-me um site com

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todas as lojas alfarrabistas da Escandinávia9. Encontramos o livro que eu procurava – está é numa cidade bem longe, por isso vou ter de o encomendar!

Depois de me despedir, dou uma volta pela cidade. A minha cabeça está bem cheia de informação e de ideias … cheia de mais para conseguir organizá-las! Quando chego a casa, Frederik pergunta-me se quero ir dar um passeio. Aceito imediatamente. Fomos ao “bairro” vizinho de Christiania.

Ainda que este momento pareça mais turístico do que relacionado com o objectivo da minha viagem, penso que poderá ser importante acrescentar algumas notas à imagem das excursões do livro de Steven Borish10.

Christiania é uma zona muito afamada de Copenhaga. Por vezes até “mal-afamada”, nomeadamente no que respeita à sua ligação ao tráfico de droga: existe a famosa “pusher street (rua dos traficantes) – onde a venda de drogas leves é feita à vista de todos, tem inclusivamente barracas -, fumam-se charros abertamente e, pior, as máfias dos traficantes têm um poder crescente na “gestão” deste bairro.

Mas Christiania não é só uma zona “freak”, é a auto-proclamada “Cidade Livre”.É uma verdadeira experiência sociológica na sua base e há um enquadramento paisagístico lindíssimo. Tenho muita sorte por ter Frederik como guia: para além de ser um vizinho, é um interessado na história de Christiania. Ao longo do passeio à volta de toda a extensão do da cidade livre (a pusher street é uma parte ínfima em todos os sentidos), Frederik vai-me falando da sua evolução. Esta zona foi durante muito tempo um quartel da Marinha Dinamarquesa. Depois de abandonado foi ocupado por um grupo de estudantes universitários e artistas ligados ao movimento hippie e libertário em 1971. “Eles tinham noção do que estavam a fazer, e de que estavam a fazer história. Existem registos de tudo, … por exemplo para todas as reuniões foram redigidas actas!”11.

Para além de se instalarem na zona e a reestruturarem arquitectónica, artística e sociologicamente, os novos habitantes de Christiania estabeleceram uma comunidade, onde todas as decisões são tomadas em assembleia e por unanimidade. O meu colega diz que este facto tem também servido para a pouca evolução da zona “Para fazer qualquer coisa, tens que convencer toda a gente … basta haver que, por algum motivo, não queira para bloquear tudo e manter o status quo.”

9 http://www.antikvariat.net/ 10

No livro citado (Borish, 1991) o autor introduz ao longo dos diferentes capítulos a descrição de alguns episódios da sua experiência. São situações mais pontuais, a que chama de Excursões, como a visita a um dos pontos mais turísticos de Copenhaga – os jardins do Tivoli. Nestas excursões, para além da descrição exaustiva do que vê, o autor reflecte sobre a sociedade dinamarquesa.

11

“The objective of Christiania is to create a self-governing society whereby each and every individual

holds themselves responsible over the wellbeing of the entire community. Our society is to be economically self-sustaining and, as such, our aspiration is to be steadfast in our conviction that psychological and physical destitution can be averted.” Excerto do manifesto de intenções de

Christiania. Fonte: Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Freetown_Christiania em 15 de Junho de 2011)

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Ilustração 3 - vista aérea de Christiania

O passeio de hoje não foi propriamente um momento para esvaziar a cabeça – um escape – e pelo contrário veio ainda trazer mais matéria para reflexão. Ainda assim a ideia que me invadia o espírito é uma ideia que se pode aplicar ao país, a Christiania e às próprias escolas. É possível que esteja a cair num lugar-comum, mas há falta de melhores palavras: Quando recolhi as primeiras impressões sobre a Dinamarca e sobre Christiania (bem antes de iniciar este trabalho) ou quando conheci Grundtvig e as escolas na minha visita do ano passado; essas impressões levaram-me a construir uma imagem idealizada do país, muito próxima dos meus “valores”, interesses e maneira de pensar. À medida que tenho vindo a desenvolver o meu trabalho de pesquisa ou das várias conversas que tenho tido oportunidade de ter com o meu colega em vários momentos, comecei a estar mais atento às imperfeições e aos defeitos. É óbvio que essas imperfeições existem em todo o lado e que seria, no mínimo ingénuo, não as esperar. Confesso é que a sua percepção acaba por constituir “grãos na engrenagem” … que me fazem duvidar e questionar … “mas onde é que me vim meter?” … isto será assim tão interessante que mereça o investimento (físico, mental, académico, financeiro, familiar, …) que tenho feito?

O passeio de hoje serviu para acalmar essas dúvidas.

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