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Contrat de construction

LA STRUCTURE CONTRACTUELLE

5.4 Contrat de construction

os investigadores no domínio da psicologia social têm privilegiado, nas últi- mas décadas, o estudo da vida diária dos indivíduos, traduzida nas suas ex- periências de interacção com os outros e com os vários contextos de vida do quotidiano. Pretende-se assim conhecer o comportamento humano, as suas múltiplas vertentes para compreender a sua variabilidade e diversidade, quer numa perspectiva geracional e cultural, quer mesmo individual. Esta incursão pelo estudo da vida diária, do comportamento em situação, e a tentativa de conhecer parâmetros e factores potenciadores de maior bem-estar individual e social, promotores de funcionamento óptimo, têm caracterizado o domínio da Psicologia Positiva (Freire, 2006).

É neste contexto que se enquadra o presente artigo. Procuraremos articu- lar aspectos relacionados com o bem-estar e a satisfação com a vida, a quali- dade da experiência subjectiva e a solidão, indicadores que consideramos de referência para o estudo do envelhecimento, e que contribuirão para uma compreensão mais alargada das dimensões sócio cognitivos e afectivos, ine- rentes e implicados neste processo.

Bem-estar

Com o interesse crescente da Psicologia pelos aspectos positivos da exis- tência humana, o bem-estar surge como um conceito chave de investigação neste domínio.

Inicialmente relacionado com o rendimento financeiro (Van Praag e Frij- ters, 1999, citado por Galinha e Pais Ribeiro, 2005), a partir da década de 60, o bem-estar transcende esta dimensão e assume uma dimensão mais global, valorizando outras dimensões da vida dos indivíduos (Novo, 2000). Mais tarde, por volta da década de 80, a quantidade de investigação neste domínio resultou numa crise na definição do conceito (Galinha e Pais Ribei- ro, 2005). Várias conceptualizações acerca da natureza do bem-estar fo-

ram formuladas, com diferentes nomenclaturas, desde o bem-estar psicoló- gico (Ryff, 1989), ao bem-estar subjectivo (Diener, 2000) e à felicidade (Myers, 2000). Na investigação psicológica consolidaram-se duas correntes distintas de investigação nesta área. Dos trabalhos de Ryff (1989) baseados na tradição eudaimónica (centrada na auto-realização, crescimento pessoal e busca da excelência), surgiu o modelo de bem-estar psicológico, onde são enfatizadas dimensões como as de crescimento pessoal, autonomia e propó- sito. Seguindo uma tradição mais hedónica (centrada no prazer), Diener e colaboradores, por sua vez, formularam o modelo de bem-estar subjectivo (BES), que adopta o afecto positivo como traço central do bem-estar (Ryan e Deci, 2000).

O BES, enquanto campo de estudo das ciências do comportamento, tal como é conceptualizado actualmente por Diener, Scollon e Lucas (2003), pretende estudar a avaliação que os indivíduos efectuam das suas vidas. Es- tas avaliações, cognitivas e afectivas, incluem reacções emocionais a acon- tecimentos, assim como juízos cognitivos acerca da satisfação com a vida. O bem-estar subjectivo é formulado como uma dimensão abrangente que inclui a experiência de emoções positivas, baixos níveis de estados de hu- mor negativos e elevada satisfação com a vida (Diener, Lucas e Oishi, 2002). Diener e colaboradores (2003) acrescentam ainda que o termo bem- estar subjectivo enfatiza a avaliação que o próprio faz da sua vida, e não a avaliação do mesmo por especialistas. Estes autores não fazem distinção conceptual entre bem-estar e felicidade, referindo que os dois termos são usados por diversos investigadores como sinónimos. Neste sentido, recente- mente apresentaram um modelo hierárquico com as componentes que inte- gram o modelo do BES, denominado de modelo hierárquico da felicidade. As diversas componentes que integram este modelo são apresentadas na Fi- gura I, tendo subjacente uma conceptualização com diversos níveis de espe- cificidade.

Figura 1: Modelo Hierárquico da Felicidade, (Adaptado de E. Diener e col, 2003)

O nível hierarquicamente mais elevado é ocupado pelo próprio conceito de bem-estar subjectivo. Neste nível o BES reflecte uma avaliação geral da vi- da da pessoa. As várias componentes que se encontram no nível hierarquica- mente mais baixo devem ser medidas de forma a conseguir obter-se um qua- dro abrangente do bem-estar do indivíduo. Num nível intermédio encontram-se as quatro componentes específicas que proporcionam uma com- preensão mais precisa do BES. Estas componentes – afecto positivo, afecto ne- gativo, satisfação com a vida, e satisfação com domínios específicos – estão moderadamente relacionadas entre si, apesar de conceptualmente relaciona- das. Cada uma fornece informações únicas acerca da qualidade de vida sub- jectiva de cada pessoa (Diener e col. 2003).

No entanto, mais recentemente outros autores distinguem a felicidade do bem-estar, descrevendo a primeira como um estado emocional positivo que é definida subjectivamente por cada indivíduo (Snyder e Lopez, 2007). Dado que o modelo de BES de Diener e colaboradores integra a avaliação de di- mensões emocionais positivas mas também negativas e de satisfação com a vi- da, aliado à falta de consenso que existe na literatura em relação ao termos, optamos, no presente artigo, por nos referir apenas ao bem-estar subjectivo e não usar o termo felicidade como sinónimo.

Embora na literatura se observe uma maior prevalência de estudos que usam a conceptualização de bem-estar formulada por Diener e colaborado- res, o modelo de bem-estar psicológico desenvolvido por Carol Ryff (1989)

avalia outras dimensões importantes para a caracterização do funcionamento positivo (e.g. a auto-aceitação, as relações com os outros, a autonomia, os objectivos de vida, o domínio do meio e o crescimento pessoal).

Ryff (1989) define bem-estar psicológico como a percepção pessoal sobre o ajustamento emocional e social em relação aos desafios da vida. Tendo por base a investigação empírica, uma extensa revisão da literatura e a integra- ção de teorias de saúde mental com a perspectiva life-span do desenvolvimen- to humano, a autora propôs um modelo de bem-estar psicológico composto por seis dimensões: 1) a auto-aceitação, o principal traço da saúde mental que se relaciona com a auto-actualização, com o funcionamento óptimo e com a maturidade; 2) a relação positiva com outros, caracterizada pelo inte- resse e preocupação com a esfera interpessoal, percepção pessoal da capaci- dade para estabelecer laços interpessoais significativos; 3) a autonomia, que engloba a auto-determinação, a independência e a capacidade para resistir às pressões sociais; 4) o domínio do meio, na perspectiva de domínio e de competência na forma de lidar com as condições ambientais, assim como a capacidade para escolher e criar contextos adequados aos valores e condi- ções pessoais; 5) os objectivos de vida, incluindo o sentido de direcção e in- tencionalidade, capacidade para reconhecer objectivos e metas a atingir; e 6) o crescimento pessoal, entendido como o movimento contínuo do indivíduo no sentido de desenvolver o seu potencial, crescer e desenvolver-se como pessoa. Novo (2000) sublinha que este modelo tem estado na origem de estudos essencialmente orientados para o aprofundamento da compreensão dos pro- cessos psicológicos subjacentes ao bem-estar psicológico na idade adulta em domínios tão variados como o da psicologia clínica e da psicologia aplicada a contextos sociais, sobretudo na gerontologia social. Para esta autora, o mo- delo de Ryff “ (…) pode ser considerado como uma alternativa integradora da definição e avaliação do bem-estar psicológico. Ao conceber o bem-estar nu- ma perspectiva psicológica abrangente, como o resultado de um conjunto de processos cognitivos, afectivos e emocionais, este novo modelo permite descre- ver amplas dimensões da vivência psicológica subjectiva.” (pp.45).

Apesar da subdivisão encontrada na literatura entre bem-estar subjectivo e bem-estar psicológico, alguns autores têm conduzido as suas investigações no sentido de compreenderem o fenómeno do bem-estar segundo um enqua- dramento conceptual comum e multidimensional, que incluiria o bem-estar subjectivo e o bem-estar psicológico (Keyes, Shmothin e Ryff, 2002). É na sen- da desta perspectiva integradora que pretendemos abordar o tema do bem- estar aplicado ao estudo do envelhecimento humano, dado que têm surgido na literatura dados muito interessantes acerca desta relação. Seria de esperar

que, com o declínio de algumas das condições (físicas, mentais, económicas, apoio social) associadas ao avançar da idade, também se observasse uma di- minuição dos níveis de bem-estar. Para Diener, Scollon e Lucas (2003) os estu- dos do envelhecimento podem proporcionar um bom teste às teorias do bem- estar subjectivo, já que, alguns dados da evidência empírica que relacionam o bem-estar subjectivo com o avançar da idade parecem algo paradoxais (Kunzmann, Little e Smith, 2000). Apesar de, objectivamente, com o avançar da idade, o desempenho de actividades cognitivas e motoras tenderem a pio- rar, comparativamente com o de indivíduos mais jovens, ou em relação ao que o próprio já conseguiu em determinada altura da sua vida, a investigação demonstra que os níveis de bem-estar subjectivo mantêm-se estáveis ao longo do tempo e, por vezes, até podem melhorar com a idade (Cartensen, Skorpen, Tsui e Hsu, 1997; Mroczek e Kolarz, 1998). Com efeito, também certos aspec- tos do bem-estar psicológico, como o domínio do meio e a autonomia, pare- cem aumentar com a idade. No entanto, outros aspectos como o crescimento pessoal e os objectivos de vida parecem diminuir, especialmente a partir da meia-idade (Ryff, 1995), daí que para esta autora sejam necessários estudos longitudinais que permitam melhor clarificar se estes padrões relacionados com a idade reflectem mudanças desenvolvimentais ou meras diferenças etá- rias.

Além dos dois principais modelos de conceptualização do bem-estar des- critos anteriormente, Peterson, Ruch, Beermann, Park e Seligman (2007) des- tacam ainda uma terceira via que conduz ao bem-estar e à felicidade: o en- volvimento, conceptualizado como a absorção completa numa actividade, por si só recompensadora, a ponto do indivíduo esquecer tudo o resto. Aquilo a que Csikszentmihalyi (1975) denominou de Flow, ou experiência óptima, um dos canais do actual Modelo de Flutuação da Qualidade da Experiência de que falaremos a seguir.