Uma das questões que geraram muitos questionamentos no desenvolvimento do trabalho de campo desta tese diz respeito ao tamanho da amostra que deveria ser feita para validar a pesquisa que estava sendo realizada, tanto com a aplicação de questionários como com entrevistas semiestruturadas. Esse problema implicou numa ampla revisão de conceitos de estatística, questão que muitas vezes atrapalha os trabalhos de pesquisadores da área de Ciências Humanas.
Já tinha passado por situação similar no curso de Mestrado, quando optei por fazer análise de dados estatísticos na construção da dissertação e precisei de uma não menos ampla revisão sobre construção de tabelas, cálculos de regressão linear simples, análise de resíduos, etc.
Agora, o problema se colocou com outra configuração: quantas entrevistas eu precisaria fazer para que pudesse utilizar seu resultado no relatório final, sem estar cometendo um equívoco ou um erro, a partir de uma interpretação questionável? Consegui encontrar uma base teórica para minha concepção do uso das entrevistas e dos questionários na construção da tese na teorização sobre amostragem não probabilística, feita por Oliveira; Almeida; Barbosa (2012), pesquisadores da UFES, entre outros autores.
Segundo Oliveira; Almeida; Barbosa (2012), citando a obra de Levine (2008), “Estatística: teoria e aplicações”, amostras não probabilísticas oferecem resultados cuja restrição é não poderem ser generalizados.
Conforme Levine et al., (2008) amostras não probabilísticas podem oferecer certas vantagens, tais como conveniência, velocidade e baixo custo. Entretanto, elas carecem de precisão, em decorrência de vieses de seleção, e o fato de os resultados não poderem ser generalizados supera, em muito, essas vantagens. Por conseguinte, os métodos de amostragem não
probabilística devem ser utilizados exclusivamente para estudos em pequena escala que precedam grandes investigações.
Para os casos em que o uso da amostra não probabilística for viável, deve- se atentar para algumas variáveis para que o mesmo obtenha êxito, o sucesso da utilização de uma amostra não probabilística em uma pesquisa depende, por exemplo, dos critérios e julgamentos do pesquisador (MASSUKADO-NAKATANI, 2009), segundo (OLIVEIRA, K.D; ALMEIDA, K.L;BARBOSA,T.L,2012,p. 17).
A partir dessa sinalização dos pesquisadores da UFES foi possível compreender que estaria trabalhando com uma amostragem por conveniência. (OLIVEIRA, K.D; ALMEIDA, K.L; BARBOSA,T.L, 2012, p.19) ao abordar a questão da amostragem por conveniência afirmam, com base em Anderson; Sweeney; Williams (2007) e seu “Estatística aplicada à administração e economia”, sobre a amostragem de conveniência, que:
É uma técnica de amostragem em que, como o próprio nome implica, a amostra é identificada primeiramente por conveniência. Elementos são incluídos na amostra sem probabilidades previamente especificadas ou conhecidas de eles serem selecionados. Por exemplo, um professor que faz pesquisas em uma universidade pode utilizar estudantes voluntários para compor uma amostra, simplesmente porque eles estão disponíveis e participarão como objetos de experiência por pouco ou nenhum custo (ANDERSON; SWEENEY; WILLIAMS, 2007).
Assim, considerando que eu estava fazendo pesquisa em escolas públicas estaduais e que os estudantes eram voluntários, que decidiram participar da pesquisa a partir de uma proposta feita para o conjunto de estudantes das suas turmas, sem que houvesse qualquer tipo de exigência para impor ou limitar suas participações, aceitei que estava bem colocada a questão de que a minha amostragem era uma amostra por conveniência.
Os autores citam também Costa Neto (1977) e sua obra “Estatística”, para explicitar em que caso pode-se recorrer a esse tipo de amostragem. Eles explicam em que caso ocorre a possibilidade de recurso a essa amostragem.
O presente caso de amostragem não probabilística pode ocorrer segundo Costa Neto (1977) quando, embora se tenha a possibilidade de atingir toda a população, retiramos a amostra de uma parte que seja prontamente acessível.
De acordo Anderson, Sweeney e Williams (2007) amostras por conveniência têm a vantagem de permitir que a escolha de amostras e a coleta de dados sejam relativamente fáceis; entretanto, é impossível avaliar a “excelência” da amostra em termos de sua representatividade da população. Uma amostra por conveniência tanto pode produzir bons resultados como não; nenhum procedimento estatisticamente justificável possibilita uma análise de probabilidade e inferência sobre a qualidade dos resultados da amostra ((OLIVEIRA, K.D; ALMEIDA, K.L; BARBOSA, T.L, 2012,p.17).
Outro pesquisador que aborda o mesmo tema, Carlos Ochoa (2015), fala sobre a Amostra por Conveniência e garante que
Esta técnica é muito comum e consiste em selecionar uma amostra
da população que seja acessível. Ou seja, os indivíduos empregados
nessa pesquisa são selecionados porque eles estão prontamente disponíveis, não porque eles foram selecionados por meio de um critério estatístico. Geralmente essa conveniência representa uma maior facilidade operacional e baixo custo de amostragem, porém tem como consequência a incapacidade de fazer afirmações gerais com rigor estatístico sobre a população.
Por exemplo, suponhamos que você quer saber a opinião de estudantes universitários chilenos sobre política. Para realizar uma amostra probabilística, seria necessário ter acesso a todos os estudantes universitários chilenos, selecionar um grupo aleatório e realizar a pesquisa. Já para realizar uma amostra por conveniência, poderíamos abordar três universidades próximas, simplesmente porque representam o local onde a população da pesquisa "reside" e perguntar a alguns estudantes do período matutino que concordam em participar (OCHOA, 2015).
Ciente dos riscos e das restrições que esse tipo de amostragem acarreta, a pesquisa passou a considerar como válida a quantidade de estudantes que aceitou participar da pesquisa, entre os matriculados em turmas diferentes de dois colégios estaduais localizados na área da pesquisa, procurando ampliar posteriormente o universo de entrevistados com a aplicação do mesmo questionário em lideranças representativas da área da pesquisa, que participaram das entrevistas semiestruturadas, e outras lideranças e representações dos moradores dos bairros localizados no recorte em estudo, mas que não fizeram parte das entrevistas semiestruturadas.
O mesmo Ochoa (2015), adverte sobre os problemas que o pesquisador pode enfrentar, destacando que as limitações desse tipo de amostragem são óbvias.
Isso significa que os resultados de uma amostra por conveniência são totalmente irrelevantes e não diz nada da população? Não exatamente. Temos boas razões para acreditar que a amostra por conveniência não irá introduzir viés em relação à população total, os resultados que eu obtenho podem ser uma boa imagem do universo estudado (OCHOA, 2015).
Nesse sentido ficou claro que as informações obtidas dizem respeito apenas ao universo estudado e entrevistado para a pesquisa, e que deve ser evitada qualquer generalização desse resultado para o total da população que habita o território, ainda que exista sempre a busca por essa generalização por parte de pesquisadores quando estão em trabalho de campo.
Se temos boas razões para acreditar que a seleção por conveniência não irá introduzir viés em relação à população total, os resultados obtidos podem ser uma boa imagem do universo estudado. O problema é não saber exatamente o quão boa é a imagem: não é possível usar ferramentas
estatísticas como a margem de erro e o nível de confiança para medir a precisão dos resultados. Os leitores do estudo precisarão confiar nos critérios da seleção feita pelo pesquisador (OCHOA, 2015).
Assim, foram feitas 15 entrevistas, num universo onde foram contatados para esse fim um total de 223 indivíduos, distribuídos entre 163 alunos do Colégio Estadual Dona Mora Guimarães; 54 alunos do Colégio Estadual Oliveira Brito; duas lideranças ou representantes de organizações existentes na área contatadas por indicação de outros entrevistado e 4 lideranças consolidadas como representantes da população que habita a área em estudo e que, inclusive, indicaram as duas lideranças extras para serem entrevistadas apenas com a aplicação dos questionários.
Desses 223 indivíduos contatados resultou o seguinte quadro de entrevistados: 6 entrevistas no Colégio Estadual D. Mora Guimarães; 3 entrevistas no Colégio Estadual OIiveira Brito; 4 entrevistas com lideranças locais que também participaram das entrevistas semiestruturadas; 2 entrevistas com outras lideranças e representações locais, sem a aplicação da entrevista semiestruturada, apenas com o questionário; perfazendo um total de 15 entrevistas com questionários.
Um dos elementos surpreendentes nas entrevistas foi o fato de haver uma abordagem de caráter ecológico nas declarações dos entrevistados, sendo que os adeptos das religiões de matrizes africanas atribuem esse caráter ao axé do candomblé, o que motivou sua denominação nesta tese como ecologia de axé.
3 ECOLOGIA DE AXÉ
O conceito “ecologia de axé”, tem uma relação direta com a cultura produzida na cidade de Salvador, formulado pelo autor desta tese, foi usado pela primeira vez no capítulo “A ecologia de axé: as culturas de matrizes africanas no PDDU 2016 de Salvador – BA”, publicado no livro “CIDADES INTERATIVAS: do contexto informacional às práticas socioespaciais integradas” (BORTOLOZZI; BERENGUEL, orgs., 2017). Refere-se a uma formulação que busca expressar as práticas ecológicas características dos adeptos das religiões de matrizes africanas e de ambientalistas próximos a eles. Sabe-se que ecologia é uma palavra de origem grega, formada a partir de Oikos, que quer dizer “casa” e de logos que significa estudo.
Nos terreiros de candomblé de nação Ketu, Ilê quer dizer casa, por isso essa palavra Yorubá é usada para dar nome a muitos desses terreiros. Em Salvador, nos terreiros de candomblé, é comum ouvir-se que o candomblé é uma religião ecológica, ou é uma religião que cultua, respeita e preserva a natureza, mas o conceito “ecologia de axé” só foi empregado a partir da contribuição do autor desta tese para a reflexão sobre o caráter ambiental das religiões de matrizes africanas.
A palavra Axé , de origem Yorubá, língua africana trazida da Nigéria e de parte do Benin, antigo Dahomé, pelos negros escravizados e que se mantém viva nas práticas religiosas de matrizes africanas, relacionadas ao que no candomblé é chamado de “nação Ketu”, numa referência ao território Ketu localizado no Norte do Benin, mas que também inclui algumas manifestações do território nigeriano de Ilé Ifé. Há ainda na Bahia candomblés de “nação Angola” e “nação Jêje”, entre outros, que falam outras línguas de origens africanas, mas não são objetos desta pesquisa. No caso dos candomblés que têm como língua estruturante o Yorubá, os de “nação Ketu”, portanto, Axé significa “força” e é uma palavra usada para nomear muitos terreiros de candomblé baianos chamados de Ilê Axé, ou seja, casa do Axé,
ou casa da força, já que Ilê significa casa, palavra relacionada, portanto, à uma das culturas religiosas dos negros e mestiços. Mas, a palavra Axé também é empregada na denominação do movimento musical que tomou conta da cultura de massa baiana a partir dos anos 1980, a Axé Music.
Cabe o destaque de que, inicialmente, a denominação “Axé Music” tinha um caráter jocoso e até mesmo preconceituoso em relação ao que seria um tipo de música considerada pela elite midiática que se acredita “branca” na Bahia, como de gosto duvidoso, por sua ligação explícita com as culturas de matrizes africanas, muito evidenciadas no espaço urbano de Salvador, em especial na sua periferia. Assim, “Axé Music” seria algo periférico, coisa de pessoas mais pobres, em geral negras ou mestiças.
O fato é que a palavra axé faz parte do cotidiano cultural da cidade de Salvador. Assim, conceituar “ecologia de axé” é explicitar que existe uma ligação atávica entre meio ambiente, cultura, religião e ciência no espaço urbano de Salvador. Em tradução livre ecologia de axé significa a força da ecologia.