Aqui vale interromper esse histórico das normas internacionais de controle às drogas, para reparar que, além dos interesses econômicos e das estratégias geopolíticas, os alvos da proibição às drogas são eleitos a partir de crenças e valores morais que moveram a opinião pública dos mais diversos países a fomentar o pânico sobre os imaginados efeitos tenebrosos que o consumo de certas substâncias causaria ao tecido social se a repressão não tomasse lugar. Lembrando a discussão do primeiro capítulo da tese, o pânico moral tem claros efeitos sobre a tomada de decisões de figuras políticas que assumem o papel de empreendedores morais.
Do século XVII ao XIX, não havia no Ocidente argumentações teológicas ou morais censurando o consumo de ópio. Muito pelo contrário, seu uso recreativo na forma de láudano era marcante em círculos intelectuais da Europa. Antes da expansão do seu uso farmacêutico, o ópio era bem de consumo de luxo, que não faltava nas casas reais de Inglaterra, França, Áustria, Suécia e Dinamarca (Escohotado, 1998: 300-303). Nos Estados Unidos, onde se importava imensas quantidades de ópio no século XIX, o uso recreativo mais frequente ocorria entre mulheres de classe média e classe média, que evitavam o álcool, seguindo a tendência do forte movimento de temperança que se consolidava naquele país. Outro detalhe dessa época: em 1808 um farmacêutico alemão conseguiu isolar a morfina do ópio, abrindo caminho para o uso médico do potente analgésico oriundo da papoula. Mesmo com seus usos recreativos e terapêuticos bastante disseminados, o pavor aos efeitos do ópio ganhou força com a imigração chinesa para a Costa Oeste, conforme já mencionamos. Relatos de que chineses disseminavam o consumo de ópio entre a população branca se avolumavam. Não tardou até que cidades como Portland, Nevada e São Francisco aprovassem leis que proibiam o fumo de ópio (Hoffman, 1990). No Brasil do começo do século XX jornais noticiavam em tom de reprimenda o uso de morfina e cocaína nos cabarés. Conforme registra Passetti (1991), o jornal Gazeta, em publicação de 17 de janeiro de 1917 censuravam os cabarés, “antros onde rapazes incautos se entregavam todas as noites ao prazer
elegante de injeções de morfina e cocaína, com as complementares libações de Champagne Frappé. É desses antros que costumam sair os suicidas... que levam dor e luto ao seio das famílias da nossa alta sociedade.”.
Os medos em torno do ópio nem se comparam à associação entre consumo de maconha e violência. Como mostra detalhadamente Campos (2012), é no México que a produção de maconha ganha escala na América; e é lá que se propagavam os relatos bastante exagerados de pessoas que perdiam completamente o autocontrole, após utilizar a droga, acabando por causar brigas e assassinatos. Certas preconcepções sobre o use de drogas atravessam décadas e países, como ocorreu com uma lenda sobre a etimologia da palavra assassino.
Um orientalista frânces, Sacy de Silvestre, escreveu no começo do século XIX um livro chamado Mémoire sur la dynastie des Assassins et sur l'origine de leur nom. Nele, o autor narrava a história da seita xiita dos Isma’ilis, que adotaram como tática política a execução de assassinatos públicos na disputa com turcos sunitas durante o século XII. Jovens seguidores do grupo, os fidawi, praticavam assassinatos brutais de autoridades políticas em locais como mosteiros e praças públicas, investidas que também resultava na morte dos assassinos. À época, o consumo de haxixe era bastante disseminado no mundo islâmico, já sendo associado aos hereges e estratos mais pobres da sociedade. Variações da palavrar que designava a droga, como hashishyia e hashisha, passaram a ser utilizados como insultos, e logo eram palavras dirigidas aos Isma’ilis fossem alvo de insultos. De forma bastante criativa, Sacy especulou que os fidawi agiam sobre o efeito de haxixe, ao modo do que ocorria em um relato de Marco Polo, no qual figurava um homem que dava substâncias capazes de causar deleite e prazer (não havia menção explícita a qualquer droga) para ter sob seu controle um grupo de jovens assassinos.
Um escritor americano, décadas depois, não exitou em dizer que os guerreiros sarracenos utilizavam haxixe para cometer assassinatos, sendo natural derivar a palavra assassin de Hashasheen, termo arábe que designava os comedores de Hasheesh. Voltando ao personagem central da cruzada americana no controle às drogas ao longo do século XX, a lenda também foi utilizada com entusiasmo por Harry Anslinger. O diretor do Federal Bureau of Narcotics depôs ao Congresso com o fito de assegurar a proibição da maconha nos Estados Unidos e contou uma interessante história. A Ordem dos Assassinos foi fundada na Pérsia em 1090, e a sua história de
crueldade e barbaridade era explicada por uma razão, eles eram usuários de haxixe, o mesmo que maconha, sendo que a palavra “hashashin”[sic] originou a palavra inglesa assassin (Campos, 2012: 10-13).
Crenças, por mais tolas que pareçam, tem efeitos palpáveis no domínio político. Representações sociais das drogas enquanto substratos de comportamentos moralmente reprováveis e coletivamente perigosos são bem aproveitadas por indivíduos cuja atuação política se pauta na reforma dos costumes, na defesa de valores tradiconais e, em última instância, na cruzada moral contra aqueles que colocam em risco valores indispensáveis à manutenção da ordem e do status quo. Esses indivíduos são o que Becker (1963) chama de empreendedores morais.
As leis que proibiam a maconha nos Estados Unidos só passaram a existir a partir dos esforços envidados por Harry Ansliger à frente do Federal Bureau of Narcotics (FBN). No início da década de 1930, o FBN publicava relatórios minimizando a preocupação em torno do consumo de maconha (que estaria restrito aos estados fronteiriços com o México e circunscrito às comunidades de imigrantes mexicanos). Com o passar dos anos, o escritório administrado por Anslinger coordenou a propaganda oficial sobre os efeitos e riscos do uso abusivo de maconha, que ganhou as páginas de revistas populares e noticiários. O czar das drogas ia pessoalmente às audiências públicas no Congresso contar histórias de assassinatos grotescos cometidos por usuários de maconha, que ele chegou a chamar de killer seed (Musto, 1999: 222). Ao passo que conduzia a campanha nos meios de comunicação, o FBN pressionava os entes federados a adotarem legislações estaduais proibindo a maconha. Becker argumenta que a estratégia surtiu efeito, e vários estados passarem leis restritivas ao uso de maconha. A cereja do bolo viria em 1937 com a promulgação do Marihuana Tax Act. Segundo Musto, a aprovação da lei federal foi induzida pela pressão dos estados sobre o governo federal e não, o caminho inverso. Os estados do Sul, onde já havia tensões sociais e competição por trabalho entre imigrantes e os cidadãos americanos. Galliher mostra como havia pouca divergência política em torno da proposta legislativa que iria cobrar impostos das formas permitidas de produtos derivado da cannabis. O leve embate que ocorreu foi durante as audiências no senado, quando representantes da indústria do cânhamo e representantes de produtores de sementes para alimentação de pássaros buscavam isenção fiscal, enquanto um representante da American Medical Association, questionava a cobrança de impostos sobre a prescrição de maconha, que ele nem considerava um remédio e nem acreditava nos efeitos
por ela causados, conforme era apresentado pelos defensores da proposta. Galliher não descarta o papel dos valores morais e da ação individual de Anslinger, embora sustente a tese de que fatores burocráticos (necessidade de padronizar as leis estaduais) e de cultura organizacional (servidores do FBN tenderiam a assumir a defesa institucional de uma política) explicam a defesa de uma lei federal que regulamentasse (e, mais importante, taxasse) a circulação da maconha.