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Le contexte de la donnée chez Transdev, une organisation décentralisée

I- Contextualisation et enjeux de la consolidation d’une base clients dans le domaine des

1.3. Le contexte de la donnée chez Transdev, une organisation décentralisée

portuguesa

Eugenio Asensio (1960: 408-410) pôs em relevo – em nosso entender, de forma acertada8 – que a ideia que Oliveira desenvolve, ao longo da Grammatica

da lingoagem portuguesa, sobre o Português como língua de prestígio e como

veículo da cultura de uma nação e da evangelização dos povos bárbaros, é tomada do prólogo da gramática castelhana nebrissense, mas, por sua vez, re- formulada por Oliveira. Antonio Quilis (1989: 90-92) enumera cinco pontos que se correspondem com as motivações para a redacção da Gramatica castellana:

1. Utilidad de la obra [...].

2. La lengua compañera del imperio [...].

3. La lengua al servicio de la unidad de la nación [...].

7 Note-se que não é seguro que a cópia seja anterior à redacção da Grammatica da

lingoagem portuguesa. Seja como for, concordamos com José Eduardo Franco ao sublinhar o profundo conhecimento de Oliveira sobre as abordagens gramaticais de Nebrija: «Nenhuma destas obras inclui qualquer indício que nos permita arriscar uma situação cronológica rigorosa da altura da sua composição. De qualquer modo, pensamos que o conhecimento e aprofundamento, por Oliveira, da Gramática de António de Nebrija, editada em Salamanca em 1492 e considerada como o primeiro ensaio de codificação gramatical da línguas modernas conhecido, dever ter influenciado o trabalho gramatical de Oliveira, publicado em 1536» (Franco, 2000: 35).

8 Não concordamos, porém, com a atitude pejorativa – como bem sublinhou Rodríguez

4. Fijar el uso del español, estabilizar la lengua vulgar de España, para que evitando posteriores cambios y variaciones pueda servir a la unidad nacional [...].

5. La lengua debe ser el vehículo fiel de transmisión a la posteridad de las hazañas y glorias culturales (Quilis, 1989: 90-92).

Com efeito, pode verificar-se que o programa contido no prólogo nebrissense, a que se refere Antonio Quilis, aparece na gramática de Oliveira. No que se refere à utilidade da composição de uma arte sobre o vernáculo, esta ideia parece-nos estar presente no prólogo dedicado a D. Fernando Dalmada, no qual o autor se refere à sua gramática como:

A notação em alghũas cousas do falar. Portugues: na qual: ou nas quaes eu não presumo ensinar aos q̃ mays sabem: mas notarey o seu bo costume para q̃ outros muitos aprendão τ saybão quanto prima e a natureza dos nossos homẽs porq̃ ella por sua võtade busca τ tem de seu a perfeyção da arte q̃ outras nações aquirem com muyto trabalho (2000[1536]: 243).

No passo reproduzido, Oliveira parece enunciar os potenciais destinatários – «outros muitos» – por contraposição ao povo português, designado no fragmento pela sequência «nossos homẽs». Se a nossa leitura for acertada, uma das motivações principais seria então a aprendizagem da língua portuguesa por parte daquelas pessoas que não a tivessem como língua materna, particularmente as populações das terras descobertas pelos portugueses, motivo este que já figura no prólogo da gramática castelhana nebrissense9 e

que, na Grammatica da lingoagem portuguesa, aparece desenvolvido no fim do capítulo quinto:

[...] apliquemos – defende Oliveira – nosso trabalho a nossa lingua τ gente τ ficara com mayor eternidade a memoria delle: τ nam trabalhemos em lingua estrangeira, mas apuremos tanto a nossa com bõas doutrinas q̃ a possamos ensinar a muytas outras gentes τ sempre seremos dellas louuados τ amados porq̃

9 «Cuando en Salamanca di la muestra de aquesta obra a vuestra real Majestad, τ me

preguntó que para qué podía aprovechar, el mui reverendo padre Obispo de Ávila me arrebató la respuesta; τ, respondiendo por mí, dixo que después que vuestra Alteza metiesse debaxo de su iugo muchos pueblos bárbaros τ naciones de peregrinas lenguas, τ con el vencimiento aquellos ternían necessidad de recebir las leies quel vencedor pone al vencido, τ con ellas nuestra lengua, entonces por esta mi Arte, podrían venir en el conocimiento della, como agora nos otros deprendemos el arte de la gramática latina para deprender el latín» (Nebrija, 1989[1492]: 113-114).

a semelhança e causa do amor τ mays em as linguas. E ao contrayro vemos em Africa, Guine, Brasil τ India não amarẽ muyto os Portugueses q̃ antreelles naçem so polla diferença da lingua: τ os de la nacidos querẽ bem aos seus portugueses τ chamanlhes seus porq̃ falão assi como elles.

Agora ja poys notemos o falar dos nossos homẽs τ da hi ajuntaremos preçeitos pera aprenderem os q̃ vierem τ tambem os ausentes (2000[1536]: 250).

Nesta passagem, podem ser detectados pontos de convergência com aspectos já aludidos do prólogo de Nebrija e referenciados por Quilis – se bem que também, convém sublinhá-lo, se registem certos pormenores, na motivação de Fernão de Oliveira, divergentes, ou pelo menos não coincidentes, com o propósito de Nebrija –; assim, o facto de ser a língua o veículo essencial da memória de um povo10 e a defesa que faz Nebrija do Castelhano como

«lengua compañera del imperio»11, aparece – devidamente reformulado – na

gramática de Oliveira, no passo reproduzido e noutros – muito bem conhecidos pelos investigadores da história da linguística portuguesa – como o seguinte:

O estado da fortuna pode cõçeder ou tirar fauor aos estudos liberaes τ esses estudos fazẽ mais durar a gloria da terra em q̃ florecem. Porque Greçia τ Roma so

10 Atente-se também no seguinte passo, no qual Oliveira defende a pureza da língua

portuguesa – perante o Castelhano –, enquanto veículo essencial da memória: «Ja confessamos ser verdade o q̃ diz Marco varrão nos liuros da Etymologia q̃ se mudão as vozes τ com ellas e tambem neçessario q̃ se muem as letras: mas não com tão pouco respeito como agora alghũns fazẽ: os q̃es como chegão a Toledo: logo se não lẽbrão de sua terra a q̃ muito deuem. E em vez de apurarẽ sua lingoa corrompẽna com emprestilhos: nos quaes não podem ser perfeitos. Tenhamos poys muito resguardo nesta parte: porq̃ a lingua τ escritura e fiel tisoureyra do bem de nossa soçessão τ são diz Quintiliano as letras para ẽtregar aos que vierem as cousas passadas» (Oliveira, 2000[1536]: 251). No que toca ao passo reproduzido, José Antônio Neto sublinha que «there is in Oliveira a marked preoccupation in the safeguarding of the language against all kinds of foreign influence and more specifically against the classical tradition; nothing of the kind is found in Nebrija’s work» (Neto, 1992: 79). Apesar da afirmação de Neto, pensamos que Oliveira reformula a noção da língua como elemento coesor da unidade nacional que aparece na gramática castelhana de Nebrija – e, portanto, serve-se dela –.

11 É, de resto, o argumento que inicia o prólogo da Gramatica castellana: «Cuando bien

comigo pienso, mui esclarecida Reina, i pongo delante los ojos el antigüedad de todas las cosas que para nuestra recordación τ memoria quedaron escriptas, una cosa hállo τ sáco por conclusión mui cierta: que siempre la lengua fue compañera del imperio; τ de tal manera lo siguió, que junta mente començaron, crecieron τ florecieron, τ después junta fue la caida de entrambos» (Nebrija, 1989[1492]: 109); ou mais abaixo: «Lo que diximos de la lengua ebraica, griega τ latina, podemos mui más claramente mostrar en la castellana: que tuvo su niñez en el tiempo de los juezes τ reies de Castilla τ de León, τ començó a mostrar sus fuerças en tiempo del mui esclarecido τ digno de toda la eternidad el Rei don Alonso el Sabio [...]; [...] se estendió después hasta Aragón τ Navarra, τ de allí a Italia [...]. I assí creció hasta la monarchía τ paz de que gozamos [...]» (Nebrija, 1989[1492]: 112).

por isto ainda viuẽ; porq̃ quãdo senhoreauão o mundo mandarão a todas as gentes a elles sogeytas aprender suas linguas: τ em ellas escreuião muytas bõas doutrinas τ não somẽte o que entendião escreuião nellas: mas tambem trasladauam parellas todo o bo que lião em outras. E desta feyção nos obrigarão a que ainda agora trabalhemos em aprender τ apurar o seu esqueçendo nos do nosso não façamos assy mas tornemos sobre nos agora que he tempo τ somos senhores porque milhor he que ensinemos a Guine ca que sejamos ensinados de Roma: ainda que ella agora teuera toda sua valia τ preço. E não desconfiemos da nossa lingua porque os homẽs fazem a lingua, τ não a lingua os homẽs (Oliveira, 2000[1536]: 247).

Vemos, com efeito, que Oliveira, como Nebrija a propósito do Castelhano, parece identificar, no mesmo plano, as civilizações grega e romana – e as suas respectivas línguas – com a lusitana e a sua língua, no quadro da expansão do reino português por América, África e Ásia. Seja como for, Oliveira vai – a partir da argumentação que, em nossa opinião, toma de Nebrija – mais longe, porquanto o que o humanista andaluz denomina de «caida de entrambos [império e língua]» deverá implicar inevitavelmente, no caso do povo português, a preeminência do Português sobre o Latim e o Grego. No que diz respeito à finalidade normativa subjacente à redacção de uma Arte gramatical, Oliveira tem perfeita consciência de que a elaboração de uma gramática devia ter repercussões no modo de falar – especialmente no caso da Grammatica

da lingoagem portuguesa – ou de dizer dos portugueses; atente-se, a modo de

exemplo, ao seguinte passo:

O propria [sic] de cada letra entendemos a particular pronunciação de cada hũa: τ o comũ chamamos aquela parte da pronunciação τ força em que se hũa pareçe cõ a outra. E isto nos manda quintiliano bem ver: porq̃ nisto cõsiste o saber ler: τ mais q̃ saber ler: τ he verdade q̃ se não teueramos çerta ley no pronũciar das letras não pode auer çerteza de preçeitos: nem arte na lingua: τ cada dia acharemos nella mudança não somente no som da melodia: mas tãbẽ nos sinificados das vozes [...]: τ não imitemos os desuairos de tantas confusões q̃ assi lhe q̃ro chamar d’letras como se acostumão: mas sigamos hũa çerta regra d’screuer, τ a mais façil (Oliveira, 2000[1536]: 255-256).

No que toca à consideração da língua como um dos elementos basilares na coesão nacional, muito provavelmente este motivo seja tomado também do

prólogo nebrissense12, se bem que devidamente reformulado para o contexto

português:

[...] assi e verdade que os gregos com os latinos: τ os ebraycos cõ os arabigos: τ nos com os castellanos q̃ somos mais vezinhos cõcorremos muitas vezes em hũas mesmas vozes τ letras: τ cõ tudo não tanto q̃ não fique algũa particularidade a cada hũ por si hũa so voz τ com as mesmas letras e a nos τ aos castelhanos guerra τ papel: τ no pronunçiar quẽ não sintira a diferença q̃ temos porq̃ elles escondẽse τ nos abrimos mais a boca: τ quasi podemos dizer q̃ o que da a entender horaçio na arte poetica dos gregos τ latinos temos antres nos τ os castellanos: porq̃ a elles deu a natureza afeyçoar o que querem dizer: τ nos fallamos boquicheos com mays magestade τ firmeza (Oliveira, 2000[1536]: 252).

A noção, invocada pelo humanista andaluz, da língua como factor essencial para o fortalecimento da unidade nacional, resultado da integração dos povos hispânicos, é habilmente transformada na Grammatica da lingoagem

portuguesa, porquanto, no discurso de Oliveira, o tópico se desenvolve não a

partir da agregação de nações, como no caso de Nebrija, mas pelo reforço, por meio das divergências linguísticas, das diferenças entre os povos português e castelhano. No passo que acabamos de reproduzir, a dicotomia português / castelhano aparece enfatizada pela menção – dicotómica também –, de povos com forte identidade diferenciadora em termos culturais, políticos e linguísticos: latinos / gregos; hebraicos / árabes. É preciso notar, a respeito disto, que, na estratégia argumentativa de Oliveira, a identificação dos latinos com os portugueses e dos gregos com os castelhanos surge noutra ocasião no tratado gramatical; assim acontece, ao abordar, no capítulo dedicado à sílaba, os ditongos nasais e mais concretamente o til:

12 «[...] por la industria, trabajo τ diligencia de vuestra real Majestad; en la fortuna τ buena

dicha de la cual, los miembros τ pedaços de España, que estavan por muchas partes derramados, se reduxeron τ aiuntaron en un cuerpo τ unidad de Reino, la forma τ travazón del cual, assí está ordenada, que muchos siglos, injuria τ tiempos no la podrán romper ni desatar. Assí que, después de repurgada la cristiana religión, por la cual somos amigos de Dios, o reconciliados con Él; después de los enemigos de nuestra fe vencidos por guerra τ fuerça de armas, de donde los nuestros recebían tantos daños τ temían mucho maiores; despues de la justicia τ essecución de las leies que nos aiuntan τ hazen bivir igual mente en esta gran compañía, que llamamos reino τ república de Castilla; no queda ia otra cosa sino que florezcan las artes de la paz. Entre las primeras, es aquélla que nos enseña la lengua, la cual nos aparta de todos los otros animales τ es propria del ombre, τ en orden, la primera después de la contemplación, que es oficio proprio del entendimiento» (Nebrija, 1989[1492]: 112).

[...] q̃remos aqui repetir q̃nto e neçessaria esta letra ou sinal til pera os ditõgos porq̃ se em çidadão τ escriuão τ outros desta voz τ outras escreuemos .m. ou .n. no meyo dira vilamo ou vilano: τ se no cabo fica sobre a letras o somẽte q̃ e a derradeira: τ se fosse .m. morderia a voz τ apertalia antros beyços: τ o .n. não e nosso porq̃ a nossa lĩgua e mui chea τ .n. corta muito: somos contrairos aesta letre [sic] .n. como diz quintiliano dos latinos: τ e propria aos castelhanos como elle diz dos gregos (Oliveira, 2000[1536]: 266-267).

De resto, o argumento da língua como componente unificador de uma nação – como é, com efeito, o Português a respeito do povo lusitano, por contraposição ao Castelhano como elemento coesor das terras que integram o reino de Castela – aparece, em certas passagens da obra, despojado do símile que acaba de ser referido (latinos = portugueses / gregos = castelhanos), a propósito de certas questões concretas, como é o caso do artigo:

Aqui quero lẽbrar como em Portugal temos hũa cousa alhea τ com grande disonãçia onde menos se deuia fazer: aqual e esta. que a este nome rey damoslhe artigo castelhano chamando lhe el rey: não lhe hauiamos de chamar se nã: o rey: posto q̃ alghũs doçes dorelhas estranharão este meu pareçer: se não quiserẽ bem olhar quanto nele vay: τ cõ tudo isto abasta para ser a minha milhor musica que ha destes: porque o nosso rey τ senhor pois tem terra τ mando: tenha tambem nome proprio τ destinto por si: τ a sua gente tenha fala ou linguagem não mal mesturada mas bem apartada: para que seja o rey mais nosso dizer que el rey: ajuda me muito o natural da nossa lingua o qual imitão os castelhanos quando nos querem arremedar dizẽdo. Mãda o rey de portugal. τ não dizẽ mãda el rey de portugal: q̃ a elles era mais proprio dizer mas isto fazem cuidãdo q̃ assi falão mais protugues: τ de feito não se enganão (Oliveira, 2000[1536]: 303-304).

Fernando Oliveira parece ter plena consciência do papel desempenhado pela língua como elemento coesor da nação e das potenciais ameaças que advêm da expansão linguística do reino vizinho. O autor da Grammatica da lingoagem

portuguesa toma em consideração, em suma, motivos argumentativos do

Nebrissense, adaptando-os ao contexto linguístico e geo-político português13.

13 Por esta razão, pensamos que aquela que M. Leonor Carvalhão Buescu designou de

terceira fase da «questão da língua» em Portugal (Buescu, 1983: 234-235; Buescu, 1984: 133-135), em que a língua portuguesa se situa de forma clara e frontal perante o Castelhano, já aparece explícita e recorrentemente na Grammatica da lingoagem portuguesa, facto que a citada investigadora parece ter mitigado.