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B. O BSERVATIONS DU C ANADA

IX. CONSTATATIONS

Na sequência evolutiva do jornalismo em redes digitais, a transição da terceira para a quarta geração delimita as bases de dados como o elemento estruturante da atividade jornalística em suas dimensões de pré-produção, produção, disponibilização/circulação, consumo e pós-produção. Barbosa (2007) considera que a web opera na lógica de transformar todo site em um tipo de base de dados, de forma que são constituídos por uma parte back end onde são encontrados os algoritmos e conjuntos de dados, e outra front end – camada da interface que é visualizada e experienciada pelos usuários.

Conforme a pesquisadora, a informatização e a chegada da web criaram um novo paradigma para acessar e recuperar informações, o do Jornalismo Digital em Bases de Dados (JDBD). Nele, as bases de dados são centrais em toda estrutura, organização, composição e apresentação dos conteúdos de natureza jornalística, de acordo com funcionalidades e categorias específicas, que também vão permitir a criação, a manutenção, a atualização, a disponibilização, a publicação, a circulação e recirculação dos conteúdos jornalísticos em multiplataformas (BARBOSA, 2007, 2008, 2009; BARBOSA, TORRES, 2012).

A autora defende que a dinamicidade é a grande responsável pela representatividade das outras categorias (automatização, flexibilidade, inter-relacionamento, densidade informativa, densidade temática, visualização e convergência). Além de diferenciar dos sites estáticos, é o aspecto dinâmico que possibilita a renovação constante de conteúdos. Em

relação ao caráter mutável dessas bases de dados, Ramos (2012) argumenta que justamente pela possibilidade contínua de edição e manipulação de informações jornalísticas, as bases de dados não contam uma história, pois não possuem começo e nem fim. Baseando-se na pesquisa de Barbosa, a autora considera o JDBD como um texto da cultura em constante atualização a partir dos princípios elencados por Manovich. Segundo ela, são as bases de dados que modelizam o jornalismo digital e, dessa forma, conceitua o formato como a interface para as bases de dados disponíveis no ciberespaço.

O surgimento dos dispositivos móveis, contudo, exigiu a formulação de uma quinta geração, proposta por Barbosa (2013), ampliando o universo para o jornalismo em redes digitais e não mais restrito à web. Em tese doutoral, Fernando Firmino (2013) conceitua o jornalismo móvel a partir das tecnologias portáteis (celular, smartphone, tablets, netbooks, gravadores, câmeras digitais e similares) com infraestrutura de conexão sem fio (3G, 4G, Wi- Fi, WiMax ou Bluetooth) que possibilitam a facilidade do deslocamento físico e informacional a partir dessas redes digitais. “O jornalismo móvel digital dimensiona a produção ou o fazer jornalístico a partir da interface desse conjunto de tecnologias e de estratégias agregando mudanças e novos valores às rotinas produtivas dos jornalistas”. (FIRMINO, 2013, p. 101). O autor busca ainda esclarecer a definição de “jornalismo móvel digital” não só pela questão da mobilidade, com maior precisão para o trabalho do jornalista, mas também pelo aspecto locativo/hiperlocal devido às especificidades no modo de atuação e as possibilidades de geolocalização.

Desse modo, a proposição da quinta geração do jornalismo em redes digitais, ainda com as bases de dados constituindo o elemento primordial, é caracterizada pela medialidade, horizontalidade nos fluxos de informações multiplataformas com integração de processos e produtos em um continuum multimídia dinâmico (BARBOSA, 2013). Os dispositivos móveis, portanto, passam a ser o núcleo centralizador que promove a reconfiguração de todas as etapas da atividade jornalística, além de possibilitar o surgimento dos produtos autóctones, ou seja, aplicativos nativos para smartphones e tablets com material exclusivo e diferenciador para essas plataformas.

Nesse contexto, a lógica não é de dependência, competição ou de oposição entre os meios e seus conteúdos em diferentes suportes, característica de etapas anteriores do jornalismo, principalmente quando o examinamos a partir do surgimento das versões de produtos jornalísticos para a web. O cenário atual é de atuação conjunta, integrada, entre os meios, conformando processos e produtos, marcado pela horizontalidade nos fluxos de produção,

edição, e distribuição dos conteúdos, o que resulta num continuum multimídia de cariz dinâmico (BARBOSA, 2013, p. 33).

Entre os atributos dos dispositivos móveis, a tactilidade é apontada por Palacios e Cunha (2012) como o elemento central para a comunicação nesses suportes. Essa característica, segundo os autores, reflete a grande novidade tecnológica que é a existência de telas touchscreens, ou seja, sensíveis ao toque. Os pesquisadores propuseram uma tipologia para esses dispositivos. Em relação aos gestos tácteis - movimentos dos dedos sobre a tela - elencaram onze comandos principais: toque, duplo toque, rolar, deslizar, pinçar, pressionar, rotacionar, deslizar com dois dedos, deslizar com vários dedos, espalhar e comprimir. Buscaram compreender também os sensores tácteis, visto que esses permitem uma experiência mais táctil para os usuários a partir dos comandos girar, movimentar e vibrar, responsáveis, respectivamente, pelos sensores de movimento e de vibração. Indicam, entretanto, que as áreas dos newsgames e dos aplicativos autóctones são os espaços plenos para diferenciação e incorporação dessas potencialidades tácteis.

Em publicação recente, Cunha (2013) avalia que a navegação a partir de gestos tácteis, em geral, ainda é pouco explorada pelos produtos jornalísticos, mas aponta o agregador de notícias Summly e a revista Katachi como bons exemplos de experimentações. Avançando em relação à pesquisa anterior, o autor propõe o estudo dos mesmos tipos de interação, mas os classifica a partir de três eixos: interações de toque (com a ação dos dedos sobre a tela); interações livres (ação a partir do corpo humano, como no jogo Kinect) e interações do dispositivo (ação de sensores presentes no próprio dispositivo móvel). Porém, o autor esclarece que são tendências a serem apropriadas pelo jornalismo, pois ainda não existe a utilização dessas novidades na área da comunicação.

Em relação à discussão sobre a mobilidade, Canavilhas (2012) destaca que esta pode indicar um sentido de divergência de conteúdos resultado do consumo individual e móvel, anteriormente caracterizado pelo sistema pull, onde o usuário procurava pela informação, para um sistema push (FIDALGO; CANAVILHAS, 2009) e no qual o conteúdo busca o consumidor. O pesquisador português afirma que o smartphone, para além das opções temáticas e dos dados personalizáveis, permite uma adaptação à situação em que se encontra o usuário. É esse detalhe que faz a diferença para o conteúdo, pois ao dirigir um carro, por exemplo, é possível o consumo da informação em áudio, mas não em vídeo ou texto. Dessa forma, conclui o autor, nos suportes móveis existe uma divergência devido ao ambiente no qual está inserido o usuário. “Isso significa que, no caso dos smartphones, as empresas devem

elaborar conteúdos divergentes, ou seja, o mesmo conteúdo em diferentes formatos (texto, som, vídeo) para adaptar-se ao contexto do consumidor”. (CANAVILHAS, 2012, p. 21-22)

Entre tantas convergências, divergências e surgimento de novas propriedades para o jornalismo em redes digitais, podemos elencar algumas considerações ao final do primeiro capítulo desta dissertação. Gostaríamos de reforçar a escolha do termo continuum nesse momento inicial da pesquisa, pois a compreensão de que estamos lidando com um processo que está em constante evolução é fundamental. O contexto aqui apresentado, especificamente no que diz respeito ao conteúdo, nos fornece condições para verificar se o jornalismo está experimentando ou não formas inovadoras para narrar as informações que explorem as exigências desse novo público e das empresas jornalísticas. No próximo capítulo, iremos discutir as origens, tendências e modelos dos diferentes tipos de narrativas que podem ser empregadas entre diferentes plataformas: a multimídia, a crossmedia e a transmídia.