Entrando no campo do simbolismo, tão presente nos contos, entendemos ser interessante partilhar o estudo de uma discípula de Jung, sob o pseudónimo de Leía, a qual analisou os contos maravilhosos, no seu livro “O Simbolismo dos Contos de Fadas” e partiu do princípio de que existe alguma semelhança entre a Psicologia e a meditação transcendental que foi, durante séculos, praticada nas mais variadas épocas e civilizações.
Leía (1985) entende que o conto pode, através do simbólico e do anagógico, contribui para o bem-estar do ser.
Para esta autora, as quatro figuras presentes em todos os contos maravilhosos são: o príncipe, a princesa, o Velho Rei e as Fadas. Assim sendo, o príncipe simboliza o desejo consciente; é responsável pela mudança de pensamentos e atitudes; as suas almas são entendidas como sendo símbolos fálicos; a princesa veste a pele do inconsciente individual e tem como objectivo informar o príncipe das regras universais.
Segundo Freud, as jóias que as rainhas e princesas usam são símbolos sexuais; o velho rei, é o senhor do conhecimento e da sabedoria, daí aparecer
como sinónimo do inconsciente colectivo, filtra algumas das mensagens de inovação a que, ou o príncipe ou a princesa vão aludindo e por último, as fadas com toda a sua magia, normalmente com o fim de remediar o mal, são a soma de um infinito de tradições iniciáticas, são seres sobrenaturais e poderosas nas suas magias. A psicologia vê o casamento entre os príncipes como um final feliz, que significa o equilíbrio entre o inconsciente e o consciente (Quadros, 1972).
Segundo Quadros, Leía demonstra, nessa análise do simbolismo dos contos de fadas, que o ser humano, através dos séculos, procurou sempre expressar as relações entre o consciente e o inconsciente, fazendo-o em todos os contos através do príncipe e do seu movimento épico, em direcção à princesa adormecida, encantada ou prisioneira. Estas expressões podem ser referentes a um grau iniciático, mas também, a um grau sagrado, ou ainda, a um grau profano. Estes diferentes graus podem ser encontrados nos contos maravilhosos, escondidos pela simbologia, nas relações entre o consciente e o inconsciente.
Assim sendo, observemos algumas simbologias e a sua representação à luz do que Costa, Almeida e Sampaio (1994) referem.
A um nível psicanalítico (profano), o simbolismo da personagem Bela Adormecida simboliza as figuras ancestrais adormecidas, conservadas em inactividade no inconsciente; o príncipe (desejo consciente) irá recordá-las e actualizá-las, trazendo-as para uma vida nova e diferente.
O simbolismo da memória em que os contos maravilhosos despertaram e facilitaram o entendimento do problema da memória inconsciente.
A lembrança do inconsciente individual, que ascende até à luz da consciência pelo caminho da intuição, do sonho ou da arte, é representada por todos os objectos que vão surgindo por artes mágicas, sejam eles espelhos ou palácios de cristal.
No que se refere ao inconsciente colectivo, a sua representação faz-se através do palácio do velho rei, com os seus aposentos secretos e todos os
tesouros neles escondidos e expressa-se por via dos mitos, novelas, poemas ancestrais e contos maravilhosos.
O simbolismo dos pássaros (os pássaros são uma constante nos contos), assumindo as mais variadas cores, funções ou tarefas, como cantar, puxar carros de fadas, significam beijos, desejos e sonhos e ainda desejos amorosos por concretizar, como por exemplo, o conto tradicional russo “O pássaro de fogo” que acabou por dar origem a um bailado, com o mesmo nome. Então, torna-se importante explicar o significado de alguns deles:
- A pomba Afrodite, branca, representa para a psicologia as funções sexuais, ao mesmo tempo que é um símbolo do amor profano, do apareci- mento do desejo e das aspirações da libido;
- O falcão egípcio, negro, significa dedicação, protecção, simbolizando as forças que aparecem em momentos de aflição;
- O corvo, também negro, significa a orientação benevolente dos povos, bem como simbolizam a razão, a inteligência e o bom conselho;
- O pássaro cor de fogo, a lendária Fénix, significa a imortalidade, a ressurreição, a divindade. Ave mitológica, que segundo a lenda, vivia muitos anos e depois de queimada renascia das cinzas.
Proop (1992 :6) considera que “os contos começaram habitualmente pela exposição de uma situação inicial. Enumeram-se os membros da família, ou o futuro herói e apresentado simplesmente pela menção do seu nome ou pela descrição do seu estado”
Este autor (1992:21) entende ainda poder-se confirmar que “todo o discurso está constantemente prestes a converter-se em narração, pela trans- formação dos verbos (ser e estar) em verbos dinâmicos (fazer e seus equivalentes) e pela antropomorfização dos valores enunciados”.
No universo dos contos, muitas das palavras, acções, comportamentos, personagens, imagens, animais, espaços e outros mais, estão imbuídas de um simbolismo próprio deste género literário, é por conseguinte fundamental clarificar algum deste simbolismo.
Como alega Eliade (1986:156) “os mitos e os ritos da terra mãe exprimem sobretudo as ideias de fecundidade e de riqueza. Trata-se de ideias religiosas, porque os múltiplos aspectos da fertilidade universal revelam, em suma, o mistério do engendramento, da criação da vida”.
Sabe-se que todas as tarefas ligadas à terra são árduas, pois como diz Eliade (1997:414) “porque é uma actividade acompanhada de perigos (…) porque pressupõe uma série de cerimónias, de estruturas e de origem diversas, destinada a promover o crescimento dos cereais e justificar o gesto do cultivador”.
O número três é um destes casos de simbolismo. Diz Bettelheim (1991:132) que este número refere-se “frequentemente àquilo que em psicanálise é considerado os três aspectos do espírito: o id, o ego e o superego”.
Nesta perspectiva, conhecer a força do nosso ser interior leva-nos a descobrir e a compreender a nossa personalidade. É através da palavra que nos socializamos e conseguimos traçar caminhos de integração, entre o psiquismo e a literatura, entre o ser humano e a sociedade, em que se está inserido. No outro e com o outro constrói-se os conhecimentos e dá-se forma humana ao mundo. Parafraseando Protágoras, o homem é a medida de todas as coisas e só ele é que poderá encontrar o seu Graal.
Em muitas religiões, o número três simboliza a totalidade, a perfeição, Chevalier e Gheerbrant (1997:654), dizem que “exprime uma ordem intelectual e espiritual, em Deus, nos cosmos ou no homem” Encontra-se o número três ligado à bíblia sagrada pois indica a tríade: pai, filho e espírito santo, Deus é um, em três pessoas.
Ainda relacionado com a importância deste número, Meireles e Freitas (2005:56) referem “As personagens dos contos tradicionais organizam-se em tríades que se desfazem, para se reagruparem mais além”.
No continente asiático, a galinha significava o caos, dentro do ovo estavam as duas forças opostas que constituíam o universo, Ying e Yang. Philip (1996:22-23) diz “Ying e Yang são trevas e luz, fêmea e macho, frio e quente, molhado e seco”, simbolizando desta forma a dualidade que existe no ser humano: bonito e feio, bom e mau, alegre e triste….
Como se referiu, as acções podem estar carregadas de simbolismo, ora veja-se um caso frequente, o de o herói sair em viagem à procura de algo, mas realmente a viagem pode ser ao interior da alma, como diz Cervera (1997:205), “os heróis dos contos fazem sempre uma viagem”. Chevalier e Gheerbrant (1997:691) acrescentam “a viagem exprime um desejo profundo de mudança interior, uma necessidade de experiências novas, mais ainda do que de deslocação local. Segundo Jung, indica uma insatisfação, que leva à procura e à descoberta de novos horizontes”.
Meireles e Freitas (2005:20) refere que “o herói deve sair de casa, percorrer um caminho que o conduz à iniciação e a uma passagem de um nível “infantil” a um “outro” Neste caso, a viagem assume uma simbologia diferente da explanada pelos anteriores autores, levando a perceber, que em cada conto, o símbolo pode assumir interpretações diversas, o mesmo se passando de leitor, para leitor.
Este fenómeno das diferentes interpretações dos símbolos, é referido por Chevalier e Gheerbrant (1997:331) ao dizerem “para o psicanalista mode- rno, pela sua obscuridade e pelas suas raízes profundas, a floresta simboliza o inconsciente. Os terrores da floresta, como, os terrores, que provocam pânico, inspirar-se-iam, segundo Jung, no medo das revelações do inconsciente”.
Mas ainda voltando à personagem herói e à sua viagem, como diz Bettelheim (1991:20), “o herói dos contos de fadas tem um percurso solitário
durante uns tempos, tal como a criança moderna frequentemente se sente isolada (…) O destino destes heróis convence a criança de que, como eles, se pode sentir abandonada no mundo, tacteando no escuro; mas, como eles, no decorrer da sua vida será guiado passo a passo, e receberá ajuda quando necessário. Hoje, mais do que noutros tempos, a criança precisa da confiança oferecida pela imagem do homem isolado, que todavia é capaz de estabelecer relações significativas e compensadoras com o mundo que a rodeia”.
A morte, nos contos pode significar uma saída, a passagem de um lado para outro, uma mudança, de vida.
Os próprios contos carregados de mensagens simbólicas dirigidos, muitas das vezes, ao universo infantil, têm a tarefa de conseguir passar o seu conteúdo simbólico à criança, ajudando-a, desta forma, a ultrapassar as suas angústias, o seu desespero e os seus conflitos internos. Portanto, o seu simbolismo comporta um objectivo muito importante que não deve ser descurado por quem escreve estas histórias.
O moinho, que faz parte de contos infantis, para Chevalier e Gheerbrant (1997:455) “o moinho é o receptáculo ou o veículo de uma força sagrada, encerrada no som da palavra, que se pode mover em benefício próprio”.
Duborgel (1992:88) entende que a existência de comportamentos antagónicos, o Bem e o mal, representam imagens do mundo e da sociedade. Os valores e ideias colocados nessas representações, suscitam “reacções de fazer pensar, de convidar o leitor a confrontar-se consigo mesmo e a construir- se”.
Bettelheim (1991:20) acrescenta que “as crianças de hoje já não crescem na segurança de uma grande família ou de uma comunidade integra- da. Assim, mais ainda do que no tempo em que foram inventados os contos de fadas, é importante fornecer à criança moderna imagens de heróis que tem de se lançar no mundo sózinhos e que, apesar de não saberem à partida como é
que as coisas se vão resolver, acham lugares seguros no mundo, seguindo para a frente com profunda confiança interior”.
A criança, ao longo do seu desenvolvimento, tem muitas vezes que lidar com as suas escolhas, vivendo situações interiores dramáticas ao não compre- ender a sua esfera de acção. Referindo Dohme (2000:24) “as histórias são úteis na transmissão de valores por que dão razão de ser aos comportamentos humanos. Tratam questões abstractas, difíceis de serem compreendidas pelas crianças quando isoladas de um contexto”.
Pode observar-se que a acção da narrativa de muitos dos contos infantis é passada no campo, na quinta, com animais, com o sol a brilhar e muito verde e flores. Este contexto, e este tipo de paisagem transmitem às crianças, uma mensagem e a sensação de paz, tranquilidade e harmonia, o que vai reflectir- se no seu comportamento real.
Passando agora a um objecto carregado de carga simbólica, as máscaras que tantas vezes são utilizadas nos contos infantis. Aliás, são utilizadas desde a antiguidade e com fins diversos, religiosos, pagãos, práticos ou lúdicos. A máscara oculta sempre um rosto. Podem ser uma forma de ocultar o verdadeiro eu, pode simbolizar o bem e o mal, sempre tão patente em contos infantis esta dualidade. Chevalier e Gheerbrant (1997:442) explicam que “as máscaras revestem-se, por vezes, de um poder mágico: protegem aqueles que as usam contra os malfeitores e os feiticeiros; inversamente, servem também aos membros das sociedades secretas para impor a sua vontade assustando”.
O jogo, também tem uma simbologia e mais uma vez, Chevalier e Gheerbrant (1997:386) tem algo a dizer “o jogo é fundamentalmente um símbolo de luta, luta contra a morte (jogos funerários) contra os elementos (jogos agrários), contra as forças hostis (jogos guerreiros), contra si mesmo (contra o medo, a fraqueza, as dúvidas, etc.) (…) Como a vida real, mas num quadro previamente determinado, o jogo associa as noções de totalidade, de regras e de liberdade”.
A casa que aparece nos contos infantis, pode significar não só, o espaço onde habitamos, o lugar de privacidade, onde se vivem os momentos mais íntimos/particulares de uma pessoa, mas também simbolizar o espaço em que nos sentimos protegidos, contra os fenómenos naturais exteriores e contra ataques de terceiros. Este aspecto da casa, enquanto protecção, foi bem retratado na história dos Três Porquinhos. Como diz Bachelard (2005:26) “na vida do homem, a casa afasta contingências, multiplica os seus conselhos de continuidade. Sem ela, o homem seria um ser disperso. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. É corpo e é alma. É o primeiro mundo do ser humano (…) A vida começa bem, começa fechada, protegida, agasalhada no regaço da casa”.
A água é igualmente um elemento simbólico A este respeito dizem Chevalier e Gheerbrant (1997:43) “a imersão é regeneradora, provoca um renascimento, no sentido em que ela é ao mesmo tempo morte e vida”.
A água faz parte de muitos rituais de purificação. Os mesmos autores (1997:42-43) acrescentam “nas tradições judaicas e cristã, a água simboliza em primeiro lugar a origem da criação” e “a água do baptismo, sózinha, lava os pecados, e só é conferida uma vez porque faz aceder a um outro estado: o homem novo”.
Bachelard (2005:86) refere que “a água lava-nos. A água embala-nos. A água adormece-nos. A água devolve-nos à nossa mãe”.
Para Éliade (1997:251) “na água tudo se dissolve, toda a “forma” se desintegra, toda a “história” é abolida; nada do que anteriormente existiu subsiste após uma imersão na água, nenhum perfil, nenhum “sinal” nenhum “acontecimento”. A água equivale, no plano humano à morte, e no plano cósmico, à catástrofe”.
As dualidades, muito presentes em contos infantis, como por exemplo, agressor/doador, na mesma personagem, remetem-nos para a existência de
pólos antitéticos, não só na natureza como, no ser humano. Por vezes repre- sentam os conflitos próprios da estruturação da personalidade.
Bettelheim (1991:110) avança com “uma outra maneira de interpretar isto é olhar para estas duas existências antagónicas como a visão do dia e da noite da nossa vida - como o acordar e o sonhar, como a realidade e a fantasia, como as regiões consciente e inconsciente do nosso ser”.
Em suma, como diz Cavalcanti (2004:2) “Dotado de capacidade de fabular, o homem teve a possibilidade de sair da condição de ser primitivo para se tornar narrador, agente da sua própria história, sonhada, fabulada e narrada. Assim, imerso no mundo simbólico preenchido pelas imagens universais foi traçando o seu caminho e se fortalecendo como sujeito da linguagem e de si, portanto um criador da cultura”.