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Quelques cons´ equences

Quanto às propostas de capacitação, identificamos ser necessário retomar as discussões sobre os problemas de saúde dos jangadeiros como conseqüência do esforço

Figura 61: 2ª Oficina de projeto. Fonte: Acervo do Projeto Jangadeiros (GREPE/UFRN)

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físico durante o transporte de jangadas com rolos, como embasamento para a continuidade das discussões sobre o projeto do carrinho.

Como proposta de gestão da atividade, identificamos a necessidade de repassar as informações sobre doenças ocupacionais da atividade jangadeira aos órgãos e instituições relacionados à pesca.

Quanto às propostas de projeto, foram apontadas algumas questões que devem ser consideradas no projeto de uma jangada, a saber:

- Utilizar duas tampas no projeto da jangada;

- Definir altura suficiente para o armazenamento de redes no interior da embarcação; - Optar por angulação do convés, evitando o acúmulo de água em sua superfície e os riscos de imersão da parte frontal da jangada durante a navegação, principalmente quando da utilização do motor;

- Melhorar a flutuabilidade da embarcação utilizando material nas extremidades do cavername, diminuindo o risco de acidentes quando da possível ocorrência de viradas no mar;

- Aproveitar o espaço em baixo do banco de governo para armazenamento de objetos. Para o projeto do carrinho, identificamos como sendo necessário:

- Considerar o peso da jangada;

- Inserir um puxador na extremidade do carrinho como mais um ponto de apoio para transportar a jangada.

5.1.3 3ª Oficina

A terceira oficina foi realizada no dia 19 de junho de 2010. A partir da necessidade identificada na reunião anterior de retomar as discussões sobre os problemas de saúde dos jangadeiros como conseqüência do esforço físico durante a realização de algumas etapas da atividade, a oficina foi iniciada pela mestranda da área de saúde com formação em fisioterapia. Esta primeira etapa, denominada análise dos aspectos de biomecânica, foi importante para relacionar a dificuldade de atracamento das jangadas na praia, as posturas envolvidas, o intenso esforço físico e os riscos de lesões dos membros inferiores com a etapa da atividade de movimentar a jangada com

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auxílio dos rolos de coqueiro, e, por conseguinte, para retomar e aprofundar a discussão sobre o desenvolvimento do carrinho. Desta forma, a mestranda apresentou a relação do movimento corporal com as posturas e as dores, verificando as queixas de dores dos jangadeiros e as partes do corpo onde há maior incidência destas, além da sua relação com as etapas da atividade, apontando as conseqüências para o trabalhador. Foram projetadas imagens dos jangadeiros em atividade, viabilizando análises conjuntas entre os grupos técnico e social. A interação dos jangadeiros ocorreu de forma não apenas verbal, mas corporal, quando se erguiam para gesticular e representar seus movimentos durante a atividade de trabalho, permitindo uma melhor compreensão ao grupo técnico.

Foi possível validar as informações sobre a ocorrência de dores presentes na atividade e restituir as causas dessas dores, em virtude do movimento constante para se abaixarem e se erguerem desde quando saem de casa e iniciam os preparativos para a pescaria, durante a preparação da embarcação e durante o momento de puxar/empurrar a jangada na praia com utilização de rolos de coqueiro. Embora o foco das discussões tenha sido o transporte da jangada com rolos, alguns jangadeiros relataram dores durante a colocação das redes no interior da jangada: “Tem o movimento também da

pessoa butá as rede dentro da jangada, prejudica o pescoço, a coluna, prejudica tudo.” (Jangadeiro – J15); “O que mexe mais é aquela parte que você falou primeiro (região lombar) o cara se abaixa demais pra butá rede dentro. É por isso que muita gente não quer butá rede dentro da jangada.” (Jangadeiro – J10).

Retomando as abordagens sobre os problemas ao puxar/empurrar as jangadas, os jangadeiros relataram a dificuldade de movimentar a embarcação quando esta atola na areia, o que geralmente ocorre no inverno em virtude da maré alta, deixando a areia menos compacta. A projeção de imagens correspondentes a esta etapa da atividade foi importante nas discussões, fazendo surgir comentários como os do jangadeiro J10:

“Você fica naquela posição, oh... tem que sigurá a jangada pra ela não bater, aí você coisa mais a coluna.” As chuvas foram apontadas como responsáveis pela alteração na

geografia do terreno por causa das enxurradas, podendo abrir crateras na areia próximo à área onde se encontram as saídas de esgoto (no mesmo local onde as jangadas ficam estacionadas), dificultando a movimentação das jangadas. Segundo os jangadeiros, a mudança nos ventos também dificulta esta operação, visto que o “vento de fora” – termo utilizado pelos jangadeiros – traz areia fofa dos morros para o local onde as

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jangadas ficam estacionadas. As falas a seguir enfatizam essas questões: “Se for uma

areia muito frouxa ela (a jangada) não sai não” (Jangadeiro – J15); “Essa areia vem circulando, vem rolando, e fica ali onde a gente coloca as jangada que você não tem condições de puxar” (Jangadeiro – J10). O esforço físico torna-se maior quando os

jangadeiros precisam fazer regulações que permitam rolar a jangada na areia quando esta se encontra nas condições acima descritas. Segundo os jangadeiros, a popa da jangada precisa ser suspensa, o rolo disposto mais atrás da jangada precisa ser rapidamente trazido para próximo ao rolo disposto no meio e após deslizar, este segundo rolo é levado para trás, repetindo o movimento até desatolar a jangada. Alguns jangadeiros utilizam estivas para facilitar a operação.

Embora durante a pesquisa a equipe técnica tenha utilizado métodos observacionais para compreender a organização do trabalho durante o transporte das jangadas, o ambiente de interação com os jangadeiros, propiciado pelas oficinas, foi de suma importância para esclarecer algumas questões ainda ocultas a partir da projeção de imagens e de vídeos desta etapa da atividade. As posturas realizadas pelas pessoas que auxiliam no transporte da jangada foram restituídas aos jangadeiros, ao passo que estes comentaram sobre o papel de cada uma destas. Embora o grupo técnico tenha identificado a torção de tronco nas pessoas que empurram a jangada na popa, os jangadeiros relataram que esta postura é indispensável, pois precisam permanecer desta forma para obterem mais apoio ao mesmo tempo em que precisam visualizar os rolos para não machucarem os pés e para que a jangada permaneça alinhada nos rolos, evitando que estes entrem em choque com o compensado e danifiquem a embarcação. A fala do jangadeiro J10 demonstra esta questão: “você ficando de banda você vê quando

ele ta de cá e sai do outro lado porque se você ficar atrás o rolo quando sai do outro lado vem direto nas suas perna.” Ainda segundo os jangadeiros, as pessoas que

empurram a jangada lateralmente, no meio da jangada, são importantes para direcionar a embarcação, conforme fala do jangadeiro J2: “cada um tem que inquilibrar a proa de

um lado e de outro pra sair sempre aprumada.” As pessoas que empurram a jangada na

popa são importantes para guiar as pessoas que puxam a embarcação pela proa, devendo haver comunicação entre elas para evitar acidentes com os membros inferiores devido ao contato com os rolos ou com o patião. Os jangadeiros apontaram o descuido como a causa para estes acidentes, não estando relacionada à experiência do pescador:

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“As vezes você se discuida, os acidente acontece mais por causa dessas coisas.” (Jangadeiro – J10).

Quanto ao movimento que fazem para se abaixarem e pegarem os rolos, todos disseram ter consciência de flexionar os joelhos para não prejudicar a coluna, embora se tenha observado que eles também flexionam a coluna para fazer o movimento. O peso dos rolos também foi apontado por eles como agravante para a realização do movimento, alguns pesam mais do que outros em virtude do tipo de coqueiro utilizado. De acordo com o jangadeiro J15, o rolo feito com “coqueiro anão” é mais maneiro do que o confeccionado com coqueiro comum.

Com base nas questões discutidas, buscou-se conscientizar os jangadeiros sobre a importância de desenvolver o carrinho para diminuir as dores e melhorar as posturas envolvidas durante esta etapa da atividade, ainda sob a resistência de alguns, conforme relato a seguir: “Eu acho que não tem como o pescador evitar de machucar a coluna

não, porque tem gente aqui que inté lá fora é um poblema” (Jangadeiro – J15), opinião

contrária a do jangadeiro J2: “Diminuir um pouco tem como.” Por fim, a oficina de biomecânica foi encerrada com a participação da mestranda da área de saúde com formação em Educação Física, a qual buscou conscientizar os jangadeiros sobre a importância de minimizar as dores provenientes da atividade através de alongamentos, ensinando a eles os exercícios físicos.