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Nascido em Lisboa, Luís Salgado de Castilho era filho do Cavaleiro da Casa Real, Antonio Salgado e de sua esposa, Ângela Pastor de Castilho. Seu pai foi um reconhecido militar que em 17 de fevereiro de 1698 recebeu por mercê

405 AHU - Pernambuco, Avulsos, Requerimento do procurador do bispo de Pernambuco para D.

João V queixando-se da atuação do juiz de fora, [anterior a 3 de agosto de 1747], Cx. 66, D.

5605.

406 O percurso do magistrado José Monteiro e seus pares que ocuparam o lugar de juiz de fora na Capitania de Pernambuco durante a primeira metade do século XVIII foi trabalhado anteriormente no segundo capítulo dessa dissertação.

de Vossa Majestade D. João V o título de Fidalgo Cavaleiro407. A mercê estabelecida por alvará a Antonio Salgado era reverberação de uma vida a serviço da Coroa. Foi sargento-mor de Cascais, governador de Cabo Verde, sargento-mor da praça em Chaves e general da Província de Trás-os-Montes. Os feitos militares de Antonio Salgado foram reconhecidos também em forma de graças concedidas a seu primogênito Luís. Segundo Paiva,

Quando em 23 de outubro de 1715 o rei Magnânimo concedeu a Luís Salgado um padrão de 48 mil réis de tença cada ano, já o seu progenitor aparece designado na carta régia como “fidalgo da minha casa e do meu Conselho”, deixando-se ainda bem vincado que esta mercê era dada ao filho como beneficiário dos serviços prestados pelo pai. Três anos depois, Luís Salgado foi favorecido com outro padrão no valor de 40 mil réis, sinal de que continuava a usufruir do reconhecimento decorrente dos préstimos do pai.408

Enquanto o pai era célebre por seus préstimos a Coroa, a mãe de Luís Salgado, D. Ângela Pastor de Castilho, era reconhecida como um exemplo de retidão e devoção religiosa. Morreu quando já se encontrava recolhida no Convento de Santa Ana, em Coimbra409.

A família Salgado de Castilho estava vinculada a vultosos membros da corte. Ao ser batizado na freguesia da Sé, em Lisboa, no dia 11 de abril de 1693, Luís Salgado teve como padrinhos D. Lourenço de Mendonça e Moura, 3º conde de Vale de Reis e D. Maria Leonor de Moscoso, filha do 5º conde de Santa Cruz

407 PAIVA, José Pedro. Reforma religiosa, conflito, mudança política e cisão: o governo da diocese de Olinda (Pernambuco) por D. Frei Luís de Santa Teresa (1738-1754). In MONTEIRO, Rodrigo Bentes e VAINFAS, Ronaldo (coordenação) - Império de várias faces. Relações de poder no mundo Ibérico da Época Moderna. São Paulo: Editora Alameda. p. 23.

408 Ibidem.

409 IAN/TT - Carmelitas Descalços, Convento de S. João da Cruz de Carnide, Livro 1, "Saudosa e sucinta memoria...", cit., fl. 369v. APUD PAIVA, José Pedro. Reforma religiosa, conflito, mudança política e cisão: o governo da diocese de Olinda (Pernambuco) por D. Frei Luís de Santa Teresa (1738-1754). In MONTEIRO, Rodrigo Bentes e VAINFAS, Ronaldo (coordenação) - Império de várias faces. Relações de poder no mundo Ibérico da Época Moderna. São Paulo: Editora Alameda.

e irmã do Mordomo–mor de D. João V, o 3º marquês de Gouveia410. Sendo apadrinhado por nomes que carregavam consigo grossos cabedais, Luís tinha seu nome ligado a uma forte rede clientelar que cruzou seus caminhos do batismo a sua adesão a Jacobeia411.

Em outubro de 1710, ingressou no Colégio das Artes, em Coimbra, onde iniciou sua preparação que culminaria mais tarde em uma trajetória pelos bancos da Universidade de Coimbra. Iniciou seus estudos em Coimbra cursando Cânones, mas terminou por formasse em Leis, obtendo grau de bacharel em 25 de maio de 1716 e recebendo o título honorifico de doutor em 31 de julho de 1717412. Eloquente orador, foi opositor de cadeira de Código em Coimbra413.

Leu no Desembargo do Paço em 1717, mesmo ano em que ocupou lecionou as três cadeiras de Código414. Foi provido do lugar de Corregedor de Coimbra em 1722, cargo que deixa em 1724 para dedicar-se a vida religiosa. Ordenado em 25 de março de 1724, passou a viver no Convento de Nossa Senhora dos Remédios, em Lisboa. Ensinou no Colégio de São José em Coimbra antes de ir viver como eremita no Convento do Buçaco415.

A mudança de percurso de Luís Salgado não foi algo inconsciente, mesmo que de forma abrupta. Luís descaminhou da vida magistrada buscando o que ele mesmo chamou de “segurar melhor a sua salvação eterna”416. Ali deixou de ser Luís Salgado para tornasse Luís de Santa Teresa.

410 QUEIRÓS, Maria Helena (2012). Jacobeia e redes clientelares. Fr. Luís de Santa Teresa e Fr. João da Cruz (O.C.D): (auto)retrato de dois irmãos em Braga (1730-1735)”, História. Revista da FLUP, 4a série, 2, 79-96. p. 80.

411 Jacobeia foi um movimento de renovação da Igreja em Portugal no século XVIII. Ver COSTA, Elisa Maria Lopes da. A JACOBEIA: achegas para a história de um movimento de reforma espiritual no Portugal setecentista. ARQUIPÉLAGO • HISTÓRIA, 2ª série, XIV - XV (2010 - 2011). p. 32.

412 PT/AUC/ELU/UC-AUC/B/001-001/S/000865.

413 QUEIRÓS, Maria Helena (2012). Jacobeia e redes clientelares. Fr. Luís de Santa Teresa e Fr. João da Cruz (O.C.D): (auto)retrato de dois irmãos em Braga (1730-1735)”, História. Revista da FLUP, 4a série, 2, 79-96. p. 81.

414 Ver IAN/TT - Leitura de Bacharéis, Luis Salgado, ano 1717, maço 7, nº 21.

415 QUEIRÓS, Maria Helena (2012). Jacobeia e redes clientelares. Fr. Luís de Santa Teresa e Fr. João da Cruz (O.C.D): (auto)retrato de dois irmãos em Braga (1730-1735)”, História. Revista da FLUP, 4a série, 2, 79-96. p. 81.

416 IAN/TT - Carmelitas Descalços, Convento de S. João da Cruz de Carnide, Livro 1, "Saudosa e sucinta memoria...", cit., fl. 370. APUD PAIVA, José Pedro. Reforma religiosa, conflito, mudança política e cisão: o governo da diocese de Olinda (Pernambuco) por D. Frei Luís de Santa Teresa (1738-1754). In MONTEIRO, Rodrigo Bentes e VAINFAS, Ronaldo (coordenação)

Esse novo caminho que passou a ser percorrido por Frei Luís estava localizado em seu tempo e espaço. As primeiras décadas do século XVIII testemunharam a articulação de um novo movimento religioso. Para a historiadora Elisa Maria Lopes da Costa, nos finais do século XVII e alvores do seguinte, vários grupos de religiosos juntando-se nos momentos livres faziam leituras e colóquios espirituais, em diversas casas gracianas (do colégio universitário de Nossa Senhora da Graça de Coimbra), iniciando assim o movimento de renovação espiritual e religiosa que ficou conhecido como Jacobeia417.

Para os jacobeus, a sociedade portuguesa havia se apartado dos valores tradicionais do cristianismo católico e era necessária uma articulação para que esses preceitos, agora distorcidos, fossem retificados. A Jacobeia surgia então com o papel de ajustar não os preceitos católicos a sociedade, mas fazer com que essa sociedade que o deturpava se adequasse a ética cristã418. Segundo Costa,

O programa da reforma jacobeia advogava, para o clero e para os seculares, ser fundamental observar os preceitos religiosos do catolicismo e adequar à ética cristã os costumes das populações. De entre os elementos de espiritualidade comuns e dominantes podem referir-se os exercícios da vida espiritual, com destaque para a oração mental quotidiana, o exame de consciência, a participação nos sacramentos, em especial a confissão que devia ser feita a confessores escolhidos de forma rigorosa. Sinais exteriores da vida devota, de modo a tornar a virtude “contagiante”, assim reformando os indivíduos e, por eles, as instituições, tinham igual importância.419

- Império de várias faces. Relações de poder no mundo Ibérico da Época Moderna. São Paulo: Editora Alameda.

417 COSTA, Elisa Maria Lopes da. A JACOBEIA: achegas para a história de um movimento de reforma espiritual no Portugal setecentista. ARQUIPÉLAGO • HISTÓRIA, 2ª série, XIV - XV (2010 - 2011). p. 32.

418 Ibidem.

419 COSTA, Elisa Maria Lopes da. A JACOBEIA: achegas para a história de um movimento de reforma espiritual no Portugal setecentista. ARQUIPÉLAGO • HISTÓRIA, 2ª série, XIV - XV (2010 - 2011). p. 32.

Essa virtude de fato tornou-se contagiante, um exemplo foi a adesão de Gaspar Moscoso ao movimento. Gaspar Moscoso da Silva era filho do 5º conde de Santa Cruz, irmão do Mordomo–mor de D. João V, o 3º marquês de Gouveia, D. Martinho Mascarenhas, e de D. Maria Leonor de Moscoso, madrinha de batismo de Luís Salgado de Castilho. Seu pai,D. João Mascarenhas vinha da linhagem de D. Francisco Mascarenhas, 1º conde da Torre e Governador Geral do Brasil entre 20 de janeiro de 1639 e 20 de novembro de 1639, nomeado pelo rei Dom Filipe IV420.

Doutorou-se em Cânones em Coimbra e em 1710 foi nomeado reitor dessa mesma universidade. Cinco anos depois deixou as vestes da reitoria e de deão da sé de Lisboa para entrar no convento franciscano do Varatojo, onde veio a professar, em 20 de junho de 1715, com o nome de Frei Gaspar da Encarnação421. Em 1723, o papa Inocêncio XIII (a pedido de D. João V) nomeou frei Gaspar para ser, por um biénio, visitador e reformador da congregação dos cónegos do colégio de Santa Cruz de Coimbra422.

Após um ano do retorno de Frei Gaspar à Coimbra, agora em vestes franciscanas, Luís Salgado de Castilho, com quem tinha estreitas ligações, deixava a corregedoria de Coimbra para ingressar no Convento de Nossa Senhora dos Remédios de Lisboa, o mesmo onde, anos antes, havia tomado hábito o seu irmão frei João da Cruz, que era afilhado de Gaspar Moscoso423.

Uma figura importante dentro da trajetória de Frei Luís de Santa Teresa foi seu irmão de hábito e de sangue, o Frei João da Cruz. D. João Salgado de

420 ABREU, Capistrano de. 1853-1924. Capítulos de história colonial: 1500-1800 / J. Capistrano de Abreu. -- Brasília: Conselho Editorial do Senado Federal, 1998.

421 COSTA, Elisa Maria Lopes da. A JACOBEIA: achegas para a história de um movimento de reforma espiritual no Portugal setecentista. ARQUIPÉLAGO • HISTÓRIA, 2ª série, XIV - XV (2010 - 2011). p. 34.

422 Ibidem.

423 PAIVA, José Pedro. Reforma religiosa, conflito, mudança política e cisão: o governo da diocese de Olinda (Pernambuco) por D. Frei Luís de Santa Teresa (1738-1754). In MONTEIRO, Rodrigo Bentes e VAINFAS, Ronaldo (coordenação) - Império de várias faces. Relações de poder no mundo Ibérico da Época Moderna. São Paulo: Editora Alameda.

Castilho nasceu em Lisboa no dia 28 de dezembro de 1694, e foi batizado na Sé de Lisboa, no dia 4 de janeiro de 1695 pelo padre Estêvão Franco424. Ingressou na Ordem dos Carmelitas Descalços em 22 de junho de 1713, na Igreja de S. José Noviciando no Convento de Nossa Senhora dos Remédios de Lisboa, professou seus votos em 24 de junho de 1714 com o nome de Fr. João da Cruz425. Segundo Queirós,

Após presbítero, “em 1719, foi nomeado Lente de Filosofia e de Teologia” A 29 de abril de 1723, foi eleito Prior de Santa Cruz do Buçaco; a 7 de maio de 1730, Prior do Colégio do Carmo de Braga– cargos que, de resto, são mencionados na Vida– e, em 1736, o de Definidor Geral da Província de Portugal, em Castela.426

Chegou à Diocese do Rio de Janeiro quase que simultaneamente a acomodação de seu irmão, D. Frei Luís de Santa Teresa, no governo episcopal de Olinda. A nomeação de Frei João soou como uma reverberação da atitude de seu irmão em aceitar, após alguma resistência, o lugar na Diocese de Olinda427. Após ir a Lisboa beijar a mão de El-Rei pela graça que reservou a seu irmão, Frei João da Cruz foi nomeado para a Diocese do Rio de Janeiro428. Frei João tinha 46 anos quando assumiu seu primeiro Bispado, tendo voltado à Portugal

424 QUEIRÓS, Maria Helena (2012). Jacobeia e redes clientelares. Fr. Luís de Santa Teresa e Fr. João da Cruz (O.C.D): (auto)retrato de dois irmãos em Braga (1730-1735)”, História. Revista da FLUP, 4a série, 2, 79-96. p. 83.

425 Ibidem. 426 Idem.

427 PAIVA, José Pedro. Reforma religiosa, conflito, mudança política e cisão: o governo da diocese de Olinda (Pernambuco) por D. Frei Luís de Santa Teresa (1738-1754). In MONTEIRO, Rodrigo Bentes e VAINFAS, Ronaldo (coordenação) - Império de várias faces. Relações de poder no mundo Ibérico da Época Moderna. São Paulo: Editora Alameda.

428 “Assim o indicam José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo, Memórias Históricas do Rio de Janeiro, 8º volume, tomo I, 162; Cândido Mendes de Almeida, Direito Civil Ecclesiastico Brazileiro, 559 e Fortunato de Almeida, História da Igreja em Portugal, 715.Segundo David do Coração de Jesus, A Reforma Teresiana em Portugal, 194 e José Bènard Guedes Salgado, “D. Frei Luís de SantaTeresa – D. Frei João da Cruz. Irmãos no sangue, na Ordem e no múnus episcopal, diferenciados na heráldica”, 29 a confirmação teráocorrido aos 19 de dezembro de 1740, com Bento XIV.” IN QUEIRÓS, Maria Helena (2012). Jacobeia e redes clientelares. Fr. Luís de Santa Teresa e Fr. João da Cruz (O.C.D): (auto)retrato de dois irmãos em Braga (1730- 1735)”, História. Revista da FLUP, 4a série, 2, 79-96. p. 84.

após quase 5 anos. Em 1750, assumiu a Diocese de Miranda, onde faleceu 6 anos depois429.

3.2.2. Bispado Teresio em Pernambuco: governo episcopal de Frei Luís