POTENCIALIDADES VULNERABILIDADES ENTREVISTAS TÊNDÊNCIA
S
ESTATUTO SOCIAL E ATITUDES COMPORTAMENTAIS 1. Democratização e Profissionalização do
Ensino
E4, E7, E9 111
2. Profissionalização da prática criativa
1. Desvalorização do ensino e da docência E1, E2, E4, E11 1111
2. Desvalorização do ensino artístico E2,E9,E12 111
3. Aumento de trabalho burocrático a nível educativo E7, E10 111
4. Desvalorização do professor de artes relativamente ao artista
E2, E3, E6, E9, E11 11111
Quadro 8 | Estatuto social e atitudes comportamentais
Como vimos anteriormente, existem várias imagens sociais do artista e professor, moldando a forma como os outros os veem. Nessa medida, alguns comportamentos do artista poderiam ser dificilmente harmonizáveis com as obrigações do professor de arte, influindo na perceção privada e pública do artista-professor e nas respetivas atitudes acionadas. Este eixo agora apresentado funde duas variáveis que consideramos pertinente analisar, o estatuto social do artista-professor e a respetivas atitudes comportamentais.
Assim, o quadro acima apresentado representa um esquema simplificado dos resultados encontrados às seguintes perguntas: Considera que o estatuto social do professor de arte é diferente do artista? que consequências pensa que isso tem para o ensino de artes
visuais? O que pensa que contribui para essa visão social divergente? Considera que o professor e o artista têm originalmente comportamentos diferentes que podem não ser harmonizáveis na figura de artista-professor?
5.1.2.1 Potencialidades
Efetivamente, este eixo demonstrou apresentar maioritariamente nódulos de fragilidade aparente, sendo possível reconhecer, todavia, duas potencialidades em confrontação com cinco categorias eventualmente fraturantes para a atuação do artista- professor em sala de aula.
A democratização do ensino tem vindo a permitir a expansão do conhecimento, como demonstram a quantidade de mestrados e doutoramentos disponíveis nas áreas artísticas, assim como a valorização de outras áreas em grande expansão, das quais destacamos as tecnologias de imagem, referenciadas por Delfim Ramos (E4).
Essa profissionalização traduz-se no aprofundamento das áreas de conhecimento e no domínio de diferentes centros de interesse. Em paralelo, alguns entrevistados destacam também uma profissionalização das práticas criativas, que se ressente, nomeadamente, na valorização das indústrias criativas. Um professor que esteja ligado a essas áreas do mercado artístico tende a expor um maior profissionalismo, na opinião de José de Pina, através de um lado mais rigoroso advindo da prática, do cumprimento de prazos, objetivos, e metas específicas. Por sua vez, Altina Martins também crê que a contante ambição pela superação e pela perfeição serve de motivação, e, consequentemente, como estimulador da ação.
5.1.2.2 Vulnerabilidades
Contudo, identificaram-se como categorias vulneráveis para esta variável, a desvalorização do ensino e da docência; a desvalorização do ensino artístico em particular; o aumento de trabalho burocrático a nível educativo; a desvalorização do professor de artes relativamente ao artista; e, finalmente, a desvalorização das áreas ligadas à prática.
Começando pelo grupo que maior unanimidade obteve, referimo-nos à desvalorização do professor de artes relativamente ao artista/outras atividades artísticas, referenciado por cinco dos elementos entrevistados. Jaime Lebre refere como vivemos numa sociedade virada para o “glamour”, para o entretenimento, uma sociedade do espetáculo, como diria ---, tendo o artista uma imagem social mais próxima deste estatuto que o professor. Também Rui Silva
sentiu que ao longo da sua carreira a profissão de arquiteto era mais valorizada que a profissão de professor, não sendo claro se essa questão ainda se mantém hoje ou se refere mais ao passado recente. Ainda assim, também na opinião de Sofia Machado, ser professor hoje parece ter um estatuto social inferior relativamente ao de artista/criativo, ou, no seu caso, designer gráfico.
Estas constatações não se podem separar, contudo, das outras categorias abordadas. A desvalorização do ensino e da profissão docente foi apontada por quatro dos inquiridos, referindo-se, nomeadamente à imagem que os pais têm do ensino, ao desrespeito político da profissão, à falta de união da classe docente em geral, e à disponibilidade que cada um se dispõe a dar no decorrer da sua carreira enquanto docente.
Relativamente à área de ensino em concreto, ressentem também alguns professores a desvalorização do ensino artístico, faltando a compreensão das questões culturais , modos de ser e atuar, e das necessidades do artista-professor. Orenzi Santi refere que se interessa por diferentes áreas e não permite que lhe atribuam um estatuto diferente devido às áreas em que trabalha, porém, Anabela Canas não deixa de afirmar como ainda se associam certos tipos de comportamento ao artista plástico, como a preguiça, a falta de empenho ou à boémia. Parece ainda existir uma falta de adaptação da estrutura horária às necessidades da prática artística, preferindo-se perpetuar esse tipo de preconceitos face ao artista e à sua prática. Para Anabela Canas, a desvalorização do ensino artístico parece ser mais importante no ensino secundário que no ensino superior (E2).
A esta categoria se aproxima outra, que se caracteriza por uma maior valorização das disciplinas teóricas e científicas, face às disciplinas de áreas técnicas, artísticas ou ligadas ao mercado de trabalho. Segundo Delfim Ramos, essa atitude advém ainda do corporativismo do Estado Novo, não se tendo ainda completamente dissipado. Pedro Gil refere ainda que o excesso de profissionalização do ensino pode levar a que algumas vezes se valorize excessivamente a área de ensino a nível pedagógico, e não se valorize a prática autoral independente. Para este autor não é conflituoso, mas retira tempo a esta prática, podendo por isso ser problemático. Similarmente, José de Pina refere-se ao aumento do trabalho burocrático nos últimos anos, tornando-se mais difícil ao artista-professor adaptar-se neste contexto atual.