POTENCIALIDADES VULNERABILIDADES ENTREVISTAS TÊNDÊNCIAS
INFLUÊNCIAS DA PRÁTICA ARTÍSTICA NO ENSINO
1. Metodologias /Estratégias /Organização E1, E2, E4, E8, E9,
E10, E11, E12
11111111
2. Processos de transmissão, transformação, partilha e desenvolvimento
E1, E2, E4, E5, E6, E7, E8, E10, E11, E12
1111111111
2.1 Transformação E1,E5,E6 111
2.2 Transmissão E1, E5, E6, E12 1111
2.3 Saber-fazer E1, E2, E4, E6, E7,
E8, E10, E11
11111111
2.4 Partilha de experiências E5, E7, E8, E12 1111
3. Atualização / Ligação com a realidade contemporânea
E1, E4, E6, E9, E10, E11
111111
1. Não há influência directa E3, E7 1
2. Mais influência da formação do que da prática E3 1
3. Superproteção dos alunos em relação ao mercado de trabalho
E4 1
Quadro 9 | Influências da prática artística no ensino
De entre todas as variáveis analisadas na perceção das potencialidades do artista- professor no ensino secundário, a que maior unanimidade obteve parece ter sido a que se refere às influências da prática artística no ensino. Vista maioritariamente de forma positiva, só um dos doze entrevistados referiu que não revê influências da sua prática criativa no ensino que promove, sendo mais influenciado pela sua formação do que pelo desenvolvimento dos seus projetos profissionais enquanto arquiteto (E3).
Quanto aos testemunhos restantes, integramos as influências patenteadas em três grupos distintos: a) influências nas metodologias, estratégias e formas de organização; b) processos de transmissão, transformação, partilha e desenvolvimento; e c) formas de atualização e relação com a realidade contemporânea.
Relativamente à primeira categoria, reuniram-se testemunhos relativamente à forma como se definem estratégias diferentes de ensino, modos de desenvolver os diversos conteúdos programáticos, à individualização de abordagens de ensino, na medida em que outro tipo de visão e temas podem ser sugeridos e aliados à constante procura de material de apoio, de forma a incitar o gosto pela aprendizagem e pelo conhecimento de uma área específica. Essas dinâmicas parecem depender, efetivamente, da personalidade e orgânica de cada artista-professor, mas podem ajudar à gestão das tarefas, a gerir os processos de desenvolvimento dos projetos, a ter melhores noções de como orientar determinados problemas que só se conhecem com a vivência das situações, e, dessa forma, permitem ganhar tempo na execução dos trabalhos dos alunos.
Juntamente a esta categoria de gestão e organização das aulas, sobrevém outra importante categoria relacionada com fluxos processuais. Esta categoria, representada por onze dos doze entrevistados, revelou ser também uma das mais importantes neste eixo em análise, que subdividimos em quatro partes, nomeadamente, processos de transformação, transmissão, saber-fazer e partilha de experiências. Começamos por descrever as potencialidades referidas relativamente ao saber-fazer na medida em que é representado por oito elementos, o maior grupo. Os autores foram quase unânimes em descrever os benefícios da presença de artistas-professores em sala de aula, através do conhecimento pragmático que se adquire com a realidade prática, o conhecimento aprofundado das matérias trabalhadas, uma maior compreensão das problemáticas investidas pela preocupação, o desejo e motivação adquiridos com o fazer artístico. Esse conhecimento específico, quer das áreas tecnológicas, como da área do desenho, ou da fotografia, tende não só a desenvolver o raciocínio analítico, como a prevenir erros que possam ocorrer nas oficinas, nos ateliers ou nos espaços de práticas, tal como no design. Como reitera Sofia Machado, ajuda nos processos de desenvolvimento dos projetos, e permite, como afirma Pedro Gil, não tanto saber o que é a obra de arte mas saber “quando” a obra acontece, numa referência clara ao texto de Nelson Goodman59.
Também são reconhecidas as qualidades do artista-professor nas suas capacidades de transformação, que através da prática vai adquirindo competências de desenvolvimento de uma ideia, sendo mais fácil desmontá-la de forma a transformá-la em processos de aprendizagem. O artista /criativo tem nessa medida uma influência nos tipos de provocação que é capaz de instigar, dando espaço aos alunos para subverter as próprias regras quando é necessário.
Diretamente ligadas parecem estar as formas de transmissão que desenvolve com os alunos, assim como uma vontade em transmitir as suas próprias aprendizagens, as práticas que desenvolve ou que conhece, onde se incluem processos e práticas por vezes difíceis de verbalizar.
Mas as influências da prática artística para o ensino, também têm muito que ver com relações de partilha e proximidade entre aluno- professor. Tal como refere Altina Martins, partilha de conhecimentos, sensibilidades, vivências ou partilha de experiências pessoais, assim como questões que só na interioridade da prática se compreendem (E5). Existe também
59 Nelson Goodman,(1978), Ways of Worldmaking. Hackett, Indianopolis, IN, pp.57-70., Tradução portuguesa em D’Orey, C. (org.)(2007), Quando há arte? Nelson Goodman, in O que é a arte? A perspectiva analítica, Lisboa: Ed. Dinalivro, pp.119-133
a partilha de trabalho de outros artistas, numa “plataforma biunívoca” como atesta Bruno Santos. Essa maior proximidade com os alunos, poderá proporcionar, no entender de Carla Isidro, uma maior satisfação dos alunos.
Finalmente, outra categoria identificada nas entrevistas relativamente à influência da prática artística, relaciona-se com uma maior atualização e contacto com a realidade artística contemporânea. Estando ligado ao sistema artístico, o artista-professor tende a estar mais atualizado e a ter uma visão pragmática da realidade exterior, podendo ajudar a acompanhar problemas que necessitam de atualização recorrente. Nessa medida, permite o desenvolvimento de técnicas que possam expandir os horizontes dos alunos, além de favorecer uma perceção constante e atual das necessidades, das técnicas e das tecnologias que o mercado de trabalho ou o mercado artístico antecipa ou procura. Também Elsa Gonçalves acredita que maior atualização gera maior conhecimento e maior motivação para o corpo discente. Ainda neste quadro de ideias, Sofia Machado alerta para os processos que não podem ser realizados em contexto escolar, mas que são importantes de referir e transmitir, sendo eles também uma importante fonte de aprendizagem futura.
Como aspetos vulneráveis atenta-se à posição de um dos intervenientes que mantém a sua posição das práticas como atividades separadas que não têm influência no ensino, sendo mais influenciado pela formação de base (E3). Pedro Gil adverte ainda sobre o risco que também pode constituir se o artista-professor exceder-se em querer influenciar os alunos nas suas próprias preferências. Noutro sentido, Delfim Ramos também refere que existe uma superproteção dos alunos em relação ao mercado de trabalho, que os pode levar ao desconhecimento da realidade exterior. Essa ideia surge apoiada numa outra orientação que tende a privilegiar uma ideia teórica do ensino, não se fazendo a ponte com os saberes práticos que agenciem esse conhecimento de forma útil e rentável.