A espécie Harpalyce brasiliana Benth (Leguminoseae-Papilionoideae) é um arbusto, algumas vezes uma arvoreta, de 1 a 4 metros de altura, que possui ramos alongados; folhas de coloração verde escura e aveludadas; estipulas pequenas, setáceas e caducas, com 7 a 11 folíolos, breve pecioladas, oblongo elípticos de 2,5 a 3,5 cm de comprimento; flores alaranjadas; legume reto glabro de 5,0 a 7,5 cm de comprimento e 1,2 a 3,0 cm de largura, com sementes escuras ou pálidas, oblongas, transversas (Figura 6) (ARAÚJO, 2008).
A espécie é representada por arbustos silvestres anuais, em todo Nordeste, principalmente nos estados do Ceará, Piauí e Maranhão. No Ceará está presente, especialmente, na Serra de Ibiapaba e Chapada do Araripe, onde é conhecida popularmente como “raiz-de-cobra”, devido suas propriedades antiofídicas (BRAZ-FILHO, 1999).
A preparação fitoterápica hidroalcoólica chamada “Específico Pessoa”, feita a partir de uma planta chamada cabeça de negro, é muito utilizada nas regiões Norte e Nordeste do Brasil como antídoto oral para envenenamento ofídico. Trabalhadores da região Nordeste do
Brasil bebem essa poção antes de se adentrar nas matas para se prevenir contra a picada de serpentes (MORS et al., 1989).
A B C
D
Figura 6 – Foto das diversas partes da Harpalyce brasiliana
A - raiz, B - folhas, C- flor e D – espécime completa Fonte: SILVEIRA; PESSOA, 2005
O estudo químico deste fitoterápico foi feito por Nakagawa et al. em 1982. Eles verificaram a ação antiofídica do extrato hidroalcoólico da raiz de uma planta supostamente amazônica, citada pelo nome popular cabeça-de-negro, mas omitiram a identificação (existem várias espécies de famílias diferentes com este nome popular). Do extrato hidroalcoólico eles isolaram duas substâncias, às quais denominaram cabenegrinas A-I e A-II. O trabalho relata que o extrato inibiu o efeito cardiovascular do veneno da serpente Bothrops atrox (Viperidae) em cães e aumentou a sobrevivência dos camundongos envenenados experimentalmente (NAKAGAWA et al., 1982).
O isolamento de vários pterocarpanos, dentre eles, as cabenegrinas A-I e A-II do extrato etanólico das raízes de Harpalyce brasiliana Benth sugeriu que a H. brasilia na poderia ser uma das possíveis espécies utilizadas na preparação do fitoterápico “Específico Pessoa”, citado anteriormente (MORS et al., 1989). De fato, essa planta apresenta registro etnofarmacológico como antiofídica e também é conhecida popularmente como “raiz de cobra”.
O trabalho pioneiro de Nakagawa et al. (1982) foi o impulso para o interesse pelos pterocarpanos.
As cabenegrinas A-I e A-II (Figura 7) presentes na H. brasiliana são pterocarpanos prenilados, com rotação ótica negativa indicativa da configuração S nos carbonos quirais 6a e 11a. Estruturalmente, os pterocarpanos possuem um núcleo tetracíclico derivado do núcleo fundamental das isoflavonas, mas apresentam uma numeração diferente das isoflavonas (BREYTENBACH et al., 1982).
Os pterocarpanos são produtos naturais pertencentes ao grupo dos flavonóides, mais especificamente ao subgrupo dos isoflavonóides e atuam como fitoalexinas, ou seja, substâncias de defesa das plantas às invasões por bactérias, fungos e vírus. Outras atividades biológicas atribuídas aos pterocarpanos incluem atividades antitumoral, antimitótica, anti- HIV, antiinflamatória e antiparasitária (SELVAM et al., 2004; SALEM; WERBOVETZ, 2006; MILITÃO et al., 2007).
Figura 7 – Estrutura das cabenegrinas I e II Fonte: REYES-CHILPA; ESTRADA, 1995
Os pterocarpanos têm sido encontrados em um grande número de espécies de plantas pertencentes a diversas subfamílias das leguminosas (Fabaceae). Os pterocarpanos ocorrem principalmente nas espécies de plantas dos gêneros Erythrina, Swartzia, Glycine e Sophora (AL-HAZIMI; ALKHATHLAN, 2000).
Além das cabenegrinas, estudos fitoquímicos preliminares com a raiz de H. brasiliana possibilitaram o isolamento de mais 6 pterocarpanos: harpalycina-I, leiocarpina, maackiaina, medicarpina, (-)- 4’, 5’- dihidroxi - edunol e da chalcona 3, 4, β’, 4’- tetra-hidroxi-γ’- (γ’’, 7’’- dimetil-octadi-β’’, 6’’- enoil) chalcona (ARAÚJO; LIMA; SILVEIRA, 2009).
Os pterocarpanos harpalycina-I e leiocarpina foram estudados quanto à atividade citotóxica em três linhagens de células humanas (leucemia promielocítica, carcinoma de cólon e carcinoma de mama) e apresentaram resultados satisfatórios (MILITÃO et al., 2007).
Em diversas culturas do mundo o uso de plantas contendo pterocarpanos é conhecido por neutralizar os efeitos de envenenamento por serpentes e aranhas (JIMÉNEZ- GONZÁLEZ et al., 2008).
Também da planta Harpalyce brasiliana foi isolado o edunol, este composto apresenta propriedades antimitótica e antiproteolítica contra a peçonha da serpente B. jararacussu, além de importante atividade inibitória da fosfolipase A2 (DA SILVA et al., 2004).
Um trabalho realizado sobre o efeito protetor do (-)-edunol, um pterocarpano isolado de Brongniartia podalyrioides mostrou redução na mortalidade de camundongos envenenados com o veneno da serpente B. atrox. O (-)-edunol possui estrutura e propriedades similares às cabenegrinas A-I e A-II (REYES-CHILPA et al., 1994).
As cabenegrinas A-I e A-II e o edunol guardam uma estrita semelhança do ponto de vista químico e biológico. Os dois compostos mostram efeito protetor contra veneno botrópico. Suas estruturas químicas (um esqueleto isoflavonóide, funcionalidade dioxigenada e natureza ácida) são relevantes para este tipo de atividade biológica (REYES-CHILPA; ESTRADA, 1995).
Muitos outros pterocarpanos prenilados considerados bioativos foram encontrados em plantas do gênero Erythrina . Dentre estas, a casca de E. barteroana que mostrou poder neutralizante contra o veneno das serpentes da Guatemala (MITSCHER et a l., 1987).
Ximenes, 2009, demonstrou que a cabenegrina A-II foi capaz de bloquear totalmente alguns efeitos do veneno da serpente Bothrops jararacussu em ratos Wistar, como a hiperglicemia, o aumento da creatinina e do aspartato aminotransferase, servindo como indicativo da melhoria da função renal desses animais.
A despeito da propriedade terapêutica atribuída as cabenegrinas A-I e A-II, esses pterocarpanos não foram investigados quanto sua atividade biológica contra o veneno da serpente Bothrops neuwiedi. Além do mais, como dito anteriormente, as informações contidas na literatura a respeito das alterações celulares na medula óssea e no baço de animais envenenados experimentalmente são restritas. Portanto, este trabalho propõe verificar se ocorrem alterações celulares no sangue periférico, na medula óssea e no baço de animas, causadas por envenenamento pela serpente Bothrops neuwiedi e se as cabenegrinas A-I e A-II exercem ação protetora sobre os possíveis efeitos hematológicos e histológicos causados pelo veneno total, na perspectiva de elucidação de um tratamento complementar que possa ser usado com o intuito de diminuir a gravidade das alterações clínicas observadas e a incidência de complicações secundárias ao acidente, e desta forma diminuir o índice de letalidade provocado pelo envenenamento por esta serpente.