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Conclusion sur le contexte et les objectifs de nos travaux

Temos uma passagem de Engels (1990), bastante longa, porém, necessária acrescentar para que o leitor possa fazer esta leitura e compreender melhor sobre esta lei. Esta lei enumerada por ele diz o seguinte:

Mais atrás, ao examinarmos a esquemática do mundo, vimos que, com o Sr. Dühring, se tinha passado a quase desgraça de ter reconhecido e aplicado, num momento de debilidade, essa linha nodal de desproporções, como a chama Hegel, na qual, em certos pontos, as transformações quantitativas se convertem de repente em saltos qualitativos. Citávamos um dos exemplos mais conhecidos: o da transformação dos estados da agregação da água que, sob a pressão normal do ar, ao chegar a zero centígrado, se converte de um corpo liquido em corpo sólido e aos 100º, de líquido em gasoso, caso esse que demonstra como, ao alcançar esses dois pontos decisivos, uma simples mudança quantitativa de temperatura provoca uma transformação qualitativa no corpo.

Centenas de casos como estes, tomados da natureza ou da sociedade humana, poderiam ser lembrados para demonstração dessa lei Assim, por exemplo, em O Capital de Marx, toda a seção 4a., dedicada ao estudo da produção da mais-valia relativa ao âmbito da corporação, da divisão do trabalho, e da manufatura, da maquinaria e da grande indústria, contém inúmeros casos de simples mudanças quantitativas

que fazem transformar-se a qualidade e, de mudanças quantitativas que fazem com que se transforme a qualidade das coisas podendo-se dizer, portanto, para usar uma expressão que tanta indignação provoca no Sr. Dühring, que a quantidade se converte em qualidade e vice- versa. Temos, por exemplo, o fato de que a colaboração de muitas pessoas, a fusão de muitas forças numa só força total, cria, como diz Marx, uma "nova potência de forças" que se diferencia, de modo essencial, da soma das forças individuais associadas. (ENGELS, 1990, p. 106-107).

Esta lei apresentada sobre a passagem das mudanças quantitativas para as qualitativas nos mostra como e de que maneira acontece o processo de desenvolvimento da matéria, da história e do pensamento humano. Por meio desta lei descobrimos como e de que maneira acontece a transformação do velho em algo novo, em algo mais real e concreto, mostrando desta forma as grandes revoluções, entendidas como mudanças, passagens radicais do velho para o novo. Estas mudanças não ocorrem num fechar e abrir de olhos porque acontecem em forma de processos, ao longo da própria existência, porque só no processo se podem verificar as mudanças profundas e convincentes do objeto. (Faremos um parêntese aqui para indicar que a análise da citação de Engels não está acabada, senão que ao longo desta seção iremos analisando as partes constitutivas desta lei, porque o objetivo é que compreendamos esta lei – como as outras leis da dialética- num sentido pedagógico).

Mas, para compreender a essência desta lei se deve compreender bem o que seria quantidade e qualidade. Para Krapivine (1986):

O conceito de qualidade exprime as características de semelhança e diferença que as coisas possuem. Por qualidade entende-se o conjunto de características substanciais que expressam a natureza e os traços específicos duma coisa. Alem de determinar o objeto, qualidade indica que este se acha em equilíbrio relativo. (KRAPIVINE, 1986, p. 166).

A observação do mundo material nos proporciona muitos exemplos sobre infinidades de tipos de matérias, com grandes diferenças entre elas, sem que haja uma mistura entre elas. Estes objetos e fenômenos são tão diversos, que se movimentam e sofrem mudanças radicais, mas, com tudo isso não chegamos a confundi-los, mas o ser humano consegue diferenciá-los e determiná-los, no sentido de enunciá-los. O ser humano consegue captar estas particularidades e propriedades inerentes a cada

fenômeno ou objeto do mundo. Então, podemos afirmar que a qualidade11 é o que faz com que o objeto seja precisamente o que é e não outro, e é o que o diferencia dos demais objetos. Por isso, quando queremos entender um problema relativo ao ser humano ou de outros fenômenos, não analisaremos a essência (calidad) do ser humano, mas suas características qualitativas, as qualidades, porque são elas que determinam a forma de ser de um objeto. Por exemplo, a vida é uma essência (calidad) comum entre os seres vivos, mas, as formas (qualidades) como se realiza essa vida é o fator que devemos analisar para modificar o objeto. Podemos concluir que entre o animal e o ser humano não há diferencia de essência (calidad) enquanto que ambos têm vida. O que o torna diferentes é a forma qualitativa de vida. E esta forma qualitativa que o diferencia do animal, por exemplo, seriam a consciência e o trabalho, porque por meio deles, o ser humano tem a capacidade de transformar a natureza e desde essa transformação, o próprio ser humano se transforma também.

A qualidade, também, é um fator determinante para o desenvolvimento humano. É essencial no ser humano a apropriação e objetivação, mas, para que elas sejam forças transformadoras, é indiscutível que as qualidades sejam iguais para todos os seres humanos. Há graus de formação humana porque as qualidades são diferentes. Por exemplo, quando as qualidades de ensino são melhores numa instituição, a apropriação e objetivação do ser humano são melhores, porém, quando as qualidades de ensino são piores, o resultado é pior. Isto significa que todos os fenômenos da vida social são determinados pela qualidade. É a qualidade que deve ser modificada ou mudada para que haja um desenvolvimento humano de maior qualidade.

Agora nos ocuparemos em analisar o que seria a quantidade. Continuaremos citando Krapivine (1986), quando afirma o seguinte:

A quantidade caracteriza o objeto sob o aspecto do grau, da intensidade ou do nível de desenvolvimento de uma qualidade. Em regra, a quantidade expressa-se em número. Para conhecer melhor a realidade, é necessário, além da qualitativa, fazer a análise quantitativa dos processos e fenômenos. (KRAPIVINE, 1986, p.168).

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Na língua portuguesa, segundo o dicionário Aurélio, não há o termo “calidade”, senão só o termo qualidade. Na língua espanhola há o termo “calidad” e “cualidad”. Segundo o dicionário Espasa (1995), calidad es la propiedad o conjunto de propiedades inherentes a una persona o cosa. Cualidad seria cada una de las circunstancias o caracteres, naturales o adquiridos, que distinguen a las personas o cosas. Es la manera de ser de una persona o cosa. “Calidad” seria a essência do objeto, comum a todos, e “cualidad” seria as características de um objeto ou pessoa.

Cada objeto ou ser vivo possui, também, a quantidade como elemento particular deles, verificada nos graus de desenvolvimentos ou nas intensidades das qualidades que lhes são inerente, assim como o de magnitude, volume, etc. Toda quantidade tem uma expressão numérica, daí a facilidade de captar esta categoria dialética nos objetos ou fenômenos da natureza.

Há uma unidade de relação e de dependência entre a qualidade e a quantidade verificada no conceito de medida. A medida (KONSTANTINOV, 1959, p.230) “es la unidad y acción mutua de la calidad y la cantidad”. A relação que temos é que a cada qualidade corresponda uma mesma quantidade. Neste sentido verificamos o equilíbrio mútuo entre os dois elementos da categoria dialética. Quando a quantidade varia no objeto, temos a modificação do objeto em seu aspecto qualitativo.

Para que haja uma transformação no objeto, precisamos que haja um desequilíbrio na medida. Este desequilíbrio seria a contradição como elemento do movimento e transformação da própria matéria. O desequilíbrio da medida para baixo ou para cima corresponde à grande transformação dialética.

Diz Konstantinov (1959) sobre esta transformação da seguinte maneira:

La ley del tránsito de los cambios cuantitativos a los cualitativos es la ley por virtud de la cual los pequeños y al principio imperceptibles cambios cuantitativos, acumulándose gradualmente, rebasan al llegar a cierta fase la medida del objeto y provocan radicales cambios cuantitativos, a consecuencia de lo cual cambian los objetos, desaparece la vieja cualidad y surge otra nueva. (KONSTANTINOV, 1959, p. 321).

Nos objetos de natureza física e química se verificam as mudanças quantitativas. Por exemplo, quando há um desequilíbrio da medida nesses elementos, verificamos mudanças. A água, quando sofre uma alteração na sua medida de estado líquido, pode passar ao estado gasoso, de evaporação ou congelamento. Neste caso vemos que a quantidade, o aspecto numérico é que sofre as mudanças radicais.

Quando nos deparamos com as mudanças nos elementos de natureza física ou química, falamos de que há uma evolução. A evolução se verifica com esses tipos de elemento. Na natureza sempre temos evolução nos elementos.

Na natureza de vida animal verificamos também este tipo de evolução. Esta evolução se relaciona com os animais orgânicos, porém, no ser humano temos outro tipo de mudança.

No ser humano verificamos mudanças qualitativas. O mais importante no ser humano são estas mudanças qualitativas, que atingem a própria essência do ser humano. Uma das melhores e mais radicais mudança qualitativa que teve o ser humano foi o desenvolvimento da consciência por meio das atividades mediadas e das relações sociais. A atividade mediada por signos e ferramentas e a consciência constituíram os fatores da mudança radical que começou a diferenciar entre o animal irracional e o ser humano. As mudanças qualitativas não são evolutivas, mais, são revolucionarias. Estas mudanças qualitativas modificam mesmo a essência da matéria.

Com isto não estamos afirmando que o ser humano não tenha mudanças quantitativas. Claro que as tem. O ser humano sofre desequilíbrio das medidas no seu corpo. Por exemplo, se o ser humano experimenta uma mudança nas medidas das formas de alimentação, ele experimentará uma anemia ou experimentará um sobrepeso. Estas mudanças quantitativas não modificam a essência humana, não modificam o seu pensamento, a sua forma de consciência, etc.

Mas, as mudanças qualitativas modificam a essência do ser humano. Por exemplo, quando mais o ser humano se apropria e se objetiva, ele modifica as suas funções culturais e psicológicas.

Para o materialismo histórico-dialético, as mudanças qualitativas, como são revolucionárias e radicais, operam em forma de salto. Neste sentido, salto significa a interrupção do gradual, do quantitativo, para passar a algo melhor na essência. O salto constitui a forma mais intensa de mudança radical. Este salto, também, significa passar do velho para o novo. Não significa a continuação do velho no novo. Não, significa que se há eliminado esse velho e surge algo novo no ser humano. Por exemplo, a consciência no ser humano constitui um salto em relação aos outros animais. A consciência e o trabalho humano constituíram saltos qualitativos porque modificaram a essência humana. Acho que o leitor já estará associando este salto do qual estamos falando com a teoria de Vigotsky quando fala de saltos, mas, este tema o analisaremos em outro capítulo desta dissertação.