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Questões a ponderar na realização de entrevistas a pessoas surdas

isoladas

“O sonho positivista de uma perfeita inocência epistemológica oculta na verdade que a diferença não é entre a ciência que realiza uma construção e aquela que não o faz, mas entre aquela que o faz sem o saber e aquela que, sabendo, se esforça para conhecer e dominar o mais completamente possível seus actos, inevitáveis, de construção e os efeitos que eles produzem também inevitavelmente.”

Bourdieu, 2007: 695

Com efeito, a realização de entrevistas a Surdos só por si, levanta questões metodológicas muito próprias, que se complexificam quando falamos em surdos

isolados.

A qualidade da recolha de dados devido às barreiras de comunicação entre Surdos e ouvintes inerente às diferentes línguas de cada um é uma questão automática.

Um investigador ouvinte, que não domine a Língua Gestual, tem necessidade de recorrer a um intérprete de Língua Gestual, figura de mediação muito comum entre o mundo ouvinte e o mundo dos surdos. Assim a entrevista, não é efectivamente feita pelo investigador mas sim pelo intérprete. O intérprete é a figura central desta conversa e a chave de construção de significação. Aqui estamos colocados perante a questão clássica de possibilidade da tradução agravada pelo facto do intérprete de Língua Gestual, no caso das entrevistas a surdos isolados ser desafiado com a tradução de uma língua emergente que ninguém, para além do surdo e das suas relações mais estreitas, conhece. Naturalmente que perante isto se põe em causa a realização efectiva da entrevista e, em última análise, a própria possibilidade de investigação deste objecto.

É de esperar, que a certa altura, no decorrer das entrevistas, ocorram episódios em que não se consegue comunicar, isto é, em que não conseguiremos colocar algumas coisas em comum. Para superar estas previsíveis barreiras de comunicação e o desconforto provocado por elas, surge-nos a necessidade de inventar uma quarta figura na realização das nossas entrevistas.

A essa figura demos o nome de mediador. Um construtor de pontes entre as línguas “oficiais” e as línguas emergentes.

Consideramos que este deverá ser alguém que partilhe com a pessoa surda

isolada entrevistada a sua língua particular, o que, à partida levanta logo questões

relacionadas com a liberdade e o conforto que o sujeito da entrevista irá experimentar no momento da entrevista dada, a proximidade que experimenta com o mediador.

Para além da questão da tradução e da mediação deverá também ser considerada a questão da situação de diglossia.

Entre as línguas gestuais dos Surdos e a língua oral dos ouvintes vive-se uma experiência de diglossia que se complexifica profundamente quando fazemos uma entrevista a uma pessoa surda isolado. Pois passa a experimentar-se uma relação de poder entre três línguas - Língua Portuguesa oral dominante, a Língua Gestual Portuguesa e a língua emergente do surdo isolado.

As questões levantadas aqui fazem-nos partir para o terreno com a dúvida de conseguirmos ou não fazer alguma ciência, quando partimos para o terreno nestas condições.

Será possível, neste momento histórico, estudar as constelações de relações de poder que libertam/oprimem os surdos isolados através da realização de entrevistas baseadas no método biográfico?

Só se pode fazer investigação qualitativa no domínio das ciências sociais e humanas quando partilhamos a mesma língua com os sujeitos da nossa investigação?

Não sabemos se esta questão já foi alguma vez colocada, para lá do domínio da hermenêutica... Se não o foi será, porventura, por apenas investigarmos objectos passíveis de serem investigados na nossa língua?

Deveremos nós limitar a nossa investigação ao que a nossa língua nos permitir investigar?

Ainda não temos resposta mas, o caminho faz-se caminhando... 47

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Versos de Antonio Machado no poema Caminante no hay camino:

Caminante, son tus huellas el camino y nada más; caminante, no hay camino, se hace camino al andar. Al andar se hace camino

y al volver la vista atrás se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar

Que língua falam as pessoas surdas isoladas?

Os estudos de Ivani Fusellier-Souza e a experiência de terreno que temos acumulado no contacto com surdos isolados, fazem-nos intuir que não se está perante uma tarefa impossível.

São raros os estudos que se debruçam sobre a criação de sistemas linguísticos inteiramente baseados no canal visuo-motor por parte de pessoas surdas que não estejam integradas numa comunidade linguística. Além disso, à partida, as experiências de surdez destes surdos ditos isolados, poderão ser variadas no que diz respeito ao desenvolvimento destes sistemas linguísticos, comummente definidos como línguas gestuais emergentes ou línguas francas ou home signs (familiolecte) ou language like

systems (Souza:2005).

Ivani Fusellier-Souza, refere a proposta de uma tipologia de linguagens ou línguas gestuais pensada por Yau na qual o autor distingue três categorias: les langue

des signs de gran diffusion (as utilizadas pelas comunidades importantes de surdos –

como a LGP, a LIBRAS, LSF)48; les langues gestuelles de petites communautés (utilizadas por um número de pessoas surdas, umas dezenas que vivam em collectivité) e, por fim, les langues de signs spontanées (utilizadas por pessoas surdas portadoras de uma surdez profunda que nasçam e vivam no seio de comunidades ouvintes).

Partindo desta tipologia, a autora citada interpela-se com a seguinte questão: sabendo nós que estas línguas gestuais emergente se realizam todas através do mesmo canal, quais são as suas similitudes e dissimilitudes? (Souza, 2005).

Muito embora este aprofundamento linguístico não constitua o objectivo desta pequena reflexão, consideramos importante referir a hipótese lançada pela autora devido ao desafio de interpretação que se irá colocar ao intérprete de Língua Gestual.

Quando se debruça sobre os processos cognitivos presentes na emergência de uma língua gestual em crianças surdas isoladas, Ivani Fusellier-Souza afirma que estas apoiar-se-ão mais profundamente na função semiótica da linguagem e criarão signos gestuais para revelar os seus pensamentos, construindo deste modo uma linguagem simbólica. A autora refere que, o desejo de comunicar com o outro estimulará na criança surda a intenção semiótica da linguagem e, partindo daí ela desenvolverá toda uma

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percepção prática da experiência que levarão a um processo de formação de signos baseado na iconicidade.” (Souza, 2005: 270).

Segue-se uma citação de duas das conclusões alcançadas pela referida autora no seu estudo sobre línguas gestuais emergentes em surdos isolados.

D‟un point de vue qualitatif, ces langues présentent une organisation morphologique similaire à celle des langues des signes communautaires. Ce qui les différencie, en principe, c‟est notamment le nombre réduit de certains paramètres de formation dans les langues des signes primaires.

L‟organisation syntaxique est gérée par l‟iconicité. L‟ordre des signes reproduit l‟enchaînement des éléments d‟un événement réel. Des dispositifs complexes, présents dans les langues des signes communautaires, comme les déplacements des entités par rapport aux locatifs stables et les pointages anaphoriques activés dans l‟espace lors des activités discursives, ne sont pas attestés dans la syntaxe de la langue analysée.

(Souza, 2005: 277)

Tendo por base estes fundamentos teóricos-práticos que servirão de base ao trabalho do intérprete, tentar-se-á então empreender a realização da entrevista a surdos

isolados procurando colocar em pé de igualdade as três línguas que se encontrarão na

procura da construção de significação.

Les langues marginalisées ou minoritaires qui existent dans des environnements sociolinguistiques singuliers ne doivent pas être considérées comme des langues pauvres ou immatures. On doit les considérer plutôt, comme toutes les langues, qu‟elles se sont développées en réponse aux environnements dans lesquels elles existent. En le disant d‟une autre façon, les LSP utilisent différentes ressources afin d‟accomplir différentes tâches.

(Souza, 2005: 278)

Que relação entre as línguas presentes no momento da entrevista?

O mercado dos bens linguísticos

O termo diglossia foi introduzido por Charles Fergusson em 1959 com o intuito de esclarecer a ambiguidade existente na altura em torno do conceito de bilinguismo que, tão depressa se referia a situações sociolinguísticas de comportamento individual como de comportamento social (Berger: 1990).

Assim, através do uso deste novo termo, passou a caracterizar-se a situação de utilização simultânea, num determinado país ou região, de duas línguas com um estatuto social diferente (“High” H versus “Low” L). (Fergusson: 1959).49

O termo bilinguismo, por sua vez remete para a situação que caracteriza as comunidades linguísticas e/ou indivíduos instalados em regiões ou países, onde se utilizam simultaneamente, duas ou mais línguas50, num estatuto social de igualdade (Galisson, R. e Coste, D. 1976).

Joshua Fishman, nos anos 70, lançou a sociologia da linguagem afirmando que “language itself is a content a referent for loyalties and animosities (Fishman, 1972: 4).

Segundo este autor, no linguístico há sempre uma forte presença do social e, por essa razão surge por vezes a controversa afirmação da inexistência de bilinguismo, dado que se verifica sempre, mesmo da forma mais remota, a supremacia de uma língua em relação a outra.

Teoricamente, numa situação bilingue ideal na mesma região o individuo A utilizará a língua A e o indivíduo B utilizará a língua B sem constrangimento algum. Porém, na realidade, nas regiões bilingues ou multilingues, verifica-se uma tendência para toda a gente usar a mesma língua em certas situações (escrita, entrevistas de emprego, conversas de café).

No dia-a-dia sentimos regras informais que governam a mudança de códigos51 consoante o nível H ou L. (Wardhaugh: 1998)

Na nossa investigação, o ideal seria experimentarmos uma situação de bilinguismos ou mesmo multilinguismo de modo a assegurar o estatuto de igualdade entre todas as línguas que tomarão lugar no momento da entrevista. Porém, a situação sociolinguística que se experimentará no acto da entrevista às pessoas surdas isoladas aproximar-se-á mais da situação de diglossia.

Poderá parecer estranho o ênfase dado à questão da língua num capítulo de metodologia da investigação. Porém, a língua não é um elemento neutro, principalmente num projecto de investigação desta natureza.

Bourdieu na sua obra “O que falar quer dizer” faz uma crítica aguda à linguística por esta se isolar dos sujeitos falantes e das utilizações que estes fazem da língua:

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Exemplos desses diferentes níveis serão: Português de Portugal standard (H) Português do Brasil (L); Alemão da Alemanha Standard (H) versus alemão da Suiça (L); Francês de França standard (L) Francês do Haiti (L)...

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Exemlos de multilinguismo são: o caso da Suiça (4 línguas: alemão, francês, italiano e romanche); o caso da Lituânia (3 línguas: lituano, polaco russo).

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Wardhaugh define códigos como “any Kind of system that two or more people employ for communication (Wardhaugh, 1998: 86).

“Falar da língua, sem outra especificação, como fazem os linguistas, é aceitar tacitamente a definição oficial de língua oficial52 de uma unidade política: essa língua é aquela que nos limites territoriais desta unidade, se impõe a todos os cidadãos como a única legítima e tanto mais imperativamente quanto mais oficial for a circunstância (...). Produzida por autores com autoridade para escrever, fixada e codificada pelos gramáticos e pelos professores, também de inculcar o seu domínio, a língua é um código, no sentido do algarismo que permite estabelecer equivalências entre sons e sentidos, mas também no sentido de sistema de normas reguladoras das práticas linguísticas”

(Bourdieu, 1998: 24-25)

No nosso contexto de investigação, no momento de realização das entrevistas, vai experimentar-se uma relação de poder entre três línguas: a língua portuguesa oral dominante, a língua gestual portuguesa oficial e a língua emergente da pessoa surda isolada. A hierarquia social entre elas já se encontra traduzida na ordem em que elas aqui foram expostas. É uma hierarquia que resulta da capacidade destas línguas funcionarem como instrumentos da comunicação. Poder-se-ia dizer que é uma hierarquia natural... mas será?

“Na ausência da objectivação na escrita e, sobretudo, da codificação quase jurídica que é correlativa da constituição de uma língua oficial, as “línguas” só existem no estado prático, (...) enquanto for pedido à língua que assegure apenas o mínimo de intercompreensão nos encontros (aliás bastante raros) entre as aldeias vizinhas ou entre regiões, a questão de considerar um determinado “falar” como norma de outro (...) não se põe.”

(Bourdieu, 1998: 26)

Esta hierarquia entre as línguas não é natural e está associada à capacidade que cada língua tem acumulada, de ser objectivada. Esta capacidade dota cada língua de diferentes graus de capital simbólico que vão influenciar as relações de poder entre as línguas.

Durante a entrevista a pessoas surdas isoladas iremos estar perante duas línguas oficiais (embora uma seja mais oficial do que outra) e um língua oficiosa.

O simples facto de sermos capazes de identificar pelo nome as línguas oficiais traduz uma relação de poder. As línguas oficiais existem as outras não. O português oral dominante é a língua de todos os portugueses e portuguesas, a língua gestual portuguesa é a língua oficial dos Surdos em Portugal, a língua emergente da pessoa surda isolada não existe enquanto tal, não tem nome, não tem bilhete de identidade, em última análise poder-se-á ter a tendência de não a querer identificar como língua.

No campo da surdez, experimentam-se relações de diglossia muito particulares.

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Durante as nossas entrevistas, podemos distinguir três situações de diglossia. A diglossia entre as duas línguas oficiais – a gestual e a oral. A diglossia entre a língua oral e a língua gestual emergente da pessoa surda e, finalmente, a diglossia entre a língua gestual portuguesa oficial e a língua gestual emergente da pessoa surda isolada.

O capital simbólico de cada uma das línguas está intimamente relacionado com a noção de língua oficial.

Mas como é que nasce a ideia de língua oficial?

Vejamos a análise sociológica que Bourdieu faz do nascimento da oficial francesa, o francês standard.

Em França53, a língua produzida em Paris nos meios cultivados foi a que foi promovida ao estatuto de língua oficial. Nas províncias centrais das regiões d’oil essa progressão foi feita de forma gradual a partir do séc. XIV. Porém, nas regiões da língua

d’ oc foram necessários mais dois séculos para que o dialecto parisiense começasse a

substituir, nos actos públicos, os diferentes dialectos da língua d’oc. Todavia, a língua oficial, nunca teve o efeito de abolir totalmente o uso escrito dos dialectos, nem como língua administrativa ou política, nem como língua literária e, quanto aos seus usos orais, estes mantiveram-se incólumes à influência da língua oficial. Instaurando-se assim uma situação de bilinguismo em que as classes populares permanecem reduzidas ao falar local enquanto que os membros da aristocracia e da burguesia tinham mais contacto com a língua oficial escrita ou falada, ao mesmo tempo que dominavam o dialecto, o que os designava para o cumprimento da função de intermediários. Deste modo, a burguesia letrada tem tudo a ganhar com a política de unificação linguística da Revolução Francesa: a promoção da língua oficial ao estatuto de língua nacional dá-lhes o monopólio da política. (Bourdieu, 1998)

“A imposição da língua legítima em detrimento dos falares regionais e dos “ patois” faz parte das estratégias políticas destinadas a assegurar a eternização das aquisições da Revolução através da produção e da reprodução do homem novo. A teoria de Condillac, que faz da língua um método, permite identificar a língua revolucionária com o pensamento revolucionário: reformar a língua, purgá-la dos usos associados à sociedade antiga e impô-la assim purificada é impor um pensamento também ele depurado e purificado. Seria ingénuo imputar a política de unificação linguística apenas às necessidades técnicas da comunicação entre as diferentes partes do território e, nomeadamente, entre Paris e a província ou ver aí o produto directo de um centralismo de Estado decidido a esmagar os “particularismos locais”. O conflito entre o francês da inteligenzia revolucionária e os idiomas ou os “patois” é um conflito para o poder simbólico

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(...) não se trata apenas de comunicar, mas de ver reconhecido um novo discurso de autoridade, com o seu novo vocabulário político, as suas formas de tratamento de referência, as suas metáforas, os seus eufemismos e a representação do mundo social que ele veicula e que, porque está ligado aos novos interesses de novos grupos, é indízivel nos falares locais, moldados por usos ligados aos interesses específicos dos grupos camponeses.

Portanto, é só quando aparecem os usos e as funções inéditas que a constituição da nação implica, como grupo completamente abstracto e fundado no direito, que se tornam indispensáveis a língua standard, impessoal e anónima como os usos oficiais que ela deve servir e, simultaneamente, o trabalho de normalização dos habitus linguísticos. Resultado exemplar desse trabalho de codificação e de normalização, o dicionário cumula pelo registo culto a totalidade dos registos linguísticos acumulados ao longo do tempo (...)”

(Bourdieu, 1997: 28)54

Referimos o exemplo da língua francesa que tem as suas especificidades, porém facilmente podemos fazer uma analogia com a constituição de outras línguas oficiais noutros países.

O movimento de construção de uma língua oficial, apesar das relações de dominação sobre outras línguas, está associado à construção dos Estados-Nação. Estes, por seu turno, estão associados à ideia de protecção de cidadãos de um determinado território.

A oficialização das línguas gestuais é também uma forma de construir uma

nação dentro da nação. Construir um espaço sem território através do qual a pessoa

surda se encontre consigo, com outros surdos e com ouvintes.

O movimento de oficialização das línguas gestuais deve ser respeitado pois está profundamente associado à emancipação das pessoas surdas. Todavia, neste projecto de investigação, durante a realização das entrevistas, não iremos considerar aqui a língua gestual emergente da pessoa surda isolada como um uso incorrecto da língua gestual oficial.

Esta é uma atitude que terá que estar presente em todos os envolvidos na investigação o que nos remete para uma das atitudes presentes no acto de mediação.

Como aceder ao significado na realização da entrevista a uma pessoa

Surda Isolada?

Como já foi anteriormente referido, neste projecto de investigação, a recolha de dados sobre a experiência da pessoa surda isolada foi efectuada através da entrevista.

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As entrevistas são formas bastante comuns de recolha de dados no campo da investigação qualitativa em ciências sociais.

É consensual que as entrevistas se tratam de conversas que, de um modo mais ou menos directivo, se organizam em torno da resposta a perguntas.

No entanto, a particularidade das entrevistas a realizar neste caso, reside no facto de investigador e sujeito da investigação não dominarem as respectivas línguas, isto é., não partilham a mesma língua.

Na sociedade portuguesa, infelizmente, esta situação é muito frequente. Como a Língua Gestual é dominada por um número muito restrito de pessoas, no dia-a-dia, em contextos oficiais, i.e., no contexto da escola, do hospital ou do tribunal, sempre que se pressupõe a ocorrência de uma interacção entre a pessoa surda e a pessoa ouvinte, recorre-se a uma figura que vem mediar esta relação de comunicação – o Intérprete de Língua Gestual.

Trata-se de um ouvinte, que tirou um curso superior (ou não55) de interpretação da Língua Gestual e que se encontra certificado para o exercício das funções de interpretação.

Para que este projecto de investigação fosse realizado ou se adoptava este modelo de relação entre surdos e ouvintes ou se tinha que mudar de investigador, dado que o domínio de Língua Gestual apresentado por este é francamente insuficiente para a realização de uma entrevista em Língua Gestual.

Perante isto, a sensação permanente de que a investigação em causa estaria destinada a falantes de LGP não abandonava o terreno e nunca chegou a abandonar. No entanto, não tenhamos ilusões, mesmo nesse cenário, à partida, ideal, o cepticismo surgiria de novo, uma vez que a Língua Gestual não tem suporte escrito. Só se fala, com as mãos, com a cara e com o corpo, não se escreve.

Ou seja, uma vez contornado o problema da tradução surgiria o problema da transcrição56.

55 Os primeiros cursos de interpretação de Língua Gestual surgiram no contexto do movimento

associativo dos Surdos.

56 Estamos aqui a assumir que o problema da transcrição se coloca apenas com as línguas gestuais, porém,

autores como Derrida chegam a colocar a dúvidas sobre a questão da transcrição das próprias línguas orais. Na sua obra Of Gramatology, Derrida coloca em causa o privilégio dado à voz e à escrita fonética como formas de aceder ao discurso na história do mundo ocidental (Derrida, 1981)

“What is “meaning”, what are the historical relationships to what is purportedly identified under the rubric “voice” as a value of presence, presence of the object, presence of meaning to counsciousness, self-