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A fim de valorizar as histórias dos formadores, as quais foram sendo contadas na entrevista, cujo foco de discussão centrava-se na questão “o que consideras importante para formar um professor?”, compartilho com o leitor particularidades que considero expressivas para a temática deste estudo – a formação de professores. Conforme já destacado, tais características partem, sobretudo, das tradições destes professores, desde suas trajetórias enquanto alunos até as trajetórias de profissionais formadores, as quais os constituíram e ainda os constituem como pessoas que dedicam boa parte de suas vidas à educação. Contudo, quero ressaltar que, na segunda seção do capítulo três, analiso, de forma mais cuidadosa, a relação identificada entre as experiências de si como formador e os sentidos acerca do formar professores.

Dos seis formadores entrevistados, três possuem Licenciatura em Ciências Biológicas, sendo que, dois deles, são apenas licenciados e um é licenciado e bacharel. Entre os dois professores apenas licenciados, ambos cursaram mestrados e doutorados em áreas específicas da Biologia (Zoologia e Biologia Vegetal). O professor licenciado e bacharel, por sua vez, foi o único que recorreu à área da Educação, tanto em nível de especialização quanto em nível de mestrado e doutorado. Os demais três professores são advindos de outras áreas de formação, tais como Medicina Veterinária e Oceanologia, cursando seus mestrados e doutorados em áreas específicas das Ciências Agrárias e Ciências Biológicas. Além disso, uma professora cursou, após os cursos de mestrado e doutorado, cursos de especialização na área de Educação (Formação Pedagógica para Docente do Curso Técnico e Educação Ambiental). Ressalto, então, que entre os professores entrevistados, há diferentes trajetórias acadêmicas, pessoais e profissionais, ou seja, diferentes tradições fazem parte da constituição destes professores como formadores.

Inicio pelo professor Luiz, licenciado em Ciências com habilitação em Biologia. Esse professor atua como docente da UFPel no departamento de Ecologia, Zoologia e Genética, desde 2004, e é o professor regente das disciplinas de Zoologia I e II. Ele também desenvolve projetos de pesquisa na área de ensino e aprendizagem. Esse professor apresenta, em sua trajetória profissional, experiências docentes tanto em nível de graduação, quanto em nível de Educação Básica. Destaco, neste momento, a especificação feita por ele ao se referir ao curso de graduação em que se formou, “era um curso de Ciências com habilitação em Biologia. Então na minha graduação eu fui preparado para dar aula de Ciências, Matemática e Física, no Ensino Fundamental e depois médio” (LUIZ, 2013, p.1). Esse curso se enquadrava, segundo ele, na licenciatura plena, que habilitava os professores para darem aulas no Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Para Luiz, os cursos de graduação, tanto no tempo em que se formou quanto hoje, não são suficientes para os alunos encararem uma sala de aula, e por isso, entende que a construção do professor aconteça na prática, atuando nos primeiros anos de docência. Outro aspecto que considero importante, é que ele entende que os alunos se constroem professores a partir da observação de professores modelos, ao longo de sua trajetória escolar, sendo que o que irá mudar de um professor para outro serão as habilidades pessoais de cada um.

A professora Eduarda, licenciada em Ciências Biológicas, com mestrado e doutorado na área específica da Biologia – Biologia Vegetal - atua na UFPel desde 1987, especificamente, desde a fundação do curso de Ciências Biológicas, no Instituto de Biologia. Essa professora está vinculada ao departamento de Botânica, onde ministra as disciplinas Morfologia e Sistemática de Fanerógamas, desenvolvendo, também, projeto de pesquisa e extensão na área de ensino e aprendizagem de Botânica e na formação de professores. Eduarda irá conduzir a entrevista retomando suas memórias enquanto professora dessa instituição e a partir das mudanças que a prática da docência foi lhe proporcionando. Quando se refere às memórias sobre a formação acadêmica, ela reitera que sua experiência na docência aconteceu quando já atuava como formadora, pois, diz ter ingressado numa licenciatura sem saber se queria dar aulas e, além do mais, lembra que cursou o mestrado e o doutorado longe da área de ensino, “se eu for te levar à minha experiência, por exemplo, eu entrei num curso de licenciatura sem saber que eu queria dar aula. Inicialmente foi assim. A paixão veio bem depois (...) eu precisei começar a dar aula para começar a gostar.” (EDUARDA, 2013, p.4).

A professora Daniela é graduada em Medicina Veterinária, mestre em Zootecnia e doutora em Biotecnologia, além disso, especialista em Educação Ambiental e em Educação pelo Programa Especial de Formação Pedagógica de Docentes para a Educação Profissional em Nível Médio (antigo Esquema I), cursos os quais identifica como os que lhe vincularam à sua linha pedagógica. Essa professora atua como docente da UFPel desde 2009, no departamento de Morfologia, onde atuou anteriormente como professora substituta. Ressalta, ainda, que seu vínculo com o curso de licenciatura é a partir do auxílio que oferece à professora regente das disciplinas de Biologia Celular, Morfologia Humana Básica, e Histologia Especial Comparada, referindo-se a essa colega como alguém que é bacharel, mas que se preocupa em diferenciar a formação entre os cursos de licenciatura e de bacharelado, ao buscar pensar atividades docentes a partir de exemplos que os futuros professores irão encontrar na prática na Educação Básica.

Rafael apresenta-se como um professor leigo nos assuntos educacionais, não tendo concepções a respeito de como formar um mestre para ensinar. Porém, assim como seus colegas entrevistados, refere-se à educação a partir das experiências que teve como professor do Ensino Fundamental, trazendo, na leitura que faço enquanto pesquisadora, importantes avaliações sobre o ensino nas escolas, ao considerar que os professores estão presos, em sua maioria, a livros didáticos e a questões muito conceituais, o que pode, a partir de suas considerações, acabar por prejudicar os alunos, quando “não é traduzida à importância do ensino no dia a dia” (RAFAEL, 2013, p.1). De acordo com ele, os professores devem ser melhores preparados na graduação, tendo estímulo à leitura e sendo levados a construírem seus próprios conceitos, elaborando, assim, uma base conceitual a partir de fundamentos, “para que dos fundamentos aquelas pessoas, que realmente se interessarem, vão buscar as especificações maiores.” Ao colocar essas ideias, ele se refere a sua prática de formador no curso de licenciatura, onde diz que não dá conceitos prontos, mas sim situações para que os alunos criem seus conceitos. Esse professor é formado em Oceanologia, com mestrado e doutorado em Oceonografia Biológica. Atua na UFPel desde 2006, no departamento de Fisiologia e Farmacologia, onde ministra as disciplinas de Fisiologia Animal, Fisiologia Humana, Fisiologia Animal Comparada I e II, desenvolvendo, também, projetos de pesquisa em Fisiologia Aplicada à Aquicultura e de extensão na área de formação de extencionistas em Piscicultura. Anteriormente a essa experiência, atuou como técnico de laboratório na FURG, realizando pesquisas e auxiliando nas aulas práticas de laboratório.

O professor Vitor é graduado e licenciado em Ciências Biológicas pela UFPel, especialista e mestre em Educação, pela mesma universidade e onde, no mestrado, estudou o curso em que se formou, o curso de Ciências Biológicas (bacharelado e licenciatura). Vitor é doutor em Educação Ambiental e atua como docente, desde 2009, no departamento de Microbiologia e Parasitologia, ministrando as disciplinas de Didática do ensino de Ciências; Pesquisa do ensino de Ciências e Biologia; Formação de educadores ambientais e Estágio supervisionado V, e também realiza pesquisas de ensino e extensão na área de formação de professores. Esse professor relata que seu interesse em ser professor iniciou-se no curso de graduação, ao cursar disciplinas da área da Psicologia e ao participar dos seminários de apresentação de trabalhos, momento em que, segundo ele, tanto os colegas quanto os professores diziam entender o que ele falava, estimulando-o a continuar os estudos na área das Ciências Humanas. Este professor diz-se balançado pelas Ciências Humanas, pois, anteriormente à graduação, atuou por muito tempo como técnico de química, o que entendia ser “uma coisa de misturar reagente e pronto, o resultado estava ali” (VITOR, 2013, p.5). Mesmo considerando seu curso de graduação próximo ao modelo técnico, onde se tinha “toda uma teoria e depois só no final era o estágio” (2013, p.4) ele se via, “balançado com as ciências humanas, eu queria sair das ciências duras e ir pras ciências humanas, que eu considerava mais instáveis, sabe? Lidar com a incerteza de lidar com o outro, isso me dá prazer até hoje” (VITOR, 2013, p.5). Soma-se a essa história, uma trajetória de três anos como docente da Educação Básica e dois anos e meio como professor substituto na UFPel e em outra universidade.

O professor Carlos encontra-se no contexto universitário da UFPel desde 1975, inicialmente como aluno do curso de Veterinária, curso em que é graduado e, posteriormente, como docente, somando aí uma trajetória de 33 anos. Esse professor é graduado em Medicina Veterinária, mestre em Ciências Agrárias e doutor na área de Ciências Biológicas, atuando no departamento de Microbiologia e Parasitologia, onde ministra as disciplinas de Controle Biológico, Entomologia urbana e Parasitologia humana e Parasitologia, além disso, desenvolve projetos de pesquisa na área de ‘Geração de conhecimentos’ e projeto de extensão na área de ensino e/ou aprendizagem. Esse professor se refere ao período em que, antes de se tornar efetivo da UFPel, atuou por dois anos em monitoria e dois anos como bolsista da FAPERGS, o que segundo ele, foram anos importantes para se ver como professor.

A partir das entrevistas e das colocações feitas até aqui, vai sendo possível identificar que há uma relação forte entre como se aprende e como se ensina a ser professor, aspecto esse

que será analisado com mais profundidade no capítulo três na seção Experiências de si como formador e os sentidos privilegiados acerca da formação. Ficam, pois, neste momento, as seguintes questões: como se aprende a ser professor? E como se ensina a ser professor? No curso investigado, a força da tradição disciplinar vem sendo significada a partir da relação do ensino teórico-prático, bem como a relação professor-aluno, de aprenderem um com o outro. Faz-se presente, sobretudo, a ideia de que primeiro os professores precisam se ver professores, serem professores, para, então, construírem discursos sobre o formar professores, discursos, no entendimento do que aqui vem sendo defendido, como prática de significação. Considero, portanto, que a entrevista foi, nesse viés, uma oportunidade para os formadores (re) pensarem como se tornaram professores.