A dor crónica não é um sintoma passivo. De acordo com Wall e Melzack (1982) citado por Almeida e Leite-Almeida (58), a dor crónica, aquela que permanece após realizar a
1 Dados de estudo europeu recente, que não incluiu Portugal.
2 Pain Proposal é um projeto Europeu independente, realizado com o patrocínio dos Laboratórios Pfizer,
que tem como objetivo efetuar uma avaliação sobre a gestão da dor crónica por toda a Europa e para ajudar a elaborar recomendações acerca do melhor caminho a seguir.
Para apoiar o projeto “Pain Proposal” foram conduzidos dois estudos, de forma individual, pela InSites Consulting, uma consultora internacional independente, entre Julho e Setembro de 2010. No total, foram concretizados cerca de 3519 questionários online, tendo sido inquiridos 2019 doentes com dor crónica e 1500 profissionais de saúde em cuidados primários, em 15 países da Europa: Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Irlanda, Itália, Holanda, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça, Espanha e Reino Unido.
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sua função de proteção do organismo, não deve ser considerada uma simples ferida ou doença. É uma síndrome – um problema que, por si só, necessita de atenção e tratamento específico (59). A existência de uma dor crónica é um processo debilitante e pode causar uma série de efeitos negativos na pessoa, na família e na sociedade, apresentando igualmente um considerável impacto socioeconómico.
A dor que persiste no tempo, tornando-se crónica, origina uma infinidade de consequências sobre o indivíduo e nas suas atividades diárias, o que leva a considerar a dor crónica como uma doença. Este impacto negativo está expresso nas estatísticas que demonstram a magnitude do problema, incluindo os custos económicos para a sociedade e identificando a redução significativa na qualidade de vida dos milhões de portadores de dor crónica e suas famílias (60).
A dor tem importante impacto no desempenho das atividades de vida diária e no desempenho funcional (61). Sem um tratamento adequado, as pessoas que sofrem de dor crónica são muitas vezes incapazes de trabalhar ou até mesmo realizar as tarefas mais simples, levando consequentemente a um aumento do absentismo do trabalho, perda de emprego ou ainda reforma antecipada, assim como problemas financeiros. As pessoas com dor crónica apresentam frequentemente alterações psicossociais, dificuldades físicas, tais como mobilidade reduzida, má nutrição, perda de peso, perda de força, diminuição da atividade, distúrbios do sono, falta de concentração, isolamento social, compromisso nas relações com os outros, problemas conjugais, ansiedade, medo e depressão (60; 61).
Algumas destas alterações apresentadas podem ser causadas pela situação de dor, mas também podem constituir-se como fatores que aumentam a dor. McCarberg e Billington (62) estudaram alguns desses aspetos. As alterações do padrão do sono tais como: dificuldade em iniciar o sono, manter-se a dormir e a privação do sono, podem ser potenciadores do fenómeno dor. Segundo estes autores, o efetivo controlo da dor crónica, requer uma avaliação abrangente e se necessário, um tratamento das comorbilidades associadas a esta condição, no sentido de proporcionar uma melhoria no funcionamento e qualidade de vida.
O estudo de Azevedo e colaboradores (1) veio mostrar as consequências da dor crónica na população portuguesa. Em Portugal, uma percentagem significativa das pessoas referiu que a dor interferia nas suas atividades diárias, tanto na vida familiar, como nas atividades profissionais, destacando-se, interferência moderada a grave nas: atividades laborais 47%; nas atividades domésticas 46%; no sono e descanso 37%; nas atividades de
39 lazer 36%; nas atividades sociais 30%; no comportamento sexual 30%; nas atividades vitais 24%; nos cuidados pessoais 20% e, 13% das pessoas com dor crónica inquiridas relataram depressão. Os principais fatores associados à disfunção foram o sexo, a intensidade da dor e a depressão ou sintomas depressivos.
Devido à presença persistente da dor, 33% dos indivíduos afirmaram-se incapazes de viver a sua vida em pleno (59), afetando a sua qualidade de vida.
Vários fatores podem condicionar o impacto da dor crónica na qualidade de vida da pessoa. Embora existam cada vez mais fármacos e tecnologias disponíveis para o tratamento da dor crónica, muitas pessoas, incluindo os mais idosos, continuam a experimentar dor crónica. Este tipo de dor tratada de forma inadequada pode afetar seriamente a qualidade de vida.
Conhecer o impacto da dor crónica nos aspetos psicológicos, nas atividades de vida e na qualidade de vida (atitudes e comportamentos) baseadas na sua perceção de saúde foi o objetivo do estudo conduzido por Dias (63) numa população de idosos com dor crónica a frequentar a Consulta da Dor de um hospital do distrito do Porto. De facto, dos resultados, a dor emergiu como sintoma principal da doença, parecendo condicionar as várias dimensões da vida, em especial o desempenho físico, a saúde mental e o funcionamento social das pessoas. Verificou-se pois, um impacto, de carácter negativo, da dor crónica na vida desta população de idosos.
Ainda que as consultas de dor crónica sejam consideradas com um recurso diferenciado para o acompanhamento das pessoas com dor crónica, os estudos têm mostrado scores de qualidade de vida inferiores desta população que frequenta estas consultas, em comparação com outros contextos, tal como é apresentado nos estudos de Kerr e colaboradores (18) e Lamé e colaboradores (21).
Fatores como o tipo de dor, a intensidade da dor e a presença de dor em múltiplos locais podem interferir também na qualidade de vida e na reação da pessoa à dor. O estudo de Lamé e colaboradores (21) acrescenta que, aqueles que apresentam dor lombar crónica e dor em múltiplas localizações experimentam um nível de qualidade de vida mais baixa. Ainda a catastrofização face à dor mostrou uma forte associação com a qualidade de vida e com a intensidade da dor.
Widar, Ahlstrom e Ek (22) estudaram a Qualidade de Vida (QdV) relacionada com a saúde em pessoas com dor crónica após Acidente Vascular Cerebral (AVC). Nesta população, os resultados revelaram que o funcionamento físico e cognitivo, a segurança económica e as boas relações, o suporte e a capacidade de estar com a família e amigos são fatores
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importantes no que concerne à perceção sobre a qualidade de vida. Assim, torna-se necessário uma consciencialização da cronicidade da situação, compreensão da mesma e dos aspetos relacionados com a transição vivenciada pela pessoa com dor crónica, nomeadamente nesta população, no sentido de apoiar a manutenção e melhoria da qualidade de vida das pessoas com dor crónica. No caso das pessoas com dor crónica após AVC, tal como nos refere Widar, Ahlstrom e Ek (22), este aspeto é, também importante, após a fase aguda e de reabilitação, devendo englobar questões relacionadas com a QdV dos familiares, especialmente quando se trata de pessoas idosas, dependentes e com dor crónica.
De facto, o impacto da dor crónica pode ir além do indivíduo e ter repercussões no seu meio envolvente, nomeadamente nas pessoas mais próximas e significativas. O impacto da dor no contexto familiar pode ser diverso e o cuidar da pessoa com dor encarado como uma experiência complexa (64). Abordada como experiência, ora gratificante (novos valores, fortalecimento de relações) ora desgastante (perdas – alteração de papéis, e a nível laboral, solidão), a autora encontrou cuidadores distintos – uns que se referem às alterações do quotidiano, e outros às alterações do próprio “eu”. Entre outros aspetos, quanto mais tempo de cuidador, mais dificuldades eram apresentadas e a perceção da dor mais negativa. Neste estudo, a existência de diferenças entre os sexos é relevante: o homem sofre “sobrecarga emocional”, (apresentando necessidades psico-emocionais realçadas), tem mais dificuldades face à doença/dor, tem sentimentos mais positivos e recorre aos recursos externos. As mulheres verbalizam sentimentos mais negativos, utilizam mais os recursos internos e têm mais dificuldade em lidar com o doente com dor oncológica. Estes resultados fazem refletir sobre a importância de avaliar os cuidadores de pessoas com dor crónica identificando as necessidades em cuidados para um desenvolvimento de ações capazes de contribuir para a melhoria das práticas e de controlo da dor (64).
Em síntese, a avaliação de outros constructos como atividades de vida diária, humor e qualidade de vida, informam sobre o impacto da dor na vida do indivíduo (61), no entanto, outros aspetos a realçar são os relacionados com o ambiente familiar, trabalho, lazer e sociedade.
Tal como nos refere Ospina e Harstall (14) a dor crónica intensa e limitante pode estar presente em cerca de 11% dos adultos, aumentando com a idade. Nos diferentes estudos já expostos, a dor é apresentada como causa de disfunção e de uma ampla utilização dos serviços de saúde pelas pessoas com dor crónica (65; 56) assim como internamentos
41 mais prolongados (66; 8)3. Apesar da sua prevalência, diversos estudos têm demonstrado
um controlo da dor crónica insuficiente (32; 56). Este controlo inadequado da dor apresenta um impacto socioeconómico enorme, acarretando custos relacionados com a ausência ao trabalho e com a incapacidade que esta provoca (67; 68).