• Aucun résultat trouvé

Halliday e Matthiessen (2014) salientam ser interessante notar que os diversos tipos de relações entre as orações na formação dos complexos oracionais antes vistos são as mesmas manifestações dos mesmos tipos semânticos gerais da área da gramática relativa às circunstâncias no sistema de transitividade da oração, as quais ampliam a configuração de processo + participantes no nível da oração em termos de projeção ou de expansão. A projeção e a expansão correspondem, por sua vez, a diferentes tipos de processo: enquanto a projeção corresponde a orações verbais e mentais, a expansão corresponde a orações relacionais. Além do nível da oração, a projeção e a expansão também se manifestam como relações lógico- semânticas que unem orações para formar complexos oracionais. As manifestações de projeção e expansão na oração e no complexo oracional constam no Quadro 9.

Quadro 9 - Projeção e expansão manifestadas na oração e no complexo oracional

Oração Complexo oracional

tipo de processo tipo de circunstância tipo de relação lógico-semântica

Projeção [verbal:] ele diz [ângulo:] de acordo com ele

(isso é suficiente) [citação de locução:] ele diz “é suficiente”

[mental:] ele acha [ângulo:] para ele (está muito

quente) [relato de ideia:] ele acha que está muito quente

Expansão [relacional: intensivo] ela era a

líder [papel:] como líder [elaboração:] sendo o líder

[relacional: possessivo] ele possui um cachorro: ele tem um belo sorriso

[acompanhamento:] com um cachorro; com um belo sorriso

[extensão:] ele caminhou até o mercado e o cachorro [caminhou] também; ele dirigiu-se a ela

sorrindo gentilmente21

[relacional: circunstancial] o jantar

seguiu à comemoração [localização, extensão, causa, modo, etc.:] após a

comemoração

[intensificação:] eles jantaram após comemorarem

Fonte: (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 433, tradução nossa).

O Quadro 9 mostra padrões de agnação22 que se realizam entre os tipos de

circunstância na oração e os correspondentes tipos de relação lógico-semântica entre as orações no complexo oracional. Os autores, como exemplo, argumentam que a circunstância de meio com todo o seu coração na oração é agnata com a oração (não-finita) ligada a todo dia ela orava em um complexo oracional:

||| Todo dia, ela orava com todo o seu coração23. |||

||| Todo dia, ela orava || usando todo o seu coração24. |||

O sintagma com todo o seu coração amplia circunstancialmente a oração dentro do domínio da própria oração; em contraste, a oração usando todo o seu coração expande a oração precedente, relacionando-a a uma oração completa (em vez de a um sintagma preposicionado ou a um grupo adverbial), com isso abrindo um complexo oracional. A seguir, no Quadro 10, são listados alguns exemplos, apresentados pelos autores, de circunstâncias (em negrito) dentro do domínio da oração com respectivas orações agnatas sugeridas dentro do domínio do complexo oracional, salientando-se que o padrão de agnação pode também funcionar ao

21 Nesse caso, entendemos, diferentemente de (ou complementarmente a) Halliday e Matthiessen, que a

transposição da circunstância de acompanhamento do nível da oração para o complexo oracional, pode transformá-la em uma relação lógico-semântica de expansão por intensificação: modo.

22 Para Halliday e Matthiessen (2014, p. 49), a explicação sobre alguma coisa não consiste em dizer como ela é

estruturada, mas em mostrar como ela está relacionada com outras coisas, ou seja, em mostrar o seu padrão de relações sistêmicas ou agnação. Segundo Morais (2013), a agnação ocorre na construção com escolhas gramaticais diferentes, mas com o mesmo (ou equivalente) significado. Nesse sentido, as construções agnatas são metafóricas, ou não-congruentes, pois contrastam com o modo congruente e comum.

23 Tradução nossa para “Each day, she prayed with all her heart”.

contrário, pois podemos encontrar frequentemente circunstâncias que são agnatas de orações:

Quadro 10 – Circunstâncias na oração e orações agnatas no complexo oracional

Tipo de relação de

circunstância Circunstância na oração

Oração agnata (complexo oracional)

Intensificação: tempo Sob seu governo, houve paz

em todo o país. ~

quando ele governou

Intensificação: causa por causa dessa criança, ele

nunca iria se tornar halauinic. ~ viveu porque essa criança Extensão: alternância No lugar das habituais

roupas caras e elaboradas,

os Motleys criaram conjuntos e roupas simples mas bonitos feitos de materiais baratos geralmente obtidos em promoções.

. ~em vez de criar as

habituais roupas caras e elaboradas

Projeção: ângulo A tortura e violência sexual contra prisioneiros é generalizada nas prisões em todo os Estados Unidos,

conforme relatório publicado ontem

~diz relatório publicado

ontem.

Elaboração: papel mas depois de um tempo, Chirumá foi escolhido como

novo chefe

~para ser o novo chefe.

Fonte: (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 433, tradução nossa).

Os autores prosseguem argumentando que, conforme podemos observar nos exemplos acima apresentados, o elemento circunstancial de uma oração contém apenas um processo menor, não um maior. Assim, ao contrário da oração, o elemento circunstancial dela não pode construir uma figura completa, ele não pode originar uma proposição/proposta, assim como não pode apresentar uma mensagem.

Por outro lado, o complexo oracional sempre envolve a atribuição da condição de oração a uma unidade relacionada à oração por meio da expansão ou projeção: essa unidade tem todo o potencial de uma oração, em termos dos sistemas experiencial, interpessoal e textual.

Assim, assinalam os autores que, enquanto o sintagma preposicionado com todo o seu coração e a oração (não-finita) usando todo o seu coração estão bastante próximas uma da outra (sintagmas preposicionados sendo uma oração em miniatura), apenas a última tem o potencial gramatical de uma oração, podendo, por

exemplo, ser ampliada circunstancialmente e avaliada de forma modal, como em alegremente usando todo o seu coração pelo amor de sua família. Além disso, sendo uma oração em um complexo oracional, ela pode fazer parte de uma cadeia: a cada dia que ela orava, usando todo o seu coração, como sua madrinha a tinha ensinado durante todos aqueles anos, e centrando sua energia na recuperação de seu irmãozinho. Dessa forma, os elementos circunstanciais fazem parte da estrutura de configuração da oração, enquanto as orações nos complexos oracionais fazem parte de uma estrutura do tipo cadeia ou serial.

Halliday e Matthiessen (2014) também afirmam que, na criação do texto, podemos escolher entre ampliar a oração internamente por meio de um elemento circunstancial e ampliá-la externamente por meio de outra oração em um complexo oracional. A decisão depende de vários fatores; mas a consideração básica tem a ver com que peso semiótico textual, interpessoal e experiencial vamos atribuir à unidade: quanto mais peso ela tiver, mais provável será que ela venha a ser construída como uma oração interdependente em um complexo oracional do que como um sintagma circunstancial (ou grupo adverbial) ampliando a oração.

Segundo os autores, a sequência de projeção ou expansão pode ser realizada por duas orações que são combinadas estruturalmente para formar um complexo oracional, como em a aconteceu depois b aconteceu ou após a ter acontecido, b aconteceu. Mas existem duas formas alternativas de realização.

Por um lado, a sequência pode ser realizada por duas orações que não são combinadas estruturalmente, mas, em vez disso, são ligadas coesivamente: A aconteceu. Depois b aconteceu. Sendo as duas orações separadas por ponto final, aqui a gramática fornece uma “pista” sobre a natureza da ligação semântica; mas não integra as duas orações numa construção gramatical.

Por outro lado, a sequência pode ser realizada por uma única oração com um sintagma preposicionado (ou grupo adverbial) servindo como um elemento circunstancial dentro dela: após o tempo de a, b aconteceu.

De acordo com Halliday e Matthiessen (2014), as oportunidades gramaticais de realizar uma sequência de projeção ou expansão formam uma escala definida por dois polos: um polo é a oração simples com um elemento circunstancial, e o outro é a sequência coesiva em um texto com duas orações independentes.

Os autores concluem que o complexo oracional compreende a região intermediária entre esses dois polos. Mas o complexo oracional não é, de fato, um

ponto único nessa escala; ele abrange duas regiões da escala. Na região mais próxima do polo da ampliação circunstancial, existem combinações de orações em que uma oração é dependente de uma oração dominante, sendo as duas, portanto, de status desiguais (como em quando a aconteceu, b aconteceu). Na região mais próxima do polo das sequências coesivas, existem combinações de orações em que as duas orações são interdependentes entre si, tendo as duas status iguais (como em a aconteceu, então b aconteceu).

Na Figura 5, a seguir, os autores representam esquematicamente a escala de grau de integração e interdependência gramatical na realização da projeção e da expansão.

Figura 5 – A localização do complexo oracional em termos de estratificação, metafunção e nível

sequência de projeção/expansão

experiencial: lógica: textual:

oração complexo oracional sequência coesiva de orações

[ampliação circunstancial:]

[ampliação tática:] [ligação conjuntiva:]

grupo/sintagma

palavra

Fonte: (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2014, p. 435, tradução nossa).

• •

grupo tônico/

subperíodo sequência tônica [fonologia]/ período

Fonol ogi a/ gr af ol ogi a Le xi cogr am át ic a sem ân tica

Segundo os autores, a Figura 5 também mostra outras facetas da localização do complexo oracional no sistema geral do Inglês. Em primeiro lugar, em termos de metafunção, o complexo oracional é organizado pelo modo lógico da metafunção ideacional, contrastando com ampliações circunstanciais da oração (experiencial) e sequências coesivas (textual). Isso significa que a organização do complexo oracional está baseada em um modelo univariável em vez de multivariável (como os complexos em outros níveis e os grupos). Em segundo lugar, com relação ao nível, o complexo oracional está situado no mais alto nível da gramática – o nível da oração, estando, portanto, relacionado à oração em termos de complexo lógico em vez de em termos de constituinte experiencial. Em terceiro lugar, com relação à estratificação, o complexo oracional realiza uma sequência semântica de projeção ou expansão, a qual, por sua vez, é realizada por uma sequência de tonalidades na fala e pela frase na escrita.

Antes de adentrarmos na próxima subseção, é necessário retomar, para expor com maior clareza, a discussão sobre o modelo de organização do complexo oracional, segundo o qual o complexo oracional possui uma estrutura univariável em vez de multivariável.

A abordagem da variabilidade implica dizer que qualquer unidade gramatical na escala de níveis da léxico-gramática é uma unidade multivariável na medida em que ela realiza a unidade imediatamente superior e é realizada pela unidade imediatamente inferior, ou seja, uma palavra é realizada por diferentes morfemas, livres e subordinados, que funcionam diferentemente nas palavras, palavras diferentes de diferentes partes da fala e com diferentes funções (TÂM, 2013).

Além disso, o fato de os constituintes de uma estrutura de unidade serem diferentes quanto à realização e funções significa que a estrutura de uma unidade na escala de níveis é sempre multivariável.

Combinar orações em um complexo oracional é como montar os detalhes para fazer uma nova estrutura na qual esses detalhes coexistem, mas cada um funciona à sua maneira. No complexo oracional, uma oração é colocada ao lado da outra, de modo que o complexo oracional esteja ainda no mesmo nível da oração. O complexo oracional é uma estrutura univariável porque, por exemplo, quando composto por duas orações, ambas constituem dois padrões de realização independentes de dois sistemas diferentes de modo, tema e transitividade (TÂM, 2013).

Em suma, conforme lecionam Halliday e Matthiessen (2014, p. 390), a estrutura univariável é aquela gerada como uma repetição da mesma relação funcional: a é modificado por b, que é modificado por c, e assim por diante. Por outro lado, a estrutura multivariável é aquela em que, na configuração de seus constituintes, cada um dos elementos tem uma função diferente em relação ao conjunto Ex.: Dêitico + Enumerativo + Epíteto + Classificador + Entidade. Na maioria dos casos, a estrutura gramatical se enquadra em um dos dois tipos.

Dito isso, na próxima subseção, passamos a abordar alguns aspectos sobre as relações entre o complexo oracional, a formação de grupos e o período.

Documents relatifs