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12. L'HÉRITAGE EN LANGAGE C++

12.6 CLASSE VIRTUELLE .1 Définition

Buscamos no primeiro capítulo, principalmente nos dois primeiros sub tópicos, trazer elementos históricos nos quais elencamos a relação entre Educação Física e saúde e como tais relações foram importantes para as condições de possibilidades para o surgimento do campo.

Queremos, rapidamente, retomar algumas das questões já explanadas anteriormente, a fim de construirmos o mote analítico deste segundo capítulo. Vimos que fora a influência médico-militar sobre a organização da ginástica do século XIX e início do século XX no Brasil que destacou a idealização da construção de uma sociedade saudável – a qual seria planejada por intelectuais da área da saúde. Foi a medicina higienista que compreendia a disseminação da atividade física como um hábito higiênico. Os cuidados corporais e a ginástica possibilitaram, então, uma primeira aproximação entre uma “Educação Física” 22 e as questões relacionadas à

saúde.

Esses foram elementos coadjuvantes para a abertura de condições de possibilidade para o surgimento da Educação Física enquanto campo (GÓIS JÚNIOR, 2013; PAIVA, 2003). Contíguo a esses fenômenos, junta-se, como pano de fundo, a industrialização europeia, que nos parece ter criado motes que passaram a tangenciar discussões no campo científico sobre a saúde como um aspecto moral de fortalecimento da população – inclusive, a população que trabalhava nas fábricas. No Brasil oitocentista essas eram questões distantes, pelo contexto no qual o país se encontrava – em uma economia agrária e escravocrata. Então, foi o discurso de fortalecimento da identidade nacional que perpassou os meandros da utilização das práticas corporais na construção de uma nação forte e saudável, no caso brasileiro (GÓIS JÚNIOR, 2013).

Parece-nos que os discursos sobre a construção de uma nação forte e saudável encontraram no fenômeno esportivo lócus sobre onde repousar. Não é estranho ouvirmos sentenças do tipo: “esporte é saúde” ou “esporte promove saúde”. A aptidão física ligada à prática esportiva passa a ser considerada o ideário de produção da saúde (entendamos aqui, uma saúde biológica). Não obstante, vemos a Educação Física ser confundida com o fenômeno

22 O termo aparece entre aspas, pois, no século XIX, ainda não se tinha a Educação Física enquanto disciplina escolar organizada, sendo apenas um conjunto de cuidados que se ligava à higiene e à atividade física (SOARES, 2000).

esportivo – como se ambas fossem sinônimas. Essa relação custou à área a influência de uma perspectiva de saúde centrada nas Ciências Naturais e Biológicas.

Carvalho (2005) destaca que, no Brasil, a relação entre Educação Física e saúde foi acentuada a partir do marco da organização científica da área com a criação de laboratórios a partir da década de 1970, principalmente os de fisiologia do exercício. Tal fenômeno é rodeado pelo apoio e fomento de órgãos à pesquisa nacionais e internacionais (CARVALHO, 2005). Os professores que atuavam na comunidade científica da área, em sua grande maioria, possuíam formação orientada nos princípios biofisiológicos e no treinamento esportivo. Esse fato parece demonstrar que “[...] as atenções da Educação Física estiveram voltadas para uma determinada saúde!” (CARVALHO, 2005, p. 99). Uma saúde pautada nos princípios biofisiológicos e arregimentada no paradigma da aptidão física. Ou seja, calcada em discursos epidemiológicos de redução (ou eliminação) dos riscos via a prática de atividade física (esporte), tendo esta como sinônimo de saúde.

Apesar de estudos virem apontando uma aproximação das discussões sobre saúde na Educação Física com referenciais das Ciências Humanas e Sociais (CARVALHO, 2005; NASCIMENTO; OLIVEIRA, 2016), citamos o contraditório, no que tange à força que ainda sustenta uma hegemonia biomédica (instalada historicamente no campo), que não trata apenas de disciplinas curriculares tradicionais, mas de uma orientação epistemológica e metodológica centrada na doença e numa pedagogia da transmissão (CARVALHO; CECCIM, 2006).

Alinha-se à essa questão o fenômeno que vem ocorrendo na pós-graduação em Educação Física denominado por Manoel e Carvalho (2011) de “atração (fatal) para a biodinâmica”. Estudos apontam para a influência do sistema de pós-graduação na graduação seja na produção de recursos humanos para atender à expansão do ensino superior (SANTOS; AZEVEDO, 2009; KOKUBUN, 2006) ou no desenvolvimento de conhecimentos que serão utilizados na formação inicial (KOKUBUN, 2003). Kokubun (2006, p. 31) nos chama a atenção para o fato da proximidade intrínseca entre graduação e pós-graduação ao comentar que “a existência de um corpo de conhecimentos com densidade e profundidade é condição essencial para justificar a criação e manutenção de um curso de graduação, pois é nele que se assenta todo processo de formação superior”. Malgrado a essa questão, Manoel e Carvalho (2011, p. 402) destacam que há um desequilíbrio na formação em Educação Física no qual os alunos da graduação “[...] sabem cada vez mais sobre as bases moleculares da contração muscular e menos sobre como planejar um currículo e conduzir uma aula”, muito em decorrência do forte

investimento em pesquisas da área biodinâmica em detrimento da área pedagógica. Com o reconhecimento da forte influência que a pós-graduação exerce na graduação em Educação Física e da hegemonia da área biodinâmica, vemos que essa área vem sendo questionada com a emergência de propostas orientadas nas Ciências Sociais e Humanas. Tais questões nos fornecem pistas para analisar tanto a questão dos desafios da formação em Educação Física para o campo da saúde quanto nosso objeto desta tese que se assenta no imperativo de perceber as presenças e ênfases dadas ao tema da saúde nos currículos de formação inicial dessa área.

Soma-se a essas questões a legislação pertinente à formação profissional. A Resolução 03/87 (BRASIL, 1987) passa a permitir a formação em licenciatura e/ou bacharelado. Já as Resoluções 01 e 02 CNE de 2002 (BRASIL, 2002a; 2002b) estabelecem “[...] uma cisão pontual em relação às formações de licenciados e bacharéis em Educação Física e seus respectivos campos de atuação, escolar e extraescolar” (METZNER; CESANA; DRIGO, 2016, p. 748). No tocante a questão da saúde, ressaltamos a Resolução CNS 287/98 (BRASIL, 1998), que passa a considerar a Educação Física como integrante da área da saúde, e a Resolução 07/2004 (BRASIL, 2004) que vem a reforçar essa outra (METZNER; CESANA; DRIGO, 2016).

Diante de tais questões expostas até o momento, vemos que alguns estudos (METZNER; CESANA; DRIGO, 2016; OLIVEIRA; ANDRADE, 2016), ao abordarem a questão da formação em Educação Física para a área da saúde, acabam dando maior destaque em suas citações e referências a artigos publicados em periódicos exógenos à área. Surge, então, a necessidade de observar a lacuna que se vincula aos textos publicados em periódicos da área que tratem da relação da formação inicial para o campo da saúde.

Com esse pano de fundo, procuraram-se as demandas que emergem nos diálogos expressos nos textos, em que narrativas concorrem para a produção de políticas curriculares sobre qual o significado de saúde será alvo de esforços para a formação profissional em Educação Física. Orientamos o recorte neste momento sobre os artigos publicados em periódicos que apresentassem escopo vinculado à área da Educação Física. Nesse sentido, o presente capítulo tem como escopo investigar quais desafios sobre a formação em Educação Física para o campo da saúde são produzidos nos periódicos científicos dessa área.

Este capítulo se caracteriza pela conformação de uma revisão de literatura. Inspirados em Bracht et al. (2011), buscamos acessar os principais periódicos da Educação Física

brasileira. Porém, nossa procura se referenciou na formação profissional para a área da saúde23.

A seleção dos periódicos se deu a partir de três critérios: 1) ter classificação, segundo o sistema Qualis/CAPES (triênio 2010-201224), entre os estratos B2 à A1; 2) ser um periódico brasileiro;

3) apresentar escopo ligado à área da EF. Após aplicação desses critérios na Plataforma Sucupira25 obtivemos o número de oito periódicos apresentados no quadro a seguir.

Quadro 1 – Periódicos consultados (Estrato Qualis/CAPES para o triênio de 2010-2012)

Nome Abreviação Qualis/CAPES Estrato

01 Motriz: Revista de Educação Física Motriz A2

02 Movimento Movimento A2

03 Revista Brasileira de Ciências do Esporte RBCE B1

04 Revista Brasileira de Educação Física e Esporte26 RBEFE B1

05 Revista da Educação Física/UEM Revista da UEM B1

06 Pensar a Prática RPP B2

07 Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde RBAFS B2

08 Revista Brasileira de Ciência e Movimento RBCM B2

Fonte: Sítios online dos periódicos.

Durante o ano de 2015, os periódicos foram acessados em seus respectivos sítios online nos quais a busca ocorreu nos volumes e números disponíveis. O recorte temporal adotado foi entre os anos de 2005 a 2015, justificando-se pelo fato de ser um período em que os cursos de formação estão finalizando as adequações segundo as Resoluções CNE/CP 01 e 02/2002 e 02/2004 (BRASIL, 2002a; 2002b; 2004b). Metzner, Cesana e Drigo (2016) correlacionam esses acontecimentos com o aumento de produções acadêmicas na área relacionadas à discussão das

23 Não obstante à nossa opção metodológica, reconhecemos que existem artigos na temática pesquisada publicados em outros periódicos vinculados à área da Saúde Coletiva. Outra porção das publicações compreende o formato de livros. Entretanto, não comporão o corpus analítico deste trabalho, que tem como escopo dar visibilidade à produção veiculada em periódicos da área. Percebemos a necessidade de acessar tais textos em pesquisas posteriores.

24 Foi utilizado o estrato Qualis/CAPES deste triênio, pois era o que estava disponível no momento da consulta aos periódicos.

25 Link de acesso:

<https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/veiculoPublicacaoQualis/listaConsultaGeralPerio dicos.xhtml>.

26 Anteriormente denominada de Revista Paulista de Educação Física, da qual acessamos os números dos anos de 1996 a 2003.

Diretrizes Curriculares Nacionais em que os artigos por eles acessados indicaram uma ênfase na discussão do tema da saúde.

Dos oito periódicos acessados, não houve incidência de artigos na RPP, Revista da UEM, RBEFE e Movimento, levando-nos a excluí-las deste levantamento. Também foram eliminados os números (suplementos) das outras revistas que se referiam a Anais de congressos. A busca e seleção dos artigos que compõem o corpus analítico se deu manualmente a partir dos sumários (MARCONI; LAKATOS, 2010). Nesse sentido, acessamos número por número de cada revista. Utilizamos os descritores “saúde”, “formação” e “currículo” como elementos para a seleção. Ao realizarmos a leitura do título e do resumo, aplicávamos os descritores. O artigo era selecionado se apresentasse, pelo menos, a conjunção dos descritores da seguinte forma: 1) “formação” e “saúde”, ou 2) “currículo” e “saúde”, ou 3) “formação”, “currículo” e “saúde”. Artigos referentes à educação básica foram excluídos por não encontrarem abrigo na temática da revisão de literatura proposta (da formação superior para o campo da saúde). Após esse processo, chegamos ao número de 12 (doze) artigos relativos ao tema pesquisado assim distribuídos: Motriz (n=3); RBCE (n=2); RBAFS (n=6); RBCM (n=1). O próximo passo foi a leitura dos artigos na íntegra. Após a leitura, foi possível compor a análise de conteúdo a partir da construção de quadros de análise tomando como referência os argumentos dos artigos. Para essa análise, tomamos como conceito central o tema: “Esse comporta um feixe de relações e pode ser graficamente apresentado através de uma palavra, uma frase, um resumo” (MINAYO, 2015, p. 86).

Produzimos em três fases a análise de conteúdo (CAMPOS, 2004). Na primeira fase, realizamos a “leitura flutuante”, ou seja, a partir da leitura de todo o material nos integramos aos textos em busca de suas ideias globais. Na segunda fase, selecionamos as unidades de análise – nesse momento, a partir do nosso objetivo de observar os desafios da formação em EF para o campo da saúde, buscamos nos textos asserções que emitissem tais desafios. Operacionalizamos uma busca indutiva no material analisado, ou seja, deixamos que o próprio texto fosse nos mostrando seus contornos e delineamentos. Dessa atividade, surgiram seis unidades de análise: i) insuficiência da formação, ii) inclusão de novos componentes curriculares, iii) integração ensino serviço, iv) relação entre as temáticas corpo-saúde e lazer- saúde, v) humanização/ampliação da concepção do processo saúde doença, vi) diferenciação interna da área. Na terceira fase, procedemos o processo de categorização dessas unidades de análise a partir do “frequenciamento” e “relevância implícita” das mesmas nos artigos. Nesse

sentido, a unidade de análise “i” foi excluída por não apresentar frequência significativa nos artigos. Por outro lado, as unidades “ii” e “iii” e as “iv” e “v” foram agrupadas, pois apresentavam aproximações entre si. A unidade “vi” permaneceu sem agrupamento. Salientamos ainda que tal categorização seguiu a perspectiva “não apriorística”, uma vez que não aplicamos categorias previamente construídas.

Esse processo nos permitiu a constituição de três eixos temáticos (quadro 2): 1) da integração ensino-serviço; 2) da humanização/ampliação da concepção do processo saúde- doença; 3) da diferenciação interna na área. Esses eixos puderam ser validados a partir da “triangulação de teorias” apresentadas por trabalhos acadêmicos que se dedicam a tais temáticas (CAMPOS, 2004) – e na apresentação e discussão dos dados damos visibilidade a tal questão.

Quadro 2 – Ocorrência dos desafios nos artigos

Revistas Artigos 1 Desafios 2 3

Motriz

1 Pinheiro e Gomes (2011)

2 Chacon-Mikahil, Montangner e Madruga (2009)

3 Castro e Gonçalves (2009)