6. L’organisation des séquences d’explication
6.3 La clôture des séquences d’explication
Na fala dos entrevistados, ficou explícito que os pescadores vêm historicamente desenvolvendo em torno do seu trabalho outras atividades além da pesca relacionadas com o contexto político e social. O fato desses sujeitos se organizarem num movimento social reconhecido, como Colônia Z-16, demonstra a força política dos pescadores no Município de Cametá e na Região Tocantina (COSTA, 2006).
Além da Colônia Z-16, um movimento social formado por mais de nove mil pescadores, esses trabalhadores se articulam também em outras organizações ligadas à colônia, como associações, cooperativas, fábrica de gelo, laboratório de alevinos, cursos de computação, curso de alfabetização para os pescadores, cursos preparatórios para os filhos dos pescadores prestarem vestibular, entre outras atividades que os pescadores são envolvidos.
Em noventa e quatro, fundada a associação nós começamos a trabalhar, fomos ao banco, a gente reunia com o pessoal no interior. Isso aí terminou o primeiro mandato da associação ninguém conseguiu nada. [...] quando entrou em dois mil consegui o financiamento para quatorze projeto grande, um teto de quinze mil, [...] O projeto da fábrica, tudo isso foi da Colônia, só que ela não pode dirigir, foi fundada a cooperativa para dirigir a fábrica de gelo, tem a de palmito, que está terminando a construção. [...] tem um laboratório de alevinos, já esta até os peixes ai, que foram buscar lá em Porto de Mós, [...] tem uma rabudinha com motor para fazer viagem, o
lucro até em agosto tinha um salto de quinze mil. (P 3).
Essa fala demonstra que os pescadores não estão somente assegurados em sua atividade de pesca, mas possuem também uma vida política e social, buscando sempre alternativas para proporcionar melhores condições de sua existência.
A entidade dos pescadores Colonia Z-16, participa ainda do Conselho Municipal de desenvolvimento Rural Sustentável (CMDRS) com assento, voz e voto. Os camponeses destas ilhas mantêm também relações com as organizações não governamentais como o IDEAS e a APACC, além da já histórica relação com a Prelazia de Cametá, o que denotaria que estas comunidades tradicionais estariam desenvolvendo, no sentido de formação e crescimento de sua complexidade, construindo redes de interações sociais e políticas, aumentando seu capital social. (COSTA, 2006, p. 291).
Esse autor demonstra ainda que a Colônia Z-16 é uma organização da classe trabalhadora com poder político e social de maior relevância, entre os movimentos do Baixo Tocantins, conquista esta produto do esforço que os pescadores têm demonstrado em torno da organização de suas atividades. (BARRA e FURTADO, 2004).
Nesse sentido, temos a preocupação de analisar o processo de trabalho relacionado com a luta dos pescadores da Colônia Z-16, ao mesmo tempo, abordando o processo de educação desses sujeitos no contexto dessa relação, de modo que falar de trabalho no sentido de construir estratégias para garantir a sobrevivência torna-se fragmentado caso não se fale de educação.
A educação é, como outras, entre tantas outras invenções de sua cultura, em sua sociedade. Formas de educação que produzem e praticam, para que elas reproduzam, entre todos os que ensinam-e-aprendem, o saber que atravessa as palavras da tribo, os códigos sociais de conduta, as regras do trabalho, os segredos da arte ou da religião, do artesanato ou da tecnologia que qualquer povo precisa para reinventar, todos os dias, a vida do grupo e a de cada um de seus sujeitos, através de trocas que existem dentro do mundo social onde a própria educação habita, e desde onde ajuda a explicar – às vezes ocultar, às vezes a inculcar – de geração em geração, a necessidade da existência de sua ordem. (BRANDÃO, 1991, p. 10-11).
É essa concepção de educação é construída na luta desses trabalhadores como demonstram as falas dos pescadores entrevistados. Isso quer dizer que esses sujeitos se articulam de diversas formas para produzir mecanismos de sobrevivência, no sentido de assegurar um ambiente melhor no seu trabalho. Assim, os pescadores, historicamente, vêm se organizando política e socialmente para melhorar suas condições de vida.
Primeiro a nossa luta é para conseguir um laboratório. Seria que não fossem só um, para produzir alevinos, tambaqui, curimatá, o... (várias espécies de peixes). O laboratório para produzir, alevino, depois jogar no tanque, não jogar direto no rio, porque não adianta, então para jogar no rio já no tamanho dele, ou seja, ir para rio quando o peixe já sabe se defender, então se jogassem milhões de peixinhos n’água acho seria melhor, porque
quem via tambaqui nesse rio aqui hoje não vê mais. (P 4).
Nessa fala percebemos o quanto os pescadores se preocupam com o futuro porque eles estão refletindo, analisando e planejando diversas estratégias para garantir os produtos que asseguram sua subsistência É pensando nisso que os pescadores procuram se filiar na Colônia, tornando-se sujeitos preocupados não só com o presente, mas também com o futuro.
Além disso, ainda nas entrevistas ficou evidente que a colônia proporciona aos pescadores debates, estudos, participações em diversos eventos como conferências, reuniões,
palestras, entre outras atividades de cunho social de interesse dos pescadores. Esses conjuntos de atividades desenvolvidos pelos trabalhadores da pesca são ações que identificam a colônia como movimento social no contexto da Região Tocantina.
A percepção de interesses comuns, no cotidiano, nas condições mais imediatas de trabalho e vida, percepção produzida a partir de e na oposição com outros interesses, de outros agentes sociais, a identidade em torno dos interesses comuns, as ações coletivas de resistência, etc. são um conjunto de condições necessárias dos movimentos. Só assim a tensão entristeça ás relações vira movimento. (GRZYBOWSKI, 1987, p. 18).
A partir da participação dos pescadores nas diversas atividades que a colônia oferece, esses sujeitos, vão compreendendo, analisando a importância de esta inserido no debate político e social. Dessa forma, os pescadores desenvolvem-se pela educação, uma educação que para Marx surge da práxis político educativo, como bem sintetiza Sousa Junior.
[...] da práxis político-educativa desenvolvida nos diversos momentos associativos dos trabalhadores nos sindicatos, partidos, locais de moradias etc., quando os trabalhadores atuam política e coletivamente como classe social defendendo sua organização, sua autoeducação/ formação política como classe social potencialmente revolucionária. (SOUSA JUNIOR, 2010, p. 56.).
Para Grzybowski, (1987), as práticas dos movimentos educam para a participação social, e, dessa forma, criam estratégias de compreender o mundo em que os sujeitos estão inseridos, ampliando suas participações no mundo, ao buscar alianças com outros movimentos, com órgãos não governamentais. Costa (2006) inclusive frisa que a Colônia de Pescadores Z-16 tem-se articulados com diversas instituições no sentido de buscar recursos para os filiados.
Assim, os trabalhadores da colônia lutam para garantir sua existência, mas ao mesmo tempo constróem um espaço de educação, produto do acúmulo das experiências que aprendem a socializar a partir de suas práticas políticas no interior de seus movimentos. (GRZYBOWSKI, 1987). Dessa forma, os pescadores vão se educando na luta dos movimentos, constroem um saber que lhes possibilita integrar na sociedade. Esse mesmo autor destaca ainda em sua pesquisa com colonos no Sul do Brasil, como os trabalhadores aprendem a partir de sua organização, de sua luta.
Na luta, os colonos isolados têm condições de aprender a si unir em cima da sua comum situação econômica e social de colonos e elaborar o saber que lhes dá condições para se integrar organicamente. Através dos movimentos, os colonos desenvolvem praticamente sua capacidade de participação e
intervenção no cenário social e político e, por isto, produzem o “saber social” de suas possibilidades e limites como força social concreta face às outras forças sociais e o Estado. (GRZYBOWSKI, 1986, p. 57).
Assim como os colonos, os pescadores também desenvolvem mecanismo de aprendizagem, ou melhor, educam-se no movimento de suas próprias ações. É uma educação produzida nas relações sociais dos pescadores. Sousa Junior (2010) destaca que, para Marx, a educação não se desenvolve somente nas escolas, mas nas diversas atividades cotidianas, entre elas, no trabalho, na família, entre outros locais porque a educação compreende um todo articulado.
[...] o mais adequado mesmo é considerar a perspectiva marxiana de educação como uma totalidade complexa, composta de várias dimensões e momentos formativos indissociáveis [...] o fundamental é sempre a educação como processo amplo, construído no conjunto da sociabilidade, constituído de diversos elementos, multifacetado. (SOUSA, JUNIOR, 2010, p. 51).
A educação desenvolvida pelos trabalhadores da Colônia Z-16 acontece no processo de disputa social e política. A luta dos pescadores torna-se um espaço de educação, na medida em que se reúnem, debatem e participam dos diversos momentos de discussão, entre eles, congressos, seminários, conferências, entre outros, espaços que produzem um significativo acúmulo de saber social.
Em suma, os pescadores constroem seus saberes a partir de seus trabalhos, relacionados com um conjunto de elementos como a cultura, a história, a educação entre outros. O saber desses sujeitos é construído no contexto histórico de sua existência, desde a infância na convivência com a profissão, em que os pais labutam. Ao mesmo tempo, os pescadores da Colônia Z-16 reconhecem que sua realidade não garante um futuro decente para seus filhos, por isso, seus trabalhos estão voltados também para assegurar que seus filhos sejam escolarizados na escola, porque eles acreditam que a educação pode gerar melhorias de vida.