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Choix du nombre et type de pompe

Dans le document MÉMOIRE DE FIN D ÉTUDES (Page 79-0)

CHAPITRE VI : POMPES ET STATIONS DE POMPAGES

VI.9. C ALCULS HYDRAULIQUES

VI.9.2. Choix du nombre et type de pompe

Edilene Matos

Se a palavra do poeta converge para duas noções que se complementam – musa e memória –, é possível pensar as relações da memória com a palavra escrita ou a palavra falada/cantada. Mais ainda: é possível pensar a cultura a partir da memória, na medi- da em que na cultura se dá o seu prolongamento, a sua perpetuação.

A palavra escrita/falada/cantada foi o reino onde se instalou a exuberante me- mória do bardo Patativa de Assaré. Memória e expressão poética: feliz conjugação, a desse singular artista.

Sabemos todos nós que a palavra original é voz, é som. E a voz é a semente inaugu- ral de toda comunicação. Exemplo incomum de um comunicólogo nato, usando como instrumento de trabalho “o metal da fala”1, Patativa de Assaré exibia a força de seus

pulmões nos espaços onde oferecia ao público mais um poema de sua lavra. Hábil no ofício, Patativa exibia-se com um tom quase dramático na voz. A palavra saída da boca desse poeta era convincente. Patativa sabia da vibração de sua voz, voz como sopro de vida, como fruto de movimentos coreográfi cos e escultóricos do aparelho fonador. A voz de Patativa, viva na garganta, falava a linguagem do corpo.

Em Patativa, o corpo participava da ação de dizer, desde a variação dos pigarros e de tons da voz até a gesticulação corporal, que se manifestava nos movimentos das mãos, nos meneios da cabeça, na curvatura do tronco, na dança do corpo de um lado para outro, para frente, para trás, num vai-e-vem próprio da atuação performática.

Assim Patativa cantava seus poemas, sobretudo aqueles que suscitavam a curiosidade do ouvinte/leitor, confi ando no poder de seus versos e da performance para atrair a

freguesia. Comunicador espontâneo, procurava dar o melhor de si mesmo, entusiasmava-se com os risos e as observações dos passantes e se exibia com o vozeirão inconfundível, como se tivesse conhecimento da quinta tese desenvolvida pelo instigante pensador suíço Paul Zu- mthor a respeito da percepção e da presença na poesia dos caracteres físicos da voz. Diz Zu- mthor que a voz não é especular: “a voz não tem espelho. Narciso se vê na fonte. Se ele ouve sua voz, isto não é absolutamente um refl exo, mas a própria realidade” (1993, p.98). Sim, era a realidade de Patativa de Assaré o som de sua voz, a cadência de seus versos.

1 “No metal da fala” foi uma expressão usada pelo poeta João Martins de Athayde ao se referir à potência da voz dos poetas populares. Jerusa Pires Ferreira, em sua tese de doutorado, retoma essa expressão, utilizando-a inclusive no título de seu trabalho.

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A sedução da voz faz lembrar a deusa Peithó, poderosa divindade tanto em relação aos deuses quanto aos homens comuns, que dispõe dos “sortilégios de palavras de mel”. Peithó corresponde, no panteão grego, ao poder que a palavra exerce sobre o outro; domina a voz do comunicador e mora em seus lábios. Peithó se apresenta com duas faces: de um lado, é maléfi ca, fi lha do desregramento, sempre ao lado das palavras trai- çoeiras, instrumento de enganos e perfi diosas armadilhas; de outro lado, é a boa Peithó, benéfi ca, serena e conselheira, companheira dos sábios, dos juízes imparciais, dos reis e governantes justos. Patativa sabia disso. E usava da palavra como arma de luta.

A palavra de Patativa, dotada de grande poder, uma vez articulada, convertia-se em ação, fato, coisa viva, que nascia, crescia e se transformava. A palavra de Patativa repercutia no imaginário social e provocava certa euforia coletiva, infl uenciando até sonhos e desti- nos coletivos. O efeito encantatório de suas palavras cheias de apelo e sedução produziam vertigem auditiva, vertigem visual, e – por que não dizer? – uma espécie de cegamento, insinuando-se e penetrando nos ouvidos, ofuscando o olhar – transmissão de encantos pela boca, pelo ouvido e pelo olhar. O olhar de Patativa inspirava confi ança e respeito.

Seria Patativa do Assaré um personagem composto por Antônio Gonçalves da Silva para chamar a atenção do povo? Seria Patativa de Assaré esse personagem movido pelo desejo de se distinguir da multidão das praças públicas? Seria Patativa de Assaré essa outra voz que se quer fazer ouvir mesmo depois da boca fechada para sempre?

Fazia-se, sim, um mestre sem escolas ou agremiações, cujos ensinamentos se davam sempre de maneira espontânea, sem regras estabelecidas ou modelos pré-concebidos, no território livre do povo. Em constantes andanças, esse curioso viajeiro, dono assen- tado do território de Assaré, vislumbrava o mundo a partir de uma perspectiva de luta pela palavra, compondo um especial espaço, transformado e socialmente concretizado – mesmo que o fosse no plano do imaginário.

No conjunto de sua obra poética, Patativa faz alusões aos vários deslocamentos do sertanejo, que vagueia, em sua errância, na dimensão cambiante de toda mudança, por opostos espaços. O poeta se inventa, na invenção de signos que permeiam a voz e a le- tra. Patativa viajou no duplo sentido, real e interior, e, com sua fi na intuição de leitor e poeta, muito coletou e pesquisou para redescobrir um território sertanejo insuspeitado, recriado e redivivo nas tradições de seu povo. No confi denciar desse viajor, há a divisão entre a viagem real e a viagem da imaginação. Uma interfere na outra, possibilitando refl exões para a compreensão de sua opção estética e ideológica.

A especifi cidade do grande tema de sua produção pode ser considerada como ex- pressão de uma carência mais coletiva, porquanto o poeta assumiu a herança do geral que, através da linguagem, foi se individualizando, numa estreita ligação entre o indi- vidual e o coletivo. Tal procedimento revestiu-se de um poder que o tornou legítimo representante do sentimento comum, o que se traduz pela posse de cada um sobre aqui- lo que é também coletivo. Através dessa forma de expressão, o poeta anunciou os sen- timentos que animavam o povo. Pelo discurso da individualidade criadora de Patativa apareciam veias de sensibilidades coletivas. Sua poesia envolvia desejos coletivos, o que ocorria na sua voz de criador que se tornou emissor de um grupo não-dimensionado no

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âmbito restrito de sua voz, mas ressoando na amplidão de uma linguagem direcionada para atingir a coletividade. Pela linguagem, Patativa de Assaré mostrou ao mundo suas vivências, espelhando-se e dando-lhes reconhecimento.

Pela sua marca, impressa de forma indelével na memória dos poetas populares, dos cantadores/improvisadores, dos estudiosos da cultura e do próprio povo, como fi gura de proa, agitador, gritador, passador de notícias por excelência, Patativa, poeta popular de destacada produção, fi cou como um modelo, espécie de carro-chefe, espécie de caci- que das tribos dos artistas da letra e da voz.

Nesse tipo de manifestação poética na qual Patativa de Assaré exerceu seu virtuo- sismo, os momentos reiterantes da narrativa são traços marcantes do texto oral, que se mantêm mesmo quando a narrativa é impressa. Trata-se de narrativas supostamente fragmentadas, mas que, no entanto, formam um mosaico no seu todo, com constância de elementos de fundo e com certo dinamismo interno. Sobre essa questão, Jerusa Pires Ferreira acentua que “a matriz oral, o jogo de estruturas assentadas e em repetição for- mam uma espécie de modelo” (1995, p.52). Tais modelos são recriados com base na cir- culação de elementos textuais viajantes, nômades, que se combinam aqui e ali, fazendo surgir histórias sempre prontas a serem refeitas na infi nitude das leituras possíveis. Num complexo processo da boca ao ouvido e do ouvido à boca, ocorre o afastamento gradati- vo da matriz original. E a deformação da matriz original de uma história conhecida tem, a meu ver, um aspecto transgressor, que seduz pela novidade, oriunda da imaginação, essa forma de “audácia humana”.

E essa expressão poética, que circula nas ruas e é estudada em congressos, tornou-se, pela veia criativa desse poeta, inspiração nordestina, trazida de Assaré e mantida fos- se ou não posta em escrita no papel. Patativa sabia falar, argumentar, convencer, e era dotado de um rico vocabulário, além de ser grande conhecedor dos problemas de sua classe em todas as áreas de atuação. Tinha consciência do uso da voz do poeta popular. Voz que inquieta, que transmite verdades, que funda reinos fabulosos. Voz sempre em mutação, que se reelabora constantemente, que tece e retece os retalhos da tradição em formas novas e fi sionomias tão particulares. Voz cambiante, que dança ao compasso dos brincantes. Voz, palavra que Paul Zumthor (1993), por sua vez, preferiu usar, apontan- do para o caráter abstrato do termo oralidade e daquilo que se denomina literatura oral, preferindo, no caso, falar em vocalidade e em literaturas da voz.

A verdadeira palavra é a palavra falada. Sábia, Sheherazade entendia muito bem o poder do discurso vivo. Sábio, Patativa percebia o fascínio da palavra oralizada, porque é ela o principal meio de comunicação de histórias, narrativas, fatos, casos etc., ou seja, é ela, em verdade, a grande mediadora entre o homem (que conta/canta) e sua experiên- cia. É por isso que a literatura de expressão popular é ainda um gênero narrativo muito cultivado pelos poetas populares do Brasil, notadamente no Nordeste, onde a voz e o canto do povo ainda se fazem ouvir. Essa forma poética, que se situa entre a oralidade e a escritura, insere-se no que Paul Zumthor denomina oralidade mista, isto é, oralidade marcada pela coexistência de uma cultura escrita.

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mites rígidos. Sua fronteira é tênue, e a tensão oral/escrito se refl ete nos estilhaços desse seu duplo processar, numa instância em que não mais se reconhecem os traços originais de cada um deles, fundidos e confundidos no ponto de cruzamento das linguagens.

No caso da literatura de folhetos, um espaço importante na extensa produção po- ética de Patativa de Assaré, a infl uência da escrita dá-se de modo parcial, pois nela as marcas da oralidade se afi rmam, e a força da voz viva se impõe de modo indelével. No espaço cambiante da oralidade/escritura, distingue-se um movimento textual transgres- sor, uma vez que o texto escrito transgride o espaço da escritura, ultrapassa-o, sai dos limites do papel, move-se e aspira a se fazer voz. Ponto de intersecção entre a oralidade e a escritura, a literatura de folhetos permite que a cena oral não se restrinja à voz, mas, muito mais que isso, se insinue como corpo e gesto.

Daí o aspecto performático desse poeta que, com voz e gestos, fazia a coreografi a de suas narrativas. A voz do poeta, viva na garganta, presente e até vibrante no silêncio ruidoso de seus poemas, falava a linguagem do corpo. Voz é também corpo. E relembro mais uma vez Zumthor, quando se refere à gestualidade e à corporalidade dos textos poéticos medievais, textos esses, como os dos folhetos de cordel, acentuadamente decla- matórios e performáticos, onde predomina “a palavra gesticulada dos poetas [...], esse jogo cênico e verbal” (1993, p.45).

Em atuação performática, esse poeta de práticas poéticas a meio caminho entre a oralidade e a escritura, exibia-se em “declamação”. Nesses momentos de “declamação”, Patativa mostrava o efeito encantatório que as palavras por ele pronunciadas exerciam sobre seus leitores/ouvintes, um encanto transmitido pela palavra viva, grafada no papel e inscrita na voz.

Voz que saía dos livros de poemas ou dos folhetos de cordel, que, embora impres- sos, conservam ainda sua oralidade original, situando-se numa espécie de entrelugar, ou seja, no lugar onde se dá o “encontro da magia da voz com a artesania da letra” (Fonseca dos Santos, 1999, p. 14). Há troca de olhares furtivos, olhares de atração mútua: a voz e/ou a escrita sujeitas à sedução olhar. Essa leitura em voz alta, que se fazia nos terreiros das fazendas, ao pé da fogueira ou sob a luz quase-amarela dos candeeiros a gás, chega até nossos dias, invadindo inclusive as cidades. Leitura coletiva do poema impresso, que conserva as marcas da palavra oralizada em cada verso da sextilha (o tipo mais comum de estrofação), da décima, do alexandrino, dos galopes, martelos e mourões.

Sabia Patativa que sua obra poética era marcada por forte acento oral – rima, ritmo, repetições, musicalidade – nascido da e na oralidade, sua matriz e motivação, mas com trânsito no espaço letra/voz. Voz que, imersa no âmbito ilimitado e performático da linguagem oral, é puro presente, sem estampilha nem marcas temporais, sem mordaças, solta, livre e nômade, ao contrário da escritura que é fi nita, fi xa e sedentária. Andarilha por essência, a voz permite modulações e articulações variadas, integrante que é de um contexto movente, cambiante, no qual respiração, músculos e nervos continuamente se tensionam e distensionam.

Patativa usava o corpo todo de forma a conferir potência à palavra – pois nada exis- tia para esse poeta que não pudesse ser falado –; entrelaçava, assim, a linguagem verbal

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com a linguagem gestual, simbiose de palavra e gesto. Passador de casos, notícias, narra- tivas diversas, o poeta fez de sua voz sempre cheia de vibração um instrumento de comu- nicação. Confi ava ele na força dos pulmões, na voz natural, no poder de sua inusitada performance para atrair leitores/ouvintes.

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Referências

FERREIRA, Jerusa Pires. Fausto no Horizonte: razões míticas, texto oral, edições popu- lares. São Paulo: Educ, Hucitec, 1995.

FONSECA DOS SANTOS, Idelette Muzart. Em demanda da poética popular: Ariano Suassuna e o Movimento Armorial. Campinas: Editora Unicamp, 1999.

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