CHAPITRE VII :LE COUP DE BELIER
VII.3. M OYENS DE PROTECTION CONTRE LE COUP DE BELIER
VII.3.1. Les appareils les plus utilisées
Urge uma refl exão crítica sobre os termos patrimônio e homem, que nos vêm como algo “objetivo”, a ermo, como lugares desabitados e não consubstanciados de signifi ca- ções históricas, quando, na verdade, eles não são ingênuos nem inocentes, e falsifi cam e ocultam a verdade do processo histórico que permitiu impô-los com as signifi cações que eles têm hoje em dia.
A minha refl exão – a partir do depoimento-testemunho de um dos maiores poetas brasileiros, Patativa do Assaré, que ressalta em entrevista o caso da presença feminina na base da transmisão da cultura oral nordestina – questiona essa “verdade” patrimonial do homem como produtor e transmissor exclusivo do cordel.
A palavra patrimônio tem origem no vocábulo latim pater, que signifi ca “pai” e co- nota a autoridade paterna. Nesse sentido, ela vigora, ainda nesse virada de século, quase com o mesmo tom da Antiguidade romana, quando a esse homem era dado poder ab- soluto: “pater familias”. Ainda prevalece nas atitudes, na linguagem, nos discursos e nas instituições, inclusive as acadêmicas, o mesmo sentido androcêntrico dessa palavra, não só no seu sentido individual, como no sentido social: toda a herança cultural de uma sociedade foi dirigida e repassada pela autoridade masculina. É, aliás, a expressão Homo
sapiens, base da designação do ser humano como “humano”, que ilustra melhor ainda
essa noção da civilização como produto do gênio masculino, com exclusão da mulher, como o demonstrou Jonathan Culler no já referido capítulo de On Deconstruction, inti- tulado ‘Reading as a Woman’.
Quem for ler “como mulher”, no sentido que Culler dá a essa expressão, a evolução do termo patrimônio encontra na sua gênese coisas muito interessantes. O Dictionnaire
historique de la langue fr ançaise, de Robert, ensina que originalmente existiam, parale-
las, duas palavras para os bens legados depois da morte de uma pessoa, a saber: - Patrimônio, os bens legados pelo pai e dentro da linha paterna;
- Matrimônio, os bens legados pela mãe e dentro da linha materna, o que pressupõe, claro, outros regimes matrimoniais e de transmissão dos bens das famílias.
Com a instalação, no mundo ocidental, por volta do ano mil, de um novo e único modelo matrimonial, essas coisas começam a mudar. Essa revolução social é descrita por Georges Duby em Le Chevalier, la Femme et le Prêtre; nesse estudo, Duby mostra como vários tipos de casamento e de transmissão dos bens pré-existentes serão substitu- ídos por um único tipo de casamento, imposto por uma aliança dos nobres e da Igreja Católica (o cavalheiro e o padre). Esse novo tipo de casamento concentra os bens todos do casal nas mãos do pater familias; eles serão transmitidos de pai para fi lho como patri-
mônio. E assim que desaparece o matrimônio como bem da mãe, passado de mãe para
as fi lhas! E é assim que o termo matrimônio perde o seu sentido original para se tornar sinônimo de casamento! 3, o ato legal de unir um homem a uma mulher. E foi assim que
3 Seminário de Ria Lemaire, no Centre de Recherches Latino-Américaines da Universidade de Poitiers, mar./maio 2008
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o termo patrimônio passou a designar/denotar toda e qualquer ideia de bem material ou cultural passado de uma geração para a outra.
A esse sentido conceitual de “patrimônio” foi acrescentado no fi nal do século XX uma nova confi guração a partir da expressão generalizada pelo projeto da UNESCO do “patrimônio oral e imaterial da humanidade”, o que quer dizer: “as práticas, repre- sentações, expressões, conhecimentos e técnicas” (Revista Observatório, 2008, p.70,) transmitidas oralmente que as comunidades reconhecem como suas. Porém, quando nos deparamos com a declaração de Patativa do Assaré transmitindo a informação de que foi uma mulher a lhe ensinar os primeiros sons rítmicos que estariam na base da sua poética, nos defrontamos e desmascaramos imediatamente o signifi cado da palavra “patrimônio” no seu sentido etmológico e histórico. Não foi um “homem”, um chefe de família, a repassar os “bens” culturais de sua comunidade; foi uma mulher, cantadora, declamadora, cujo nome talvez jamais saberemos. A pintura e o título do quadro de Jan Steen, do século de ouro holandês, confi rmam essa possibilidade, como a história do romanceiro ibérico, transmitido, criado e recriado durante séculos pelas mulheres da Península, mas cantado na vida pública pelos homens e, por isso mesmo, atribuídos a poetas-autores masculinos (Santos, 2006). Como as cantigas de amigo paralelísticas da Idade Média, atribuídas aos grandes trovadores da época.
É precisamente nesse sentido que é necessário questionar a visão, as práticas e os métodos de “compreensão” e de “preservação” comumente associadas ao que se con- vencionou chamar de “patrimônio”. Os novos questionamentos elaborados tanto pelos estudos da oralidade e da sua transição para a escrita quanto pela crítica feminista nos permitem questionar cada vez mais o sentido e a prática convencional de “preservar”, quer dizer, armazenar todo um conhecimento sem refl exão crítica e com métodos e práticas que confi rmam e reforçam os preconceitos do discurso convencional.
Eles obrigam a repensar as noções de “patrimônio” e de “compreensão” em cujas origens está um pensamento excludente, patriarcal, que permitiu encobrir, por muitos séculos, a palavra e a produção das mulheres ao abrigo de uma ideologia do “matrimô- nio”, com o sentido único de “casamento”.
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Francisca Pereira dos Santos
Conclusão
A experiência narrada por Patativa do Assaré, porém, passa despercebida na histo- riografi a literária do cordel. Ninguém no mundo jamais iria supor ter sido uma mulher a primeira voz a “ler” ou cantar/declamar para um dos maiores poetas do Brasil, se não é o próprio a nos dizer, quase insistindo, numa resposta que nunca fora, no entanto, dada.
Patativa descreve o momento para se fazer registrar esse espetacular acontecimento, talvez não tão inusitado no seu contexto, mas que inaugura na vida do jovem aprendiz a sua trajetória de poeta. É importante ressaltar que essa informação, trazida pelo poeta, representa exatamente o oposto da visão contida na historiografi a do cordel, que sempre ocultou a presença das mulheres nesse campo. A pequena nota imposta por Patativa desfaz, por assim dizer, um nó historico, dando-nos uma dimensão presente e real da participação feminina, ao mostrar a mulher no cerne dessa tradição poética como me- diadora, cantadora e/ou “leitora” – no sentido de declamadora – de folhetos.
Trata-se, no entanto, de uma mulher que não sabemos quem é, quem foi, já que ela não consta nos livros. Ela talvez tenha sido uma das grandes cantadoras do seu tempo, vivendo entre fi ns do século XIX e início do XX, sem que saibamos de sua trajetória. Dessa mulher anônima não existem registros, a não ser essa breve passagem bem forte e bem explícita em que o poeta Patativa do Assaré a imortaliza como a sua iniciadora no mundo da cultura poética.
Nesse sentido é que, quando questionamos os discursos que excluíram as vozes femi- ninas do campo da poética da voz, há três constatações interessantes e talvez ainda hoje um pouco surpreendentes: a primeira é a de que, ao contrário do que comumente se dizia, elas, na realidade social e cultural do Nordeste, sempre cantaram, “leram” e produ- ziam sua poesia – mesmo não podendo publicá-la; a segunda é a de que os próprios poe- tas masculinos do Nordeste confi rmam essa realidade; e a mais surpreendente, a terceira, é a de que a sua ausência no universo do cordel, de fato, só se verifi ca no campo da histo- riografi a ofi cial desta narrativa, no dos estudos teóricos dos letrados que foram pesquisar o folheto e os seus poetas. Chegaram lá com os seus hábitos e conhecimentos da cultura da escrita e viram o que os seus pressupostos (e preconceitos) lhes permitiram ver.
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Referências
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servatório Itaú Cultural (OIC), São Paulo, n. 4, jan./mar. 2008.
CULLER, Jonathan. Reading as a woman. In: on deconstruction: theory and criticism aft er structuralism. New York: Cornell University Press, 1982.
LEMAIRE, Ria. Repensando a história literária. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (Org.). Tendências e Impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
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SANTOS, Alvanita Almeida. O canto das mulheres: entre bailar e trabalhar: relações de gênero e narrativas em narrativas orais (romance) Tese de doutorado. Salvador: UFBA, 2006.