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19 J. Chevaux qui battent du fer

Como pode ser percebido na exposição da teoria bakhtiniana de linguagem (e nas noções a ela relacionada) exposta até aqui, o foco da teoria não é dado à língua isolada (sistema linguístico), mas, sim, a comunicação verbal efetiva dentro de situações reais de comunicação com todas as implicações sócio-ideológicas e sócio- históricas que lhe é subjacente. O foco é dado à interação verbal.

Isso se dá porque, para os membros do Círculo, a linguagem só pode se efetivar através de situações enunciativas reais, que apenas se constituem na presença de dois ou mais sujeitos socialmente organizados. Assim, para Bakhtin/Volochinov (2006 [1929], p.125),

A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas lingüísticas nem pela enunciação monológica isolada, nem pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua (grifo nosso). Ou seja, desconsiderando o sistema como objeto de estudo da linguagem, Bakhtin/Volochinov (2006 [1929]) toma a interação verbal como ponto de partida, “realidade fundamental da língua”, que, na visão dele, é fruto da efetivação de enunciados, portanto, fruto da comunicação entre indivíduos socialmente organizados. Isso também reforça, mais uma vez, a escolha do enunciado como unidade mínima de compreensão da verdadeira natureza da linguagem

Vistas a essa importância conferida à interação verbal pelo Círculo, Silva e Almeida (2013), em estudo dessa noção bakhtiniana, em trabalho no qual se debruçam sobre a interação verbal, tomando-a como o objeto dessa teoria, explicam que

Esta dimensão social (da enunciação) está presente em todas as esferas e manifestações da atividade humana em relação ao outro, comportando o uso da língua, na dinâmica da responsividade e das relações dialógicas, que abrangem uma língua concreta, fundamentada na enunciação. (SILVA e ALMEIDA, 2013, p. 119)

O que as autoras sugerem é que a dimensão social, na visão dos estudiosos do Círculo, é algo que está intrinsecamente atrelada a qualquer uso da língua, não se podendo esquecer de que é essa dimensão que permite a dialogização e a

responsividade dos dizeres. Desse modo, segundo as autoras, este foco se justifica na interação verbal.

Ainda segundo as autoras, a enunciação é uma prática social, uma pratica de interação social pela linguagem, uma prática de relação entre sujeitos. Isso, nas palavras das autoras, tem implicações importantes para o entendimento da interação pela linguagem, pois, para elas

Por meio dessa relação (enunciação, tomada como relação social), interage- se com o outro, atua-se sobre ele, leva-o a aceitar o dito e a realizar o que se propõe. A partir desse propósito, procura-se, na posição de locutor, seleção de critérios e cuidados com a elaboração do discurso (2013, p. 119).

Com base no supradito pelas autoras, e também apoiados nos pensamentos do Círculo, podemos afirmar que a interação verbal se caracteriza como sendo de natureza essencialmente dialógica. Em uma situação de interação, nossas falas estão sempre povoadas por nossas intenções, orientações discursivas e pelos aspectos que constituem o contexto de produção que compõem nossos enunciados. No entanto, não são apenas esses aspectos que condicionam nossos enunciados. Essas, também, estão sempre dirigidas a um determinado interlocutor, a uma ou mais pessoas. Constantemente levamos em consideração o outro em nossos enunciados, suas reações, expressões, resposta; assim, o outro, como defende Volochinov (2013c [1930b]), é parte integrante do enunciado. O movimento contrário, do interlocutor para o locutor, também ocorre, já que no processo de interação o interlocutor nos é responsivo. Isso é o que caracteriza a natureza dialógica da linguagem, ou seja, o outro e os elementos contextuais estão sempre implicados naquilo que se fala e no como se fala (a discussão sobre os aspectos dialógicos da estrutura do anunciado será aprofundada na quinta parte do texto).

Esse modo de ver a interação verbal interfere diretamente na constituição dos sujeitos, pois, para Bakhtin/Volochinov (2006 [1929]), o sujeito se constitui na linguagem, por meio da interação verbal. Assim, Silva e Almeida (2013, p. 119) declaram que

(...) a interação verbal envolve dois ou mais sujeitos, que interagem por perguntas e respostas, mesmo sem a presença do outro, pois a pergunta ou a resposta podem ser constituídas por um só, ou seja, o diálogo de um sujeito consigo mesmo, já que o eu não existe sem o outro nem o outro sem o eu, tanto que o silêncio também vincula uma enunciação.

Fica claro, dessa forma, que a interação pressupõe sempre uma atitude responsiva ativa e se dá na relação constitutiva com o outro, já que o outro sempre está implicado no enunciado de qualquer indivíduo, mesmo que esse outro não seja um indivíduo real (VOLOCHINOV, 2013c [1930b], p. 157). Ou seja, a linguagem constitui-se numa relação eu-outro bem ampla, pois esse outro tanto se refere aos discursos, carregados de valores ideológicos, que constituem os fios dialógicos presentes na linguagem, quanto ao outro interlocutor, ou, no dizer do Volochínov (2013c [1930b], p. 169), ao público.

Bakhtin enfatiza também essa relação, pois, para ele, todos os valores da vida e da cultura estão dispostos em torno destes pontos do mundo real do ato realizado, ou seja, “[t]odos os valores e as relações espaço-temporais e de conteúdo-sentido tendem a estes momentos emotivo-volitivos centrais: eu, o outro, o eu-para-o-outro” (2010 [1919/20], p. 115). Assim, todo sujeito se constitui por meio, e na (já que, assim como o enunciado, é único em cada momento enunciativo) interação verbal, por meio desses momentos. De igual modo, os valores que estarão presentes nos enunciados desse sujeito serão fruto dos momentos que os constituem.

Assim sendo, as imagens que se constroem nos enunciados trazem marcas do sujeito que os enunciou e, também, reflexos e refrações do ambiente social no qual ocorre a interação verbal. Por isso, na subseção seguinte, adentramos a discussão de Bakhtin sobre a apropriação do discurso de outrem na constituição dos próprios discursos por sujeitos-enunciadores.