Traitement.—Le traitement est peu eflicace ; on peut tout au plus rendre le cheval capable de travailler au pas,
15. Pourriture de la fourchette (Thrush).—
ideológica da enunciação, convém fazer uma ressalva quanto ao uso dos termos “língua” e “linguagem”, já que estamos tratando da teoria de linguagem que emerge do Círculo de Bakhtin, grupo de estudiosos russos. Em russo não existem as duas palavras, língua e linguagem; ambas são contidas num mesmo lexema (язык). No entanto, usamos os dois termos no texto para nos referir a conceitos diferentes: a palavra língua se refere à parte sistêmica da linguagem; a palavra linguagem é tomada num sentido amplo, e é constituída a partir da união de questões extraverbais e sócio-ideológicas ao sistema linguístico; diz respeito direto à própria interação. Explicitados o sentido dos termos, continuemos a discussão.
A defesa da perspectiva sociológica dos estudos da linguagem por Bakhtin/Volochinov se deve ao fato de o estudioso entender que a linguagem verbal se materializa em palavras, mas essas “(...) são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios” (2006 [1929], p. 40). Portanto, a forma seria incapaz de encapsular todas essas relações de sentido e, assim, só a enunciação no seu todo é capaz de comportá-las. Convém, no entanto, advertir que, nessa perspectiva que toma a enunciação como
unidade da comunicação efetiva, as duas dimensões da enunciação (a verbal e a extraverbal) são consideradas.
Como apontado na seção anterior, a teoria bakhtiniana admite que a linguagem é exterior ao homem, ao mesmo tempo que o constitui, e, por isso, é social, guarda em si questões que dizem respeito sobre o sujeito, seu grupo social, a sociedade como um todo da qual o enunciador faz parte. Nesse sentido, considerando as duas partes referidas, o que está na língua, em Bakhtin (2011b [1920/30], p. 34), no ensaio O autor e o herói, é a ideia de que o homem estabelece uma relação com o mundo por meio da linguagem e que a ideologia do signo e a atividade psíquica estão em constante troca interior e exterior, ou seja, há apenas uma diferença de grau na relação língua/linguagem, conforme o autor. Não há uma importância primeira entre o que está na língua e os fenômenos da linguagem. O que há é uma relação indissolúvel entre o psiquismo, a ideologia e a própria enunciação.
Volochinov (2013b [1930a]), no ensaio Que é a linguagem?, mostra que há diferenças entre o material verbal e o material físico. O que está no plano físico (letras, formas) é diferente do plano do acontecimento da enunciação. Isso não significa dizer que estejam separados. É nesse sentido que o autor afirma que a palavra tem um significado, denota um objeto ou uma ação, um acontecimento ou uma experiência psíquica. Para Volochinov
(...) o escritor não trabalha com um material físico destituído de significado, mas com partes que já se encontram elaboradas, com elementos linguísticos preparados, com os quais pode construir uma totalidade somente se tem presente todas as regras e leis que não devem ser transgredidas quando da organização desse material verbal. (2013b [1930a], p. 133)
Os componentes da língua – sua estrutura sintática, morfológica, fonológica – estão nela para construir enunciados e estabelecer relação com cada momento da vida, diz o autor.
Logo, não é possível para estes autores (citados acima) pensar em língua sem pensar (n)as relações dialógicas da linguagem12. Língua e linguagem são atividades e acontecimentos em relação e, segundo Faraco (2006, p.64),
para haver relações dialógicas, é preciso que qualquer material linguístico (ou de qualquer outra materialidade semiótica) tenha entrado na esfera do discurso, tenha sido transformado num enunciado, tenha fixado a posição de um sujeito social. Só assim é possível responder (em sentido amplo e não
apenas empírico do termo), isto é, fazer réplicas ao dito, confrontar posições, dar acolhida fervorosa à palavra do outro, confirmá-la ou rejeitá-la, buscar- lhe um sentido profundo, ampliá-la. Em suma, estabelecer com a palavra de outrem relações de sentido de determinada espécie, isto é, relações que geram significação responsivamente a partir do encontro de posições avaliativas.
Volochinov (2013bc [1930ab]) reconhece a existência de elementos formadores do enunciado – incluindo a língua no seu sentido saussuriano. Para ele é impossível conceber o signo sem a relação com o outro. Assim, a linguagem é apontada como uma atividade subjetiva, criativa e nela estaria também o valor da alteridade13, considerando o discurso de outrem na constituição das significações e do próprio sujeito; o valor reflexivo que ela (a linguagem) tem de se voltar para dentro do sistema que a funda e amplia.
Essas múltiplas capacidades da linguagem não escapam às relações com o outro. Pois, para Bakhtin/Volochinov (2006 [1929], p.115)
toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém. Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Através da palavra, defino-me em relação ao outro, isto é, em última análise, em relação à coletividade. A palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se apóia sobre mim numa extremidade, na outra apóia-se sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor. O autor coloca, na palavra, o ambiente de definição de si mesmo em relação ao outro sem, no entanto, perder a noção do todo, da interação. A palavra seria o lugar comum das relações dialógicas, no processo que chamou de interação verbal, organizado pela expressão que remete ao outro, ao exterior. A reflexão aqui diz respeito à organização da fala: ela se dá no interior ou exterior? Essas são as questões postas pelo subjetivismo individualista e pelo objetivismo abstrato (apresentados/discutidos nas subseções anteriores) e, nesse sentido, o filósofo compreende que a atividade exterior é que permite as modelagens interiores, tornando-as mais estáveis.
No entender de Bakhtin/Volochinov, os movimentos dos estudos linguísticos até sua época colocavam, na língua, toda a realização da linguagem. Isso criou, então, uma falsa concepção de que a compreensão poderia estar no sistema e, portanto, seria monológica. Essa “maneira centrípeta” de tentar colocar a linguagem como
13 Na toria bakhtiniana, a alteridade é o processo de relação com o outro (sujeitos outros, discursos
homogênea se contrapõe, então, à visão de linguagem como interação. Para Bakhtin/Volochinov (2006 [1929], p. 127), a língua tem outra expressão: é uma abstração científica; constitui um processo de evolução ininterrupto pela interação; a criatividade da língua difere da criação artística. E é esta forma de ver a língua que faz com que Volochinov (2013c [1930b]), em A construção da enunciação, se debruce sobre a natureza social da linguagem, em questões sobre contexto imediato e as vozes da avaliação social presentes na organização do texto, elementos extraverbais como a entoação, a avaliação do auditório.
Volochinov (2013bc [1930ab]) vê, então, a linguagem como um conjunto de atividades sócio-interacionais acontecendo entre sujeitos históricos, socialmente organizados, atravessados por um processo ininterrupto de construção que é a língua. Nesta perspectiva, diríamos ainda que a linguagem é dialógica e a língua é, ao mesmo tempo, um fenômeno ideológico e psíquico voltado para a construção social da linguagem.
E, nesse modo de pensar, até a linguagem interior (formas do discurso interior) são, também, modeladas pelo exterior, pois, como defende Bakhtin/Volochinov (2006 [1929]), o discurso interior também é definido a partir de diálogos complexos com instâncias sociais. Para o autor,
Essas unidades do discurso interior, que poderiam ser chamadas impressões globais de enunciações, estão ligadas uma à outra, e sucedem-se uma à outra, não segundo as regras da lógica ou da gramática, mas segundo leis de convergência apreciativa (emocional), de concatenação de diálogos, etc... e numa estreita dependência das condições históricas da situação social e de todo o curso pragmático da existência (2006 [1929], p. 63).
Logo, pensar filosoficamente em língua e linguagem é pensar num acontecimento voltado para o outro, que se manifesta através de formas relativamente estáveis, constituídas por elementos verbais e extraverbais, os gêneros do discurso (BAKHTIN, 2011c [1952/53]), que inclusive mexem nas formas a depender da relação (responsividade, na verdade) entre os sujeitos.
O foco do estudo da linguagem, desse modo, recai sobre a interação verbal entre os sujeitos sócio-historicamente situados. Por esse motivo, acreditamos que seja necessário, na parte seguinte, fazer considerações sobre a interação verbal.