Além das entrevistas, também imagens e fotografias apresentadas pelas depoentes ou encontradas no exame dos acervos pessoais das entrevistadas, nos arquivos ou bibliotecas escolares e nos periódicos locais, serviram para emprestar destaque a fatos históricos registrados na pesquisa.
As imagens - fotografias, pinturas, mapas, filmes - caracterizam-se por documentarem, tanto as situações que figuram no registro visual, quanto a sua própria fatura como produto de relações sociais. A análise histórica de imagens convoca para a sua total compreensão a sociedade que a produziu e consumiu, que a imaginou e arquivou, que a vivenciou e esqueceu (MAUAD, 2015, p. 106).
O conjunto de imagens de uma determinada instituição ou de um grupo é reveladora do tempo e dos valores disseminados pelas trajetórias de pessoas que vivenciaram juntas certas experiências, no caso deste trabalho, um período escolar e profissional das professoras formadas em 1960, 1961 e 1962 e seu uso nas pesquisas históricas, em autores como Fabris (1998), Mauad (2015) e Kossoy (2003).
Neste sentido, também foi essencial atentar para a discussão e a crítica de Burke (2004), sobre o uso da imagem para a compreensão de épocas já vividas, como “indícios” históricos legítimos e dignos de uma análise minuciosa e apurada. Para o autor, a imagem emerge como um recurso na reconstrução do passado, mas é preciso ter o cuidado com as “armadilhas” que estas fontes visuais podem gerar.
O autor faz um alerta tentando expor que “as imagens são muitas vezes ambíguas ou polissêmicas” (BURKE, 2004, p. 234), auxiliando os pesquisadores históricos para os perigos com o uso das imagens como fonte.
Neste aspecto, cabe ressaltar que as fotografias são envolvidas por uma série de intenções não reveladas,
[...] deve-se levar em conta que, para analisar a significação da imagem, é importante reconhecer que esta se encontra permeada por uma série de construções e intencionalidades, especialmente no que tange a sua produção. Fotografias nascem de necessidades e de interesses. A sua produção está condicionada a seleções e escolhas. São grupos sociais ou pessoas determinadas que as requerem. (OLIVEIRA, 2012, p. 38).
No decorrer da realização da pesquisa e durante as visitas nas casas das entrevistadas, tive contato com imagens do tempo de normalistas e do início da profissão docente das professoras. Na visão de Souza (2001, p. 79), “As fotografias escolares constituem um gênero de fotografias muito difundido, a partir do início do século XX”.
Conforme já afirmei, um álbum de fotografias da depoente Lúcia Helena Brauner Machado, que estudou na Escola Normal São José, e um álbum da professora Heloísa Maksud Mecherefe, que fez o seu Curso Normal no Assis Brasil, foram disponibilizados para esta investigação.
Em ambos os álbuns, as professoras fazem uma seleção de imagens, organizadas em uma ordem cronológica dos acontecimentos, inserem datas nas páginas e, por vezes, são escritas de próprio punho algumas frases empregando títulos às fotografias expostas. Isso demonstra a escolha e o destaque a uma determinada imagem em detrimento de outra, o que denota que as imagens, assim como as memórias, também passam por um processo de seleção.
Acredito que a riqueza de detalhes e o cuidado com a guarda desses objetos demonstram o envolvimento das depoentes com as memórias, que são evocadas a cada página folheada e a cada imagem cuidadosamente narrada. Os sinais de emoção, como os embargos na fala ao explicar uma imagem, denotam a relevância da lembrança do tempo vivido.
Para Oliveira (2012), ao usar as imagens fotográficas como fonte de uma pesquisa, é necessário ficar atento para o que é revelado em seu conteúdo e o que se encontra oculto. Vejo em alguns textos sobre essa temática o destaque que é dado ao caráter de montagem e seleção da fonte iconográfica:
Na imagem, o mundo ganha bordas, limites impostos pela tecnologia da reprodução fotográfica. Logo, fotografia é reprodução e representação. Reprodução, pois a fotografia capta uma cena que é reproduzida; representação, porque tal cena é uma escolha e, dessa forma, relaciona-se a uma série de escolhas que levam ao seu resultado final (OLIVEIRA, 2012, p. 37).
Além desses álbuns descritos anteriormente, fotografias avulsas foram também disponibilizadas por outras entrevistadas. Para Mauad (2015), a imagem nos provoca tanto que confundimos as ações de ver e de pensar. Concordo com a autora, pois quando estamos diante de uma fotografia, postal ou até mesmo uma obra de arte, que são evocativas de uma forma de ser, nossa percepção fica aguçada, o que leva a uma contemplação emocional.
Ainda de acordo com a autora, a imagem não é isolada de seu tempo ou de seu contexto:
A compreensão de imagens requer um aprendizado cultural que, no limite, permite reconhecer em uma fotografia não a realidade em si mesma, mas a sua (re)apresentação. Tal operação, por mais simples que pareça, implicará num exercício de ver e reconhecer o que se vê por meio de operações conceituais: uma imagem bidimensional onde apareço, soprando as velinhas dos meus cinco anos é denominada fotografia. Tal aprendizado se processa num ambiente cultural historicamente determinado, seguindo regras de codificação definidas segundo as práticas sociais de produção de sentido (MAUAD, 2015, p. 84).
Cada imagem revela um contexto. Segundo Kossoy (2003, p. 74), “As fotografias, como todos os documentos, monumentos, e objetos produzidos pelo homem, têm atrás de si uma história”, e estas revelações das fontes iconográficas enriquecem a investigação dos fatos e suscitam as narrativas.
No mesmo caminho, as imagens também serviram de base para a contextualização de alguns acontecimentos importantes. O uso da fotografia, além de ilustrar, se torna significativo ao preservar a imagem intacta do acontecido e remontar a sociedade em determinada época e local, evocando a memória e provocando o processo de apropriação do passado.
Nessa linha, percebi que as professoras, durante as observações das fotografias, nas suas narrativas, pareciam se transportar para um tempo que não mais existia, a não ser nas suas memórias evocadas. A cada evocação, novos fatos passavam a fazer parte da entrevista, enriquecendo os relatos que ora fazem parte deste trabalho.
A imagem é uma provocadora de lembranças. Para Chaui (1999, p. 33), “olhar é, ao mesmo tempo, sair de si e trazer o mundo para dentro de si”. Através dos olhos, avaliam-se as imagens que estão diante de si, e por isso elas são capazes de fazer lembrar, mesmo que nesta memória possam existir as representações de um tempo passado.
Em Saturnino (2005), vê-se que a imagem pode ser uma grande auxiliar no processo de construção da memória, contribuindo nas pesquisas em História da Educação. No cruzamento com as narrativas e as escritas de si, as imagens merecem um papel de destaque, visto que aguçam a memória no momento da tomada dos depoimentos.
Assim, para esta pesquisa também foi realizada uma seleção de imagens, sendo levado em consideração o cruzamento desta fonte com as narrativas e também com a questão da revelação da cultura escolar de uma época e de determinado grupo social.
Entretanto, foi importante atentar para o alerta de Borges (2003). A autora ressalta que, apesar do que está oculto na “chamada câmera lúcida”, ainda assim existe uma aura de encantamento nas fontes fotográficas, que faz com que aquele que apresenta a imagem o faça de forma imaginética, imprimindo representações ao acontecido.
Com o intuito de desvendar o que se esconde na “câmera lúcida” (Borges, 2003), o diálogo com autores como Mignot (2001) e Michelon (2008) foi de suma importância durante o presente trabalho.
As autoras mencionam o caráter memorialístico das imagens e, em um contexto de História Oral, a fotografia torna-se um importante evocador de memória. Nesta pesquisa ela exerceu esse papel, aguçando e provocando as lembranças do passado, especialmente do tempo em que as egressas das Escolas Normais estudavam e do início das suas carreiras como docentes do magistério público estadual.
Caminhando para este processo de decifrar a realidade de um tempo vivido pelas professoras entrevistadas e tendo contato com os guardados e os arquivos de cada uma, além das fotografias uma outra fonte, com uma variedade de informações a serem analisadas, se apresentou: as escritas de si.