Em meados do segundo semestre de 2006 os oficineiros do “circuito cultural” iniciaram suas atividades em locais e espaços diferenciados, e passaram a ministrar
suas oficinas individualmente. Como o Programa define o local das oficinas41 eu, Vanessa fui encaminhada para o bairro Morumbi com a oficina de teatro.
Realizei uma parceria com uma Escola Municipal de educação infantil para obter um espaço para os ensaios e passei a divulgar com cartazes. Iniciei a oficina com 05 jovens de idades variadas entre 12 e 21 anos, sendo que 02 eram remanescentes do circuito cultural. Esse número de participantes me preocupava, pois era fator determinante para a continuidade da oficina no Programa.
Identifiquei que o local era inapropriado para a oficina, pois não tinha circulação do público com a faixa etária de participação no Programa, e os poucos presentes tinham frequência irregular que inviabilizava o deslanchar da prática teatral e desestimulava outros jovens a participar.
A estratégia empregada foi de mudar o local da oficina. Iniciei uma nova parceria no espaço da Escola Municipal de ensino fundamental (1ª ao 9ª ano) “Hilda Leão Carneiro”, centralizada no ‘coração’ do bairro Morumbi. Essa instituição traz em seu histórico diversas parcerias com projetos pedagógicos e sociais extra-turnos. A escola é palco de festividades, encontros para uma grande parcela da comunidade local, além de estar localizada próxima a outras instituições sociais, o que fazia com que o local fosse movimentado por moradores da comunidade.
Percebi, observando os jovens, que a melhor estratégia para divulgação era através do ‘boca a boca’, pois era assim que eles se comunicavam divulgando eventos de seus interesses. Como estratégia para atrair os jovens, propus-me divulgar a oficina nas escolas apresentando uma cena curta42 de sala em sala. Como resultado dessa estratégia, em agosto de 2006 tínhamos em média 20 integrantes do bairro Morumbi, estudantes e não estudantes da escola.
No bairro Morumbi finquei raízes de 2006 a 2011, ano que saí do Programa Fica Vivo!. A oficina, por uma série de fatores ocorreu em vários locais da periferia da Zona Leste, e sempre em dois locais diferentes, com a divisão da carga horária 41Como a área de atuação de Programa Fica Vivo! é extensa, as oficinas são implantadas seguindo uma distribuição logística entre os bairros e também segundo a demanda apresentada pelos jovens. 42Eu, Vanessa, realizei uma performance no horário de recreio das escolas municipais e estaduais no bairro Morumbi. Na performance estava portando um grande guarda-chuva preto, e também canetas coloridas e papéis. Dirigia-me ao público no recreio solicitando uma mensagem para alguém que estivesse no mesmo recinto, a regra colocada e que não daria recados sobre brigas ou difamações. Aproximei-me primeiramente das garotas e elas me colocaram em contato com os garotos. As mensagens foram lidas e dançadas com improvisações na entrega. Depois do intervalo me dirigi para as salas de aula e conversávamos sobre a performance e aproveitava para convidá-los para oficina de teatro.
em torno de três horas em cada local, dividido em dois encontros semanais.
De modo geral acompanhei o adolescer de muitos jovens, segundo as inscrições e análise dos relatórios mensais entregues ao Programa, em média 350 jovens participaram da oficina de teatro, por um período de pelo menos três meses. Entre idas e vindas, alguns voltaram e outros não.
A oficina de teatro também foi desenvolvida em mais três bairros da zona Leste, Alvorada, Dom Almir e posteriormente São Francisco. O primeiro desdobramento foi iniciado em 2007 no bairro Alvorada e foi uma iniciativa de um grupo de adolescentes solicitar a equipe técnica do Programa Fica Vivo! a oficina de teatro no seu bairro.
Essa situação ocorreu de maneira curiosa, durante o evento Programa Fica Vivo no bairro Morumbi, adolescentes e jovens do bairro Alvorada assistiram a peça “A Gata Borralheira do Morumbi” e depois da atividade de prolongamento, através da conversa dos atores com a plateia, os jovens do bairro Alvorada verbalizaram o desejo de também terem oficina de teatro. Assim, em março de 2007 eu estava dividindo a carga horária da oficina em dois espaços de encontro nos bairros Morumbi e Alvorada. A oficina no bairro Alvorada teve duração de dois anos na Associação de bairro Alvorada, até o ano de 2009.
No ano de 2009, durante evento do Programa no bairro Dom Almir, após apresentação de um exercício de improvisação43 essa situação se repetiu, pois um grupo de jovens da plateia após apreciarem e alguns participarem da atividade interativa, solicitou a oficina de teatro no seu bairro ao Programa. Então no primeiro semestre iniciei a oficina de teatro no Dom Almir no espaço de uma ONG chamada Art´Con. Devido a degradação deste espaço físico, ainda em 2009 a ONG Art´Con mudou para o bairro São Francisco, que fica a poucas quadras do bairro Dom Almir. Como a maioria dos jovens eram moradores do bairro São Francisco não tive empecilho de mudar o espaço da oficina de teatro para o outro bairro. Iniciamos as atividades em maio de 2009 até agosto de 2011.
O protocolo abaixo foi criado no da minha despedida com os jovens do bairro São Francisco.
43Neste exercício teatral os atores tinham marcado uma trajetória espacial, com diferentes planos e velocidades. Eu, Vanessa, estava com a personagem “drogada” e apresentamos situações dos estágios do vício. No segundo momento cada ator escolheu um objeto e então chamamos para o palco pessoas da plateia de acordo, divididos em grupos de acordo com o objeto. E cada grupo contextualizou o objeto numa situação. Nesta ocasião, além de jovens, participaram também crianças e adultos, em torno de 20 pessoas.
1-Protocolo de despedida - 2011
Em todos esses anos propus ações de intercâmbio entre as turmas do teatro dos diferentes bairros. Tive muitos problemas com brigas, desistência da oficina, e alguns casos que devido ao envolvimento dos integrantes com a criminalidade dificultava esse trânsito entre os bairros. Havia também o agravante preconceito quanto a classe social entre os integrantes, pois o bairro Alvorada apresenta um status econômico maior que o bairro Morumbi, que por sua vez tem um status econômico maior que o Bairro São Francisco. No geral as ações foram realizadas. Entre alguns a convivência tornou-se harmônica, com outros não.
Proporcionar o trânsito de jovens nesta região, ou seja, entre os bairros citados é algo de difícil execução. Pois existem fronteiras simbólicas que organizam o fluxo entre eles. É raro ter um que conviva entre os bairros. São “microterritórios de poder, repressão, e controle onde a cena primordial são as tramas juvenis” (DIÓGENES, 2008, p.141). Essa situação mereceu cuidado e atenção.