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CHAPTER 8 LL\CCEPTL4.NCE TESTING
A capacidade do ser humano de ficar maravilhado com todas as possibilidades que surgem de novos desafios permite avanços significativos na resolução de problemas ou mesmo na descoberta de novos caminhos para situações bastante distintas. Na filosofia é que encontramos o estado de se maravilhar, com todos os sentidos e possibilidades que o mundo possui, levando o homem ao ponto de buscar compreender tudo o que a natureza permitir como oportunidades entre o nascer e o pôr do sol e a desenvolver teorias sobre isso.
Mas a maravilha diante da qual se espantava era o espetáculo do mundo, da natureza, especialmente dos céus, onde se exibia uma ordem perfeita, imutável e inexplicável. Resultava deste estado de coisas a necessidade de descobrir a causa que o teria engendrado. (PINTO, 2005, p. 30)
Neste cenário, o homem acaba por se colocar como um pensador pelo simples fato de se sentir maravilhado. Nesse pensar, no buscar o novo, inicia um longo percurso na busca de respostas a situações meramente impostas e talvez nunca questionadas. A busca do novo passa pela descoberta, pela provocação do conhecer, possibilidade de levar o ser humano à inovação. Ao recordarmos Platão [s.d.] em sua obra A República, sobre o Mito da Caverna, o descobrir passa pela necessidade de libertação de amarras que impedem a compreensão do que ocorre além das sombras. Transpondo essa alegoria e voltando à questão do “maravilhar-se”, surge o princípio de toda e qualquer inovação realizada pelo homem: o olhar além. Álvaro Vieira Pinto, em sua obra O conceito de tecnologia (2005),24 retrata essa situação de forma bastante clara e
atual. Para ele,
24 Obra escrita em 1973, porém encontrada em meio ao espólio do autor muitos anos mais tarde e publicada em
o que distingue o maravilhar-se atual do antigo é que agora o homem se maravilha não diante da natureza, mas diante de suas próprias obras. A concepção generalizada, e por mil modos expressa, segundo a qual nos encontramos em uma era de inédita grandiosidade, pois jamais o homem realizou tão triunfalmente seu domínio sobre as formas naturais e criou artefatos tão espantosos, conheceu tão profundamente os segredos dos processos naturais, tudo isso assegurando-lhe condições surpreendentes de conforto, segurança e dominação, esta concepção reedita o velho estado de espanto e maravilha, mas agora em face dos tempos que nos são dados. (PINTO, 2005, p. 35)
O domínio sobre o fogo e seu uso para cozinhar, derreter o ferro e criar o aço, ou ser simplesmente o resultado da fissão nuclear, demonstram que ao imaginar e buscar a compreensão dos fatos que estão ao seu redor, o homem criou meios, ou melhor, tecnologias que permitissem sua permanência longeva em lugares e embasassem seus avanços na necessidade de atender a novos anseios ao romper barreiras, não importando a área de conhecimento.
Contudo, é importante que todas as possibilidades de aplicação de tecnologia tenham por finalidade vigorar para uma sociedade em que a tekhne, o saber, possa ser compartilhado e possibilite um trânsito entre o passado e o presente (PINTO, 2005) de forma que permita avanços substanciais ao ter fundamentos sociais como aplicação. Claro que esse domínio da técnica pode resultar em dominação social e econômica – basta observarmos o período de guerras, quando grande parte dos investimentos em ciência e tecnologia foi canalizada para o desenvolvimento bélico, logístico ou mesmo medicinal, como princípio de domínio e vitória.
Em contrapartida, as reaplicações de tecnologias acabam por ser o caminho natural de outras revoluções vividas ao longo dos tempos. Vale lembrar que o acesso à informação se tornou amplo e rápido após as tecnologias da informação e comunicação encontrarem na Arpanet25 uma possibilidade de transmissão segura e ampla de informações numa rede
conectada em diversos pontos. Esse domínio sobre a transmissão de informações é um exemplo real do sentido da tecnologia e seu perfil utilitário na questão da dialética relação social do indivíduo.
Importante é compreender que há um fundamento social para toda e qualquer tecnologia desenvolvida e disponível na sociedade.
[...] numa perspectiva global faz-se mister interpretar o papel da tecnologia pelo ângulo da função que exerce no ambiente social onde é criação ou no qual opera. Corresponde isto a colocar em primeiro plano a influência histórica, o que importa em mostrar, antes de tudo, sua essencial historicidade. Não devemos cair no erro de reconhecer a historicidade da técnica apenas no sentido abstrato. Se assim fizermos, não abandonaremos o plano formal. Para compreendermos a verdadeira historicidade da técnica é preciso entendê-la no aspecto dialético, enquanto unidade de conteúdo e forma, o que, no caso, vem ser a unidade do saber, dos procedimentos e métodos que
25 Arpanet foi uma rede de comunicação criptografada que permitia ao governo norte-americano, ainda nos anos
1960, trocar informações entre suas bases militares armazenando e transmitindo, por meio de uma rede segura,
constituem a “técnica” de uma época. Tal unidade define sempre um dado da história do processo produtivo pelo qual os homens conquistam e inventam os bens exigidos, mas que ao mesmo tempo só podem fazer em relação à reciprocidade com a sociedade onde se encontram. (PINTO, 2005, p. 283)
Essa reciprocidade social permite fundamentar que a tecnologia é algo indelével nas questões diárias. Ela se expande e transcende até mesmo os objetivos preliminares aos quais foi destinada.
O fundamento social, que desde logo transparece na criação da tecnologia, verifica-se com a plena exatidão quando se refere ao fato de que os fins de quem se abalança a criar as técnicas não se reduzem às intenções ou motivos particulares. Têm de ser mediatizados pelas relações sociais do indivíduo com o meio social. A tecnologia de cada grupo humano em determinada fase histórica reflete as exigências sociais sentidas pelos indivíduos em geral [...] (PINTO, 2005, p. 284)
É justamente nessa possibilidade de mediatizar a tecnologia que as formas de comunicação e informação têm, nas técnicas, meios de se aculturar e difundir novos conhecimentos. Nessa busca do novo, a capacidade de ampliar conhecimentos, dar autonomia e possibilitar novas ramificações é um ciclo que tem justamente na técnica “projetos, esquemas imaginários, implicações sociais e culturais bastante variados” (LÉVY, 1999, p. 23) que refletem as exigências sociais quanto ao acesso.
O novo modo de se maravilhar do homem na atualidade ultrapassa muito a situação do elemento tecnológico em que está envolvido, pois, passado um período de adaptação, a tecnologia é incorporada ao cotidiano e deixa de ser algo novo. Assim, seria possível indicar que a maior exigência social na atualidade seja o alcance do conhecimento para permanecer a buscar inovações. Ao mesmo tempo, porém, permitir que tal acesso ao conhecimento seja amplo é levar a pedagogia a se apropriar dessas tecnologias e a se reinventar objetivando estender sua condição de motor do desenvolvimento.