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Chapitre II : Techniques expérimentales

2.1 Techniques de caractérisation

2.1.1 Caractérisation structurale

“it is precisely the desperate situation which fills me with hope”

in Carta de Marx a Ruge (1843)

David Harvey (2005: 58) refere “que Marx (1973: 224-5) afirmou no decorrer do seu trabalho que a tendência histórica do capitalismo é destruir e absorver modos não- capitalistas de produção, ao mesmo tempo que os utiliza para criar um novo espaço para a acumulação de capital”. Deste modo, mesmo os espaços mais elásticos que ainda não foram absorvidos pela hegemonia correm esse risco. A crescente despolitização dos cidadãos segue paralelamente à crescente privatização da esfera pública, diz-nos Sennett (1974), pelo que não é de estranhar o afastamento relativamente à política e aos interesses coletivos. “Estamos frente a un nuevo fenómeno que va más allá del desencanto y la desconfianza mutua entre los

91 ciudadanos y el poder y tiene que ver con el planeta entero. Lo que está ocurriendo es una transformación radical de las categorias con las que nos acostumbramos a pensar la política. El nuevo orden del poder mundial se basa en un modelo de gobernabilidad que se define como democrático, pero que no tiene nada que ver con lo que este término significaba en Atenas. Y este modelo es que, desde el punto de vista del poder, más económico y funcional se demuestra por el hecho de que también fue adoptado por los regímenes que hasta hace pocos años eran dictaduras. Es más sencillo de manipular las mentes de la gente a través de los medios de comunicación, de la televisión, y el deber de imponeren cada ocasión sus propiás decisiones com violencia. La política como forma conocida por nosotros —el Estado-nación, la soberanía, la participación democrática, los partidos políticos, el derecho internacional—ha llegado al final de su historia. Estos conceptos continúan viviendo como formas vacías, pero la política tiene hoy una "economía", es decir, un gobierno de las cosas y los seres humanos. La tarea que tenemos ante nosotros radica por lo tanto en el pensamiento. Lo que hasta entonces había definido el término, hoy es muy poco claro el significado de ‘vida política’”, diz-nos Agamben (2012: s/p).

As transformações das relações de produção e, consequentemente, das relações sociais, tiveram um visível efeito na forma como os movimentos sociais se organizam na cidade pós-industrial. Se, na cidade industrial, a força dos sindicatos e a mobilização colectiva ligada às condições de trabalho eram uma evidência, na cidade pós-industrial a realidade é outra. Por um lado, o aumento do individualismo e as suas consequências ao nível da identidade e da mobilização colectiva dificultam a sua existência ou a possibilidade de ação. Por outro lado, a desconfiança nas formas institucionais de representação por parte dos indivíduos é também um fator importante. Um outro lado ainda: a pertença social passou a definir-se mais pelo consumo e modo de vida do que pela relação laboral.

Estes dois (ou três) fatores fazem com que os indivíduos se distanciem progressivamente dos processos de decisão. Isto tem-se traduzido, por exemplo, na elevada abstenção nas eleições ou na baixa filiação em partidos políticos e no geral desinteresse pela política. Neste contexto, Alfama et al. (2004) identificam até uma “certa crise de legitimidade do sistema democrático geral”. Perante esta evidência e a

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importância do sistema neoliberal no modo de governar, Touraine (1998: 18) refere que “governar um país consiste hoje sobretudo em tornar a sua organização económica e social compatível com as exigências do sistema económico internacional, enquanto as normas sociais enfraquecem e as instituições se tornam cada vez mais modestas, libertando um espaço crescente para a vida privada e as organizações voluntárias. Como poderemos falar ainda de cidadania e de democracia representativa, quando os eleitos olham para o mercado mundial e os eleitores para a sua vida privada?”.

Os movimentos sociais atuais, ou os “novos movimentos sociais” como alguns autores (Touraine, 1998; Santos, 2002) os denominam assentam em características diferentes dos movimentos sociais da cidade industrial. O efémero, o heterogéneo, o problema concreto e imediato ou o local são algumas das suas principais características. Muitos dos novos movimentos sociais, organizados em plataformas ou organizações de cidadãos, aparecem de uma forma espontânea perante uma situação de tensão concreta e dissolvem-se logo que a questão esteja resolvida, não prolongando a sua existência no tempo. Estes novos movimentos dirigem-se diretamente à esfera pública, mediante diferentes formas de protesto, contestando o que consideram ser prejudicial para eles e para o território que habitam (Gallach, 2006). Touraine (1994: 289) refere que “um movimento social não é uma corrente de opinião, uma vez que põe em causa uma relação de poder que se inscreve muito concretamente nas instituições e nas organizações”. O autor (1998: 128) faz ainda referência ao fato do movimento social ser mais do “que um grupo ou um instrumento de pressão política; ele põe em causa o modo de utilização social de recursos e de modelos culturais”. Para Touraine (1994: 285), os movimentos sociais produzem-se perante a proximidade de interesses dos indivíduos, que no seu entender terão sempre dimensões de conflito social e de projeto cultural.

Apesar das diferentes atitudes, comportamentos, modos de vida ou conteúdos verifica-se uma continuidade entre antigos e novos movimentos sociais: defende-se “o local contra o global, a previsibilidade da vida profissional contra a flexibilidade do emprego, a diversidade das criações culturais contra a produção hipercentralizada da cultura de massa” (Touraine, 2009: 176). Esta ligação entre antigos e novos

93 movimentos sociais coloca a descoberto espaços de resistência, carregados de conflito e de esperança e de possibilidade de mudança. “The struggle that has broken out- that of the People versus the Party of Wall Street- is crucial to our collective future. The struggle is global as well as local in nature. (…) It includes the indignados in Spain, the striking workers in Greece, the militant opposition emerging all around the world, from London to Durban, Buenos Aires, Shenzhen, and Mumbai. The brutal dominions of big capital and sheer money power are everywhere on the defensive. Whose side will each of us, as individuals, come down on? Which street will we occupy? Only time will tell. But what we do know is that the time is now. The system is not only broken and exposed, but incapable of any response other than repression. So we, the people, have no option but to struggle for the collective right to decide how that system shall be reconstructed, and in whose image. The Party of Wall Street has had its day, and has failed miserably. The construction of an alternative on its ruins is both an opportunity and an inescapable obligation that none of us can or would ever want to avoid” (Harvey, 2012: 164).

É numa sociedade mais aberta e livre que “os movimentos sociais podem surgir com maior espontaneidade e não encontram tanta oposição por parte do aparelho do Estado” (Fernandes, 1993: 796). É num espaço mais elástico que os coletivos se tornam mais fortes apesar das suas diferenças endógenas:“Lo característico es que la unidad, aunque se constituyó gracias al conflicto y a los fines de éste, persiste más allá del conflicto, aunando otros interesses y otras energias relacionales que ya nada tienen que ver com el conflicto inicial. En este sentido, el conflicto activa una relación latente, propicia la unidad: es la causa antes que el fin de los procesos de unificación interna” (Simmel, 2010: 76).

Esta unidade interna estende-se globalmente. Nos últimos tempos, isso tem sido notório em diversos protestos convocados a nível global: “the rapidity and volatility with which massive protest movements have risen and fallen over the last few decades calls for some commentary. In addition to the global anti-war demonstration of 2003 and the rise and fall of the immigrant workers' rights movement in the United States in 2006, there are innumerable examples of the erratic track and uneven geographical expression of oppositional movements; they include the rapidity with which the

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revolts in the French suburbs in 2005 and the revolutionary bursts in much of Latin America, from Argentina in 2001-02 to Bolivia in 2000-05, were controlled and reabsorbed intodominant capitalist practices. Will the populist protests of the

indignados throughout southern Europe in 2011, and the more recent Occupy Wall

Street movement, have staying power? Understanding the politics and revolutionary potential of such movements is a serious challenge. The fluctuating history and fortunes of the anti- or alternative globalization movement since the late 1990s also suggests that we are in a very particular and perhaps radically different phase of anti- capitalist struggle.” (Harvey, 2012:119).

Os atuais movimentos sociais têm sido um importante produto da apropriação e do uso do espaço público, enquanto lugar de democracia, cidadania, liberdade, heterogeneidade e pensamento crítico e coletivo. Os questionamentos impulsionados pelos diferentes movimentos sociais têm, mesmo que muitas vezes de forma ténue, aberto lugar a novos espaços de cidadania e de transformação sócio-espacial.

A CRIAÇÃO ARTÍSTICA NA