Chapitre II : Techniques expérimentales
2.1 Techniques de caractérisation
2.1.4 Caractérisation par faisceaux d’ions
ESPAÇOS NA CIDADE]
Segundo o modelo neoliberal de produzir cidade após os anos 1980, a homogeneidade dos espaços, a sua a-conflitualidade e superficialidade tornaram-se objetivos constantes e comuns a atingir por muitas cidades, como já foi discutido anteriormente. Assumindo a complexidade da cidade contemporânea modelada à luz de princípios neoliberais viu-se que esta pode assentar em, pelo menos, dois sistemas: um sistema rígido, onde situações de tensão podem desencadear forma violentas de conflito e preocupações desproporcionadas com a insegurança e o medo; e um sistema mais elástico, onde se encontram espaços com ‘fronteiras livres’, onde o conflito se expressa aberta e diretamente, surgindo como detonador de inovação sócio-espacial, de transformação social e de mudança. Este último espaço referido vai ao encontro da visão assumida por Sorel (1950) que refere que o conflito social evita o endurecimento do sistema social e força a existência de inovação e de criatividade.
O conceito de inovação esteve durante muitos anos associado ao domínio da tecnologia. Contudo, nos últimos anos, o conceito tem-se difundido e é atualmente utilizado em diversos domínios, abarcando também uma perspetiva social. Fontan, Klein e Tremblay (2005: 39), argumentam que existe uma forte relação entre sociabilidade, território e mercado no surgimento e na implantação da inovação. Os autores (idem: 40) partem, assim, do pressuposto de que a inovação é “uma construção social com múltiplas fases e faces inter-relacionadas”, que “ostenta a marca das tensões” e que contextos de conflito são essenciais para a sua existência. Para Frank Moulaert et al. (2005: 1973) a inovação social é um conceito abrangente, que aponta para um processo multidimensional de mudança social e que só pode ser compreendido à luz do seu contexto histórico e geográfico. Para este autor, a inovação social é uma ação coletiva, que se opõe a uma ação individual, e centra-se no processo e não na dimensão do produto da inovação. No debate realizado no âmbito do projeto
107 SINGOCOM3 são apontadas três dimensões da inovação social: i) dimensão produto- satisfação das necessidades humanas; ii) dimensão processo- mudanças nas relações sociais, particularmente ao nível da governança e do aumento do nível de participação, especialmente dos grupos desfavorecidos; e iii) dimensão empowerment: aumento da capacidade sócio-política e do acesso aos recursos necessários para reforçar os direitos de satisfação das necessidades humanas e de participação. Para André e Abreu (2006: 123) a inovação social é “um processo que se desenvolve fora do mercado e frequentemente também sem a intervenção direta do Estado e que visa prioritariamente a inclusão social”. Na mesma linha, referem que “a ideia mais recorrente na bibliografia é que a inovação social emerge fora das instituições e frequentemente contra elas, sendo o resultado de uma mobilização em torno de um objetivo, protagonizada informalmente por um movimento social ou, com uma matriz mais estruturada, por uma organização. Ou seja, é um produto da sociedade civil ou um resultado da pressão da sociedade civil”. Há, assim, uma componente de resistência, de inconformismo e de ‘confronto’ neste processo.
A este respeito, é aqui importante realçar o conceito de inovação sócio-espacial analisado por Malheiros (2001: 88). Para este autor, a “inovação social local corresponde, em sentido lato, à emergência e difusão de novos valores e práticas culturais e sociais que são progressivamente adoptadas pelos indivíduos e pelas instituições. Após um período de marginalidade e reduzida aceitação social devido à não conformidade com as normas e os valores dominantes, o processo de difusão da inovação é despoletado e as novas práticas e valores generalizam-se e substituem (ou complementam) os já existentes. (...) Esta ideia de inovação social que, por um lado, valoriza o seu efeito no processo de transformação da sociedade e, por outro, remete para as influências recíprocas entre inovação e contexto societal deve ser enriquecida com a incorporação da ideia de contexto espacial de inovação” (2001: 88).
Retomando o conceito de inovação social que ocorre através de movimentos sociais, André e Abreu (2006: 124) entendem “a inovação social como uma resposta nova e socialmente reconhecida que visa e gera mudança social, ligando simultaneamente
3 Projeto financiado pela Comissão Europeia no âmbito do 5º Programa Quadro e coordenado por Frank
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três atributos: 1) satisfação das necessidades humanas não satisfeitas por via do mercado; 2) promoção da inclusão social; e 3) capacitação dos agentes ou atores sujeitos, potencial ou efectivamente, a processos de exclusão/ marginalização social, desencadeando, por essa via, um mudança, mais ou menos intensa, das relações de poder”. Com base nestes três atributos, é necessário introduzir outra dimensão na análise, o espaço. Interessa, nesta abordagem, encontrar espaços que tenham atributos onde o conflito gerador ou consequência de inovação social se pode desencadear. Será que os espaços criativos e artísticos têm estas características? ou já estão dentro de mecanismos de mercado que os tornam rígidos e não permitem a inovação social? Será que são apenas espaços das elites esclarecidas que se enquadram dentro dos novos gentrifiers do centro da cidade? Ou são espaços que pelo seu carácter identitário e contextual desenvolvem outras possibilidades de mudança?
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3. A RESISTÊNCIA ATIVA E TRANSFORMADORA
O êxito de uma luta só reside na própria luta, nas vibrações, nos abraços, nas aberturas que deu aos homens no momento em que se levou a cabo, e que compõem em si um monumento sempre em devir, como esses túmulos aos que cada novo viajante acrescenta uma pedra. A vitória de uma luta é imanente, e consiste nos novos laços que instaura entre os homens, ainda que estes não durem mais que a sua matéria em fusão e muito rapidamente dêem passo à divisão, à traição.
Deleuze-Guattari, 1991
Em tempos difíceis, manter a esperança não é tolice romântica. (…) O futuro é uma sucessão infinita de tempos presentes, e viver no presente da forma que achamos mais correta, desafiando a maldade que nos rodeia, é por si só uma maravilhosa vitória.
Howard Zinn, 2007
Não basta falar de desobediência, de resistência ou de revolução sem procurar os processos e práticas que dão sentido a essa realidade desejada. “La ciudad futura solo
se puede imaginar a partir de la ciudad presente, de sus tendencias y contradicciones, de las resistencias al cambio y de las ideas y actores emergentes. La ciudad de hoy nos anuncia la ciudad de mañana.” (Borja, 2011). Jordi Borja (2011) considera que estamos
a viver uma ‘nova revolução urbana’, iniciada nos últimos 25 anos do século XX, e que acenta em 5 tipos de revoluções diferentes: 1) “Una revolución tecnológica vinculada a
la emergencia de la sociedad informacional y de los impactos sobre el territorio debidos a los nuevos medios de información y comunicación”; 2) “Una revolución económica producida por la globalización y por el carácter dominante del capitalismo financiero”;
3) “Una revolución espacial por el tipo de desarrollo urbano extensivo y fragmentado,
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anteriormente”; 4) “Una revolución socio-cultural por la multiplicación de colectivos humanos muy heterogéneos y por una individualización de los comportamientos”; e 5)
“Una frustrada revolución política por la inadecuación entre los territorios como
espacios socio-económicos y los territorios institucionales”. Saltam, assim, à vista
inúmeras contradições na forma como a cidade se produz e transforma, colocando em causa a cidadania tradicional associada a uma cidade com direitos e ao direito à cidade.
Harvey (2011) congratula-se com o facto de existirem, contudo, “vários vislumbres de esperança e luz pelo mundo. O movimento dos Indignados em Espanha e na Grécia, os impulsos revolucionários na América Latina, os movimento de camponeses na Ásia, estão a começar a ver através do vasto scan que o capitalismo predatório e selvagem está a desencadear no mundo. O que será necessário para o resto de nós ver e agir sobre ele? Como podemos começar tudo de novo? Que direção deveremos tomar? As respostas não são fáceis. Mas uma coisa podemos dar como certa: só podemos dar as respostas certas fazendo as perguntas certas”.
Estes espaços estão dentro da cidade de que se tem vindo a falar até aqui? É uma cidade que se pretende homogénea, privada, securitária. É uma cidade que desmobiliza ou reprime conflitos e onde prevalece o individualismo. No entanto, sabe- se que dentro desta cidade existem espaços de diversidade, de confiança, e de esperança como nos diz David Harvey (2000). São espaços de resistência. São espaços que funcionam de um modo diferente da ordem estabelecida, espaços de uma nova ordem social.
Saskia Sassen (2009) refere a possibilidade da existência de outros espaços numa cidade que é cada vez mais complexa, especialmente se falamos de cidades globais. A autora (idem) fala de uma zona fronteiriça para onde converge uma enorme mescla de gente: “aquellos que no tienen poder, aquellos en desvantaja, los forasteiros, las minorias discriminadas pueden obtener participación en este tipo de espacios, participación en el poder y participación en su próprio grupo. A mi parecer, estos signos representan la posibilidad de un nuevo tipo de política centrada en nuevos tipos de atores políticos. No se trata simplesmente de tener poder o no. Existen nuevas
111 bases híbridas desde las cuales actuar. (…) es un trabajo de creación pública que puede producir narrativas contestatárias, haciéndolo mas comprensible para los entes locales ya la masa silenciosa”.
Pellejero (2010: 154) diz-nos que “Deleuze não acalenta ideais de um futuro na história onde possa realizar-se uma expressão coletiva e duradoura de uma vida livre, igualitária ou justa, mas não deixa de apostar nos efeitos ‘libertadores’ de explosões puras de desejo. Passa, deste modo, da revolução como fim da história, à revolução como linha de transformação, isto é, à afirmação da resistência, em detrimento da revolução concebida como o advento irreversível e radical de uma sociedade finalmente totalizada, não dividida, reconciliada. Uma lógica do acontecimento efémero, imprevisível, neutro (événement), substitui, deste modo, a dialética totalizante, determinista e teleológica do advento (avènement) (...): ‘é um devir- revolucionário, sem futuro de revolução’4, ‘uma bifurcação, um desvio em relação às leis, um estado instável que abre um novo campo de possíveis’5(...) É uma questão de vida, que passa no interior dos indivíduos como na espessura de uma sociedade, criando novas relações como o corpo, o tempo, a sexualidade, o meio, a cultura, o trabalho; mudanças que ‘não esperam pela revolução, nem a prefiguram, ainda que sejam revolucionários por sua conta: têm em si uma força de contestação própria da vida poética’6 (isto é, deslocando o desejo ou reorganizando a vida, tornam inúteis os dispositivos do saber e do poder que sirvam para canalizá-los).” E continua (idem: 156) dizendo que “evidentemente, as linhas de fuga não são necessariamente revolucionárias em si (...) e, evidentemente, estas micro-revoluções não conduzem automaticamente a uma revolução social capaz de dar à luz uma sociedade, uma economia e uma cultura liberadas dos dispositivos de saber-poder próprios do capitalismo” mas que é “a multiplicidade do possível, a abundância dos possíveis em cada momento” (Deleuze, 2003: 183-184) que cria espaços de liberdade, “pequenas estratégias de torção do poder, conquista de formas individuais e coletivas de subjetividade, invenção de novas formas de vida” (Pellejero, 2010: 156), redefinindo o espaço das lutas políticas e sociais do marxismo clássico.
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Deleuze-Parnet (1995), L’Abécédaire de Gilles Deleuze (Gcomme Gauche), Canal Arte: Paris.
5 Deleuze, G. (2003), Deux régimes de fous, Minuit: Paris. 6 Deleuze, G. (2002), L’île désert et autres textes, Minuit: Paris.
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As micro-revoluções fazem-se sentir em diferentes intervenções artísticas no espaço da cidade. Alex Loftus (s/d: 1) refere que as intervenções artísticas urbanas procuram “desafiar las maneras por las cuales se moldean, experimentan y se viven las ciudades en cada momento contemporâneo. Mediante el desarollo de proyectos artísticos en espacios públicos, ellas tratan de enfocar la atención en los poderosos intereses y las relaciones sociales específicas que hacen de las ciudades lo que son. Nos invitan a explorar formas alternativas de organizar las relaciones y de producir el espacio”. O autor considera que estas intervenções artísticas têm, muitas vezes, como ponto de partida convidar à democratização, fazendo emergir uma participação democrática e abrindo espaço para um conjunto de vozes dissonantes: “la necesidad de esta democratización es mostrada como más presionante en las intervenciones mismas, dado el aumento de la vigilancia, la mercantilización del espacio a través del aburguesamiento y, por sobre todo, a través de constelaciones de poderosos intereses que buscan asegurar que las personas se comporten de ciertas maneras en las ciudades” (Loftus, s/d: 10). As intervenções artísticas “invitan a las personas a participar en la creación de las ciudades de una manera que no esté basada en la realización de utilidades sino en principios democráticos diretos” (idem) e podem desenvolver-se enquanto ferramentas metodológicas e estratégias políticas num desafio “a nuestros entendimentos de la producción de espacio” (ibidem: 12). O autor dá como exemplo a City Mine(d), considerando que esta tem como objetivo “volver a barajar” as relações de poder na cidade. Ao falar, por exemplo, do projeto ‘Ping Pong’7 (integrado na City Mine(d)), Alex Loftus refere que “lo que en la superfície pareciera ser una invitación banal para que las personas escriban mensajes en pelotas de ping pong, es realmente un proceso que conduce a nuevas formas de comunicación, nuevas formas de relacionarse entre una comunidad específica y, potencialmente, una
7 “The Ping Pong Project is a public arts project proposed to take place in North Wembley (London) in
the Spring of 2006. The Ping Pong Project is taking place in Brent in March.(…) Residents and visitors to the area will share their ideas, opinions and creativity by writing or drawing on ping pong balls, then posting these into the network of clear plastic tubes, which will cover an area of 1 sq. mile. (…)The Ping Pong Project is an opportunity for people to meet and (re-)discover their area, to express themselves, to exchange ideas, and perhaps to build some lasting connections”. http://www.pingpongproject.org/
113 geografia más humanizadora. El resultado del proyecto de ping pong depende de cómo las personas busquen transformar la red ellos mismos” (s/d: 10).
Figura 9 | Ping Pong Project
Os espaços artísticos estão desde há muito tempo associados a uma consciência política de transformação e de crítica à ordem estabelecida. Diferentes projetos chamam a atenção para o potencial político e para contextos sociais e urbanos diversificados, criticando o modo hegemónico de produzir a cidade. Pretendem desviar-se da leitura homogénea dos mecanismos de apropriação do espaço, acentuando as particularidades de cada contexto e estimulando o diálogo entre diferentes perspetivas. Estes espaços têm intrínsecas linguagens e ideias que tornam
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visíveis comportamentos e práticas invisíveis, colocando em evidência relações sociais que se manifestam de diferentes formas.