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O reduzido número de actividades experimentais de ciências em sala de aula, é uma realidade amplamente conhecida e que os dados deste estudo vêm corroborar, mesmo para o caso de professoras que reconhecem a importância do ensino das ciências no 1º CEB e que até tiveram uma boa formação inicial em Didáctica das Ciências (pelo menos consideram que se sentem motivadas e preparadas para o ensino das ciências e o relato das suas práticas leva-nos a pensar que sim).

Quais as medidas necessárias para alterarmos esta situação? As professoras entrevistadas avançaram com algumas sugestões que consideram ser fundamentais para que a educação em ciências no 1ºCEB, passa a ser cada vez mais uma realidade, nomeadamente:

a) Formação inicial e continuada adequada às novas exigências educativas na área da Didáctica das Ciências

As professoras alertam para a necessidade de um maior investimento na área das ciências na formação inicial. Duas das professoras principiantes implicadas no estudo sentiram essa ausência na sua própria formação inicial e revelam, consequentemente, dificuldades em promover actividades de educação em ciências com os seus alunos.

O excerto de discurso da professora Lara, que abaixo transcrevemos, evidencia claramente a necessidade de formação dos professores na área das ciências, bem como a angústia que sentem por não saber muito bem o que fazer para ultrapassar as suas necessidades.

...novos métodos, novas maneiras se calhar de abordar determinados temas que eu isso se calhar não tenho (…) porque as coisas estão sempre a evoluir (…) algo prático, com coisas que me ajudassem no dia a dia e que fossem interessantes para os miúdos, porque muita das vezes eu tenho… eu não sou doida, eu tenho a noção que estou a dar uma determinada matéria e que os miúdos não estão… aquilo não os está a motivar nada (...) fica-se assim um bocadinho frustrado e fica-se a pensar onde é que eu hei-de ir, o que é que eu hei-de consultar para tentar dar a volta a isto. (P22)

É também reivindicado propostas de formação contínua que respondam às necessidades práticas das professoras no sentido de as capacitar com saberes e instrumentos que permitam fazer face às novas orientações da Didáctica das Ciências.

b) Existência de laboratório de ciências nas escolas do 1º CEB

A criação de espaços físicos apropriados para as actividades práticas de ciências nas escolas do 1º CEB, apetrechados com recursos didácticos e respectivas orientações de exploração para alunos e professores, foi outra necessidade identificada.

Consideramos que estes espaços são realmente importantes, até para garantir as condições de segurança durante o desenvolvimento das actividades, contudo por si só não resolvem a situação da educação das ciências nos primeiros anos de escolaridade. É fundamental um investimento efectivo na formação dos professores.

c) Concepção de centros de recursos locais para professores com uma valência de apoio educativo-pedagógico dada por profissionais

Outra proposta apresentada pelas professoras da amostra foi a criação de centros de recursos específicos para professores, onde estariam disponíveis recursos bibliográficos diversos (ex. revistas de divulgação científica, monografias de estudos na área da educação), recursos multimédia, acesso à Internet, kits didácticos, entre outros.

Esses centros deveriam ter recursos humanos especializados qualificados para poderem dar apoio científico e pedagógico aos professores. Pois tal como podemos constatar através das palavras da professora Lara, os recursos por si só não são suficientes.

(...) também não me interessa ter um kit se depois não sei trabalhar com ele, não é? Se me dão um kit, mas eu não sei trabalhar com ele, o que é que eu faço ao kit? Deixo-o ficar quietinho dentro da caixa. (Lara, P47)

d) Bibliografia sobre o ensino experimental das ciências nos primeiros anos de escolaridade

A bibliografia existente, com propostas de actividades experimentais para crianças, apresentam as actividades de forma avulsa sem um enquadramento das mesmas, quer no plano conceptual, quer no plano do desenvolvimento curricular. Foi já largamente referida

a precariedade dos manuais escolares neste domínio e acrescenta-se agora a escassez e fragilidade de recursos alternativos.

e) Valorização da área das ciências no 1º CEB e no currículo de formação dos próprios professores

Como já referimos aquando da apresentação da fundamentação teórica do presente estudo (capítulo1), o Currículo Nacional do Ensino Básico é congruentes com as finalidades internacionalmente definidas para a Educação em Ciências e advoga explicitamente a importância da educação científica e tecnológica.

“O papel da Ciência e da Tecnologia no nosso dia-a-dia exige uma população com conhecimento e compreensão suficientes para entender e seguir debates sobre temas científicos e tecnológicos e envolver-se em questões que estes temas colocam, quer para eles como indivíduos, quer para a sociedade como um todo” (ME/DEB, 2001, p.129)

Apesar disto, a verdade é que, pais, professores e a própria sociedade em geral, na prática, desvalorizam a aprendizagem das ciências em favor da Língua Materna e da Matemática, em particular no 1º CEB. As próprias provas de aferição que se fazem no final do 1ºCEB, incidem somente nessas duas áreas disciplinas (Língua Portuguesa e Matemática). Esta desvalorização das ciências tem vindo a ser alertada por diversos estudos, e os indicadores do presente estudo, também apontam nesse sentido. Aliás, uma das professoras menciona mesmo que era necessário haver uma valorização da área disciplinar de Estudo do Meio, para que os próprios professores também passem a atribuir-lhe mais importância. Ela própria revela um discurso confuso e contraditório, quando pretende “defender” a importância que atribui ao ensino das ciências.

Eu não atribuo pouca importância, aliás acho que… é a disciplina que lhes permite, se calhar até que… um dia tenham gosto pela investigação (…) Mas acho que também é muito

importante se calhar as pessoas até se interessariam mais, a começar pelos professores. (Lara, P34)

Eu acho que é importante eu estou a falar a nível da importância que se lhe dá, a nível de… sei lá…da transição de ano até e da transição de ciclo. (Lara, P35)

Por outro lado, é também necessário valorizar a educação em ciências nos cursos de formação de professores do 1º CEB.

A própria candidatura aos cursos da Licenciatura em Ensino Básico – 1º Ciclo, não exige nenhuma componente científica. A maioria dos alunos deste curso provêm das Humanidades, tendo tido formação em ciências apenas até ao 9º ano de escolaridade (e não vamos aqui discutir a qualidade dessa formação!).

Além disto, durante os planos curriculares das disciplinas dos cursos são efectuados pelos próprios docentes, que muitas vezes não estão sensíveis à realidade anteriormente descrita, nem conhecem a realidade escolar do nível de ensino que os alunos, futuros professores, vão leccionar.

Assim, é-lhes dada, mais uma vez, uma série de conceitos de forma descontextualizada, ensinando-se ciência e tecnologia à margem da sociedade e pedindo-lhes depois para ensinar às crianças uma ciência em contextos CTS. O que não é, de todo, possível.

Para se ensinar ciências é preciso saber ciências, é preciso saber como ensinar ciências e é preciso gostar de ciências. Um professor que não seja um verdadeiro entusiasta pela educação em ciências, dificilmente, conseguirá despoletar nos seus alunos o interesse, o gosto e a importância da ciência e da tecnologia para a qualidade de vida da Humanidade.

Isto é ainda mais preocupante no Ensino Básico, pois, nesta fase a educação em ciências corresponde a uma preparação inicial que visa, essencialmente: despertar os alunos para a ciência; despoletar sentimentos de admiração, confiança, entusiasmo e interesse pela ciência; aguçar a curiosidade sobre o mundo e sobre o impacte da ciência neste; desenvolver “uma compreensão geral e alargada das ideias importantes e das estruturas explicativas da Ciência, bem como dos procedimentos da investigação científica, de modo a sentir confiança na abordagem de questões científicas e tecnológicas.” (ME/DEB, 2001, p.129)

É então fundamental repensar os planos de estudo dos cursos de formação de professores do 1º CEB. É igualmente fundamental que as estratégias de ensino das ciências nos cursos de formação sejam coerentes com o que as orientações de Educação em Ciências, actualmente, preconizam. Pretender que os professores nas suas escolas promovam actividades de ensino com orientações CTS, que criem recursos didácticos adequados aos seus alunos e realidade envolvente, que desenvolvam actividades práticas experimentais, … sem que na sua formação inicial tenham vivenciado experiências de aprendizagem similares, é sem dúvida, uma ilusão.