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b Calcul de la structure de bande

Chapitre IV Modélisation des cristaux phononiques

IV.1. b Calcul de la structure de bande

Nesta subseção, vamos explicar mais detalhadamente o mecanismo de concordância proposto por Chomsky (2000, 2001), focando no aspecto da eliminação de traços-φ e do traço-EPP, uma vez que utilizaremos o sistema de Agree para explicar as relações de concordância que se estabelecem nas sentenças com predicados depictivos. Como foi dito anteriormente, o mecanismo de concordância envolve a hipótese de que itens lexicais entram na derivação com traços formais interpretáveis e não-interpretáveis. Para que ocorra a convergência da derivação, os traços não-interpretáveis devem ser eliminados, diferentemente dos traços interpretáveis, que podem ser lidos em LF. O conjunto de traços de concordância é identificado como um conjunto de traços-φ, que são interpretáveis para a categoria dos nomes (N), e não-intepretáveis para categorias funcionais que concordam com os nominais, como T e v.

Como enunciado em (4), a operação Agree estabelece uma relação (de concordância, checagem) entre um item lexical α e um traço F em seu domínio (Chomsky,

17 No original: “Given HP = [α [H β]], take β to be the domain of H and α (...) to be its edge. (...)” (Chomsky,

2000: 108); “The domain of H is not accessible to operations outside of HP; only H and its edge are accessible to such operations” (Chomsky, 2001: 13).

Capítulo 3 — Construções depictivas: concordância e esboço de derivação

166 2000: 101), resultando no apagamento de traços não-interpretáveis. Foi dito também que, nessa relação, um conjunto de traços-φ não-interpretáveis é tomado como uma sonda (probe), que procura um alvo (goal), que é um conjunto de traços “compatíveis” (matching features) com os quais a sonda pode estabelecer concordância (Chomsky, 2000: 122). Os traços-φ do alvo são interpretáveis. Seguindo essa lógica, em uma relação de concordância entre T e um DP ou entre v e um DP, os traços-φ não-interpretáveis das categorias funcionais T e v são as sondas, enquanto os traços-φ interpretáveis do DP (traços de gênero, número e pessoa) que se relaciona com alguma dessas sondas são o alvo.

Chomsky (2000: 122) afirma que matching é uma relação entre uma sonda e um alvo. No entanto, conforme o autor, nem todo par compatível leva à ocorrência de Agree: para que haja Agree, é necessário que um alvo esteja no domínio (D(P)) de uma sonda (P) e que sejam satisfeitas condições de localidade (Chomsky, 2000: 122). Dessa forma, o autor assume os seguintes pressupostos para o sistema sonda-alvo, isto é, as condições para que ocorra Agree e consequente apagamento de traços não-interpretáveis:

(7) CONDIÇÕES PARA O SISTEMA SONDA-ALVO

a. Matching é identidade de traços. b. D(P) é a irmão de P.

c. Localidade se reduz a “c-comando mais próximo”.

(Chomsky, 2000: 122) 18

Pela definição apresentada, estar no domínio de uma sonda significa ser c- comandado por ela. Portanto, uma sonda não pode se relacionar com um alvo que esteja “acima” dela, ou seja, fora do seu espaço de c-comando, limitando-se a “olhar para baixo” para procurar um alvo compatível. Além das condições expostas acima, é necessário que o alvo e sonda estejam ativos para que a operação de Agree possa acontecer (Chomsky, 2001: 6). Essa exigência pode ser chamada de Condição de Atividade. Segundo Chomsky (2000: 123), são os traços não-interpretáveis que servem para implementar operações; logo, são traços não-interpretáveis da sonda e do alvo que os tornarão ativos e que devem ser eliminados sob Agree (cf. Chomsky, 2001: 6). No caso do alvo, em uma relação-A, estar ativo significa possuir um traço não-interpretável de Caso estrutural (não valorado).

18 Tradução de “Matching is feature identity. / D(P) is the sister of P. / Locality reduces to ‘closest c-

Capítulo 3 — Construções depictivas: concordância e esboço de derivação

167 Quando esse traço é valorado/checado, o alvo (no caso, o elemento nominal) não pode mais entrar em relações de concordância e fica “congelado em seu lugar” (frozen in place) (Chomsky, 2000: 123). Consequentemente, um alvo inativo também não pode satisfazer um traço EPP de uma categoria em uma posição mais alta, porque não pode se mover (Chomsky 2000: 123). Para a sonda, nesse tipo de relação, estar ativo significa ter um conjunto de traços-φ não-interpretáveis (não-valorados) (Chomsky, 2001: 6).

Como dito anteriormente, o traço de Caso do alvo é apagado/valorado como consequência da relação de concordância que se estabelece entre sonda e alvo, se houver

matching de traços-φ. Também foi dito que o valor atribuído ao traço de Caso depende

da sonda com a qual o alvo estabelece concordância: é nominativo, se a sonda for T, e é acusativo, se a sonda for v. Chomsky assume que um conjunto de traços-φ deve ser apagado como uma unidade, e também assume que apenas uma sonda com um conjunto completo de traços-φ pode apagar o traço de Caso de um DP, de modo que uma sonda defectiva (que não é φ-completa) não pode valorar o traço de Caso do alvo, como explicado anteriormente (cf. Chomsky, 2000: 124; Chomsky, 2001: 6–7). Em resumo, essas duas outras exigências para o sistema sonda-alvo estão enunciadas em (8):19

(8) a. O alvo e a sonda devem estar ativos para que Agree seja aplicado.

b. α deve ter um conjunto completo de traços-φ (deve ser φ-completo) para apagar os traços não-interpretáveis de um elemento compatível β.

(Chomsky, 2001: 6)20

Para ilustrar como ocorreria o mecanismo de Agree, tomemos uma sentença transitiva simples, que possui em sua numeração dois DPs e as categorias T e v. No caso em questão, o conjunto de traços-φ não-interpretáveis de T e de v atuam como sondas, enquanto o conjunto de traços-φ interpretáveis dos DPs são os alvos A categoria T também possui um traço-EPP, não-interpretável, que exige Merge de um elemento em [Spec, T]. Analisemos por partes a derivação. Em (9), vemos a relação de concordância

19 Além disso, é necessário considerar a possibilidade de Restrições de Intervenção Defectiva (defective

intervention constraints) em um sistema de concordância, que estamos ignorando neste trabalho por não ser uma questão relevante para nós (a esse respeito, cf. Chomsky, 2000: 123).

20 Tradução de: “Goal as well as probe must be active for Agree to apply. / α must have a complete set of

φ-features (it must be φ-complete) to delete uninterpretable features of the paired matching element β” (Chomsky, 2001: 6).

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168 que se estabelece no âmbito do vP: após a formação do sintagma verbal mais baixo (Merge de V e DP1) e seleção desse VP por v, obtém-se a configuração em (9a):21

O DP1 entra na derivação com traços interpretáveis de gênero, número e pessoa,

mas com um traço não-valorado de Caso. Ao fazer Merge com V, esse DP recebe um papel-θ; esse é o argumento interno.22 Em seguida, v seleciona o VP, que passa a estar em seu domínio de c-comando. A sonda em v é φ-completa e procura por um alvo com traços- φ compatíveis em seu domínio: encontra o DP1, que cumpre esses requisitos (vide (9a)).

O v e o DP1 entram em uma relação de Agree e os traços-φ não-interpretáveis da sonda

são valorados/apagados; como consequência, o Caso do DP1 valorado como acusativo, de

modo que esse DP é interpretado como o objeto direto (vide (9b)).23 Nesse contexto, uma

vez que o traço de Caso do DP1 é checado/apagado, ele não pode mais se mover ou entrar

em uma nova relação de concordância (cf. Chomsky, 2000: 123).24

Em um momento da derivação, ocorre o Merge de outro nominal, DP2, na posição

[Spec, v], que recebe um papel-θ. Trata-se do argumento externo. Esse DP também entra na derivação com os valores dos traços-φ (gênero, número e pessoa) especificados, uma vez que são interpretáveis, e também possui um traço de Caso não-interpretável a ser valorado. Ocorre Merge de T e vP. Nessa configuração, os traços-φ não-interpretáveis de

21 Nos exemplos a seguir, “uφ:___” deve ser lido como “conjunto de traços-φ não-interpretáveis não

checados/não-valorados, “uφ: val” significa que o conjunto de traços-φ foi valorado na sintaxe. Semelhantemente, “uCaso:___” indica que o traço não-interpretável de Caso não foi valorado, e “Nom” e “Acc” indicam os valores que um traço de Caso recebe após se relacionar com T ou v.

22 Trataremos da atribuição de papel temático na próxima subseção.

23 Na realidade, Chomsky (2001: 5) distingue “valoração” de “remoção” dos traços não-interpretáveis,

assumindo que a operação Spell-Out remove os traços não-interpretáveis valorados logo após a aplicação de Agree, de modo cíclico. Por conveniência, estamos assumindo “valorar”/ “checar” e “apagar” (remover) como sinônimos neste trabalho, sem mencionar o momento da aplicação de Spell-Out.

24 Outra opção teórica seria considerar que v pode checar Caso acusativo do DP em uma posição de Spec

mais externa (cf. Hornstein, Nunes & Grohmann, 2005: 122–123), mas não estamos advogando por isso neste trabalho.

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169 T são uma sonda e procuram por um alvo em seu domínio. Os traços-φ interpretáveis do DP2 (que estão no domínio de T) fazem matching com o conjunto de traços-φ de T, de

forma eles podem entrar em uma relação de concordância (vide (10)). T também possui um traço [EPP], que pode ser satisfeito pelo DP2.25

Após o matching do conjunto de traços-φ entre o par sonda-alvo, a operação Agree valora os traços não-interpretáveis de T conforme os valores especificados no alvo (cf. Chomsky, 2000: 123). Como consequência de sua relação com T, o DP2 terá seu traço de

Caso valorado como nominativo. Isso só é possível porque T possui um conjunto completo de traços-φ. Para satisfazer o traço-EPP de T, o DP2 é movido (alçado) para a

posição de [Spec, T].26 Esse DP é o sujeito superficial da sentença em questão. Como ilustrado em (11), nessa etapa da derivação os traços-φ não-interpretáveis mencionados foram todos valorados, e EPP foi satisfeito.27 A derivação terminará com a formação do CP acima de TP.

25 O traço [EPP] de T também pode, em princípio, ser satisfeito pelo Merge de um expletivo; no entanto,

na derivação que estamos exemplificando e nas sentenças de que vamos tratar neste capítulo não há um expletivo na numeração (cf. Chomsky, 2000: 126).

26 Lembramos que estamos utilizando o vestígio para representar o movimento do DP por conveniência,

em vez de uma cópia.

27 Como optamos por desvencilhar movimento de Agree neste trabalho, diferentemente do que é

pressuposto em Chomsky, mas mantivemos a ideia de que um DP com traço de Caso valorado não pode participar de outro movimento-A, teríamos de fornecer uma explicação sobre por que motivo o DP consegue apagar o traço-EPP de T, o que, em tese, ele não pode fazer se já tiver tido seu traço de Caso valorado. Nesse sentido, teríamos de explicar se a valoração de Caso do DP ocorre antes ou depois do movimento do DP para eliminar o traço-EPP de T (ou se tudo isso ocorre simultaneamente, ou se valoração de Caso e apagamento de EPP são coisas que não possuem relação entre si). Estamos ignorando esse

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170 De modo mais concreto, a derivação que acabamos de apresentar poderia corresponder a uma sentença como (12), por exemplo, em que “o bolo” seria o DP1, e “O

João” seria o DP2.

(12) O João comeu o bolo.

No exemplo de derivação que comentamos, as sondas em questão eram todas φ- completas, capazes de checar Caso do DP. É oportuno, portanto, comentar como ocorreria uma derivação envolvendo uma sonda defectiva (não φ-completa), o que será relevante para compreender a nossa análise de sentenças depictivas mais à frente. Para tanto, vamos apresentar um exemplo de derivação fornecido em Ferreira (2000: 11–14). A esse respeito, o autor apresenta a seguinte sentença:

(13) João tentou beijar Maria.

(Ferreira, 2000: 11)

No caso dessa sentença, o autor assume que o T da oração encaixada (não-finito) é φ-incompleto (cf. Ferreira, 2000: 12).28 Na curso da derivação dessa sentença, o autor

explica que, em primeiro lugar, ocorre Merge de “beijar” e “Maria”, de forma que esse DP recebe um papel temático do verbo.29 Depois, o núcleo v seleciona o VP formado e

problema neste trabalho e simplesmente assumindo que o traço de Caso do DP pode ser valorado/checado na posição de Spec de um núcleo φ-completo que possui o traço-EPP.

28 Vamos comentar mais a análise de Ferreira (2000) em outras subseções.

29 Na realidade, Ferreira (2000) assume que papel temático é um traço a ser checado, como comentaremos

na próxima subseção. Estamos, portanto, adaptando a explicação dada pelo autor.

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171 ocorre Merge de “João” à estrutura, do modo esse nominal passa a ocupar a posição de [Spec, v], onde recebe um papel temático externo (cf. Ferreira, 2000: 11). Esses passos resultam no estágio em (14a). Conforme explica o autor, v possui traços-φ não- interpretáveis e entra em relação de concordância com “Maria”, o que elimina os traços ilegíveis da sonda e o traço de Caso de “Maria” (Ferreira, 2000: 12). Em seguida, T (não- finito) faz Merge com o vP formado. Os traços-φ não-interpretáveis de T são uma sonda, que se relaciona com “João”. Na concordância sonda-alvo, ocorre a eliminação dos traços ilegíveis de T; no entanto, como estamos lidando com um conjunto incompleto de traços- φ, segundo o autor, o traço de Caso de “João” não é apagado (Ferreira, 2000: 12). O sintagma “João” se move para [Spec, T], em razão do traço-EPP de T. Esses passos resultam na representação em (14b).

(14) a. Estágio 1

[vP João [v’ v [VP beijar Maria ] ] ]

b. Estágio 2

[TP Joãoi [T’ T [vP ti [v’ v [VP beijar Maria ] ] ] ] ]

(Ferreira, 2000: 12–13)30

O autor observa que “João” continua ativo e capaz de participar de outras relações de concordância, uma vez que seu traço de Caso ainda não foi valorado/checado. A incapacidade de valorar traço de Caso é, como dissemos, a grande peculiaridade de uma sonda defectiva. A derivação prossegue: ocorre a formação do CP (oração encaixada) e posterior Merge desse sintagma com o verbo “tentou”, formando-se um VP. Um núcleo

v faz Merge com esse VP (cf. Ferreira, 2000: 13). Após esses passos, a derivação chega

no ponto representado em (15a). O autor continua a explicação: o sintagma “João” se move de dentro do CP e passa a ocupar a posição em [Spec, v], onde recebe outro papel temático (checa o traço temático de v, na análise de Ferreira (2000)). Depois, ocorre

Merge de T (finito) com esse sintagma vP; como esse T possui um conjunto completo de

traços-φ e um traço-EPP, o movimento de “João” para [Spec, T] checa o traço de Caso desse sintagma nominal e satisfaz [EPP] de T, de modo que “João” fica inativo para movimentos-A posteriores (Ferreira, 2000: 13). Essas passos resultam na representação

30 As derivações em (14) e (15) foram retiradas de Ferreira (2000: 12–14), mas optamos por utilizar a

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172 em (15b). Finalizando o exemplo, o autor afirma que a derivação termina com a formação do CP da oração matriz.

(15) a. Estágio 3

[vP v [VP tentou [CP C [TP Joãoi [T’ T [vP ti beijar a Maria ] ] ] ] ] ]

b. Estágio 4

[TP Joãoi [T’ T [vP ti [v’ v [VP tentou [CP C [TP ti [vP ti beijar a Maria ] ] ] ] ] ] ] ]

(Ferreira, 2000: 13–14)

Com essa derivação, encerramos o detalhamento do mecanismo de concordância que será relevante para este trabalho. Vimos aqui um exemplo de derivação e de concordância envolvendo sondas φ-completas e um exemplo envolvendo uma sonda φ- incompleta. Em nossa análise para as sentenças com construções depictivas, os dois tipos de sonda entrarão na derivação. Essa foi a razão que nos levou a detalhar os processos de concordância como fizemos aqui.

Finalizando essa subseção, gostaríamos de fazer duas observações. A primeira delas se refere ao fato de que, em nenhuma das derivações exploradas, nós comentamos o movimento do verbo (para v e, depois, do v complexo para T) ou tratamos de outros traços que v e T possam trazer consigo na derivação. A esse respeito, é importante notar que é esse tipo de movimento (e adjunção) do núcleo verbal que permite que esse verbo, ou, mais precisamente, uma raiz verbal, obtenha informações sobre o tempo da sentença — por exemplo, supõe-se que é pela relação de V com essas categorias funcionais que um verbo como “comer” adquire a morfologia de passado (e.g., “comeu”), uma vez que o verbo não entra na derivação com informações a respeito do tempo da sentença (cf. Adger, 2002: 136–137). Essa informação é relevante para nós e será comentada mais à frente, quando tratarmos da relação entre o adjetivo em contruções depictivas e as informações aspectuais contidas na small clause.

Outra observação que gostaríamos de fazer diz respeito à atribuição de papel temático na derivação da sentença em (13). Nesse exemplo, vimos que um só DP, “João”, no caso, recebeu dois papéis temáticos — checou dois papéis, na análise de Ferreira (2000). Em nossa análise para as construções com depictivas, vamos adotar um raciocínio análogo, assumindo que um só DP pode ter mais de um papel-θ. A questão a ser colocada aqui é a seguinte: como isso é possível? Se considerarmos a versão clássica do Critério Temático assumida em Chomsky (1981), por exemplo, isso não deveria ocorrer, o que

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173 faz sentido, de fato. No entanto, não adotaremos o raciocínio por trás dessa versão do Critério-θ neste trabalho. Esse é o assunto que discutimos a seguir.