Para a realização deste estudo, foi selecionado um aluno da minha classe de canto, neste caso, na Escola Diocesana de Música Sacra de Aveiro. Esta seleção foi feita tendo em conta (i) a disponibilidade do aluno para a regularidade das sessões; (ii) a disponibilidade de sala de aula no horário das sessões; (iii) condições de insonorização das instalações ou a existência de ambiente adequado à realização das gravações e recolhas de dados; (iv) a idade do aluno e a sua capacidade reflexiva e de auto-avaliação; (v) o grau de aprendizagem do aluno, equiparado ao 1º ano de técnica vocal do ensino artístico especializado da música.
3.3.1. Local de implementação: a escola
Fundada em 1994, a Escola Diocesana de Música Sacra de Aveiro (EDMuSA)7 Tem como objetivo a formação dos principais agentes da música litúrgica - organistas, diretores de coro e cantores. Por isso, o seu plano de estudos comtempla três ramos específicos: Canto, Direção coral e Órgão.
Com uma estrutura idêntica ao Ensino Vocacional da Música, a EDMuSA leciona, não só as disciplinas musicais de nível básico e complementar, mas também algumas da área da formação litúrgica, mediante uma parceria celebrada com o ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro.
Algumas disciplinas são ministradas como ações de formação, abertas a todas as pessoas: Direção Coral, Harmonização/acompanhamento, Canto Gregoriano e Acompanhamento/ Improvisação e as da área litúrgica.
Embora a EDMuSA seja uma instituição da Diocese de Aveiro com objetivos específicos, no qual se refere à maior parte das disciplinas musicais tem conteúdos programáticos idênticos aos do Ensino Vocacional da Música atualmente em vigor. Assim, para este estudo, foi usado o programa da planificação da disciplina de canto erudito, em tudo semelhante ao praticado nos conservatórios.
3.3.2. Contexto socio-cultural do aluno
A utilização da voz é uma característica universal, para fins performativos em música ou para a comunicação, sendo o resultado de experiência, cultura e tradição (Welch, Himonides et al. 2004). Dado o impacto que as condições socioculturais, bem como os hábitos musicais, têm no desenvolvimento de capacidades técnicas para fazer música, e neste caso concreto, para cantar, é necessário enquadramento e caraterização do aluno selecionado para participar neste projeto educativo.
No que respeita ao perfil do aluno, é um adulto com trinta e sete anos de idade, cuja profissão e, por conseguinte ocupação principal, é a docência no ensino regular da disciplina de EMRC (Educação Moral e Religiosa Católica).
O aluno selecionado insere-se, assim, no grupo de indivíduos caracterizados como profissionais da voz (Guimarães, 2007). Segundo Isabel Guimarães, o uso profissional da voz pode ser dividido em quatro níveis distintos: profissionais de elite (o seu desempenho profissional depende do uso consistente de uma qualidade vocal excecional e apelativa, sendo que, um problema vocal ligeiro pode causar sérias consequências profissionais); profissionais da voz (a voz é parte integrante do seu desempenho profissional pela
necessidade de grande resistência vocal um problema vocal moderado pode não permitir o desempenho adequado da profissão); profissional não vocal (o seu desempenho profissional pode ser prejudicado caso haja um problema de voz moderado, mas só fica impedido se a perturbação for severa) e não profissional não vocal (o seu desempenho profissional não é afetado por um problema ou incapacidade vocal) (Guimarães, 2007).
Apesar de o aluno não ser um cantor profissional, tem consciência da importância do seu bem-estar vocal, na sua qualidade de vida, e no âmbito da sua profissão como professor.
(…) tenho uma profissão que me obriga a depender dela [da voz], ou pelo menos estamos tão habituados a depender dela, que quando não a temos, obriga-nos a mudar de estratégias. (…) é muito difícil nós querermos fazer alguma coisa, e sentirmo-nos limitados. Acima de tudo a impotência, por, “não há volta a dar”… temos que nos sujeitar a doença e esperar que melhor (entrevista A).
A música é, imediatamente após ao seu trabalho de docência, a atividade à qual dedica mais tempo durante a semana:
Fora do âmbito da escola tenho um coro paroquial, tenho também a Comissão Justiça e Paz (…) da qual também faço parte. Também vou colaborando com a EDMUSA (…).
Tirando a escola (…) a parte musical tem maior periodicidade de momentos, neste caso, de ensaios e as celebrações, portanto, é uma atividade semanal. A outra acaba por ter um ciclo de reuniões quinzenais e com atividades trimestrais, pelo menos, assim no grosso das atividades (entrevista A).
Assim, a principal atividade musical do aluno, pode situar-se entre a escola de música sacra e o seu trabalho como músico litúrgico. Ambas as atividades pressupõem já, uma grande percentagem de tempo disponível para a prática musical, bem como de performance em público, como é o caso do serviço litúrgico.
3.3.3. Contacto com o estudo do canto
O primeiro contato formal do aluno com o ensino da música deu-se no 2º Ciclo de escolaridade (5ª ano), no âmbito do plano de estudos do qual fazia parte integrante a
Educação Musical. Foi neste contexto que recebeu os primeiros conhecimentos teóricos, tendo iniciado o estudo de flauta de bisel.
Na mesma época integrou o coro infantil paroquial, o qual teve impacto no desenvolvimento do gosto musical, e motivação para o estudo da música.
(…) eu comecei a fazer parte do coro na altura, e sei que depois, como era acompanhado pela guitarra, isso despertou a minha vontade de aprender a tocar guitarra (…) (entrevista A).
O canto surge assim como segundo instrumento, posterior à prática de flauta de bisel (em contexto escolar do ensino regular) e à prática da guitarra.
O contacto mais formal que o aluno tivera com a voz cantada foi até então na prática do Grupo Coral Infantil Paroquial, salientando, no entanto, que a motivação para esta atividade é predominantemente extrínseca:
Na altura foi um bocado arrastado na onda do “vamos todos, porque é giro (…)”..O irmão de um amigo é que era responsável pelo coro. Portanto, fui ali um bocado mais motivado pelos outros(…) (entrevista A)
Apesar da prática vocal sempre ter integrado a vivência do aluno, desde a sua infância, na realidade o contacto com a prática vocal era feito de forma lúdica, repartindo o tempo entre a prática da guitarra e a prática vocal no âmbito do serviço coral.
É num contexto, já tardio, que o estudo voz cantada surge de forma mais sistemática e formal para o aluno, no âmbito dos seus estudos na escola de música sacra de Aveiro – EDMuSA – tendo frequentado durante o ano letivo 2011/2012 a disciplina de educação vocal. Esta disciplina era coletiva, sendo transmitidos conteúdos e aspetos técnicos gerais e de apoio à produção vocal (como por ex. a respiração, os tipos de fonação).
Neste momento presente, o aluno atribui mais importância ao canto do que à prática da guitarra: Nesta fase sinto-me mais motivado pela prática vocal (entrevista A).
Pelas suas palavras, compreendemos que o aluno desenvolveu motivação intrínseca para o estudo do canto, e, por outro lado, atribui e reconhece importância da frequência das aulas de canto, bem como no facto, de que estas sejam regulares, e por isso, ser
(…) sinto que sou capaz de fazer melhor do que tenho feito, e acima de tudo, o algum progresso que tenho feito. (…) o que me motiva é perceber que posso fazer melhor, e que é possível ainda fazer melhor”. (…) Acaba por ser um prazer e uma realização, de certa forma, pessoal. Cantar é uma gratificação pessoal.
(…)
“ [quando falto à aula de canto] sinto que a regularidade do trabalho que é feito, é posta em causa (…). Fica sempre a faltar esse momento que, quanto mais não seja, pode não ser para cantar, mas o exercício, a prática e a regularidade, que me ajuda a manter” (entrevista B).
3.3.4. Perfil vocal
Quanto ao perfil vocal do aluno, encontra-se no início dos estudos de canto, no entanto, atribui grande importância à sua saúde vocal, bem como às suas características tímbricas.
Identifica a sua voz como: uma voz estável, encorpada, é uma voz que tem um timbre com alguma profundidade (…) e resistência no sentido em que é capaz de se projetar, que permite volume (…), intensidade (…) (entrevista A).
Para o aluno, é extremamente importante ter voz, pelo que a saúde vocal é uma preocupação. Também devido à sua profissão de docente, e a perda de voz é muito desagradável (entrevista A).
Quanto à distinção entre voz falada e voz cantada, este identifica-se melhor com a voz falada.
Não sou assim muito de dizer que gosto muito da minha voz, mas não sei… gosto mais, se calhar gosto mais da minha voz falada. Pelo menos é o registo que sinto mais familiar (entrevista A).
A familiaridade, neste contexto, prende-se com o desenvolvimento da propriocepção auditiva. De facto, o aluno começa por não reconhecer a sua própria voz quando a ouve gravada.
[quando me ouvi] achei o timbre esquisito, porque a ressonância que nós sentimos dentro de nós quando falamos, não é igual á que ouvimos exteriormente (Entrevista A).
domínio sobre a voz, bem como, conhecer melhor o seu próprio timbre e as suas capacidades vocais.
[Espero] Melhorar, acima de tudo, algumas das técnicas; melhorar o meu desempenho vocal, porque, tenho tomado consciência que ainda há muito por fazer, umas vezes ficamos com a sensação “ah eu já canto muito bem”, “tenho uma voz muito afinada”, e depois percebemos que afinal, isto é muito maior do que aquilo que nos parecia anteriormente, que a meta, que até aqui era ali, agora é muito mais longe, o que corresponde a fasquia mais alta. (entrevista A).