Os assentamentos rurais são espaços que tem as marcas históricas de lutas e resistências políticas e sociais, sendo assim, esses espaços são resultados de conquistas das relações sociais da população camponesa, que passam a denominar o território32 camponês, através das relações politicas, sociais, econômicas, ambientais, etc. Oliveira (1991) vai afirmar que território é onde se tem uma identidade:
De fato, essa noção de território é fundamental; é o ponto de partida para pensarmos outros territórios que são, ao mesmo tempo, frações desse território da nação, ou unidades que possuem características próprias, resultantes das diferentes relações sociais que os produzem. (OLIVEIRA,1991, p.36).
32 As famílias camponesas existem em territórios, isto é, no contexto de relações sociais que se expressam
em regras de uso (instituições) das disponibilidades naturais (biomas e ecossistemas) e culturais (capacidades difusas internalizadas nas pessoas e aparatos infraestruturais tangíveis e intangíveis) de um dado espaço geográficos politicamente delimitado. (CARVALHO, 1999, p. 115).
Essa afirmação nos faz compreender que existem diferentes territórios como vemos na afirmação de Fernandes (2008, p. 743): “podemos analisar diferentes tipos de territórios que estão em confronto permanente, porque são espaços em que essas relações sociais se realizam.” Há compreensão ampla de território como identidade de sua população e um espaço de relações e inter-relações família e sociedade.
O território camponês é o espaço de vida do camponês. É o lugar ou os lugares onde uma enorme diversidade de culturas camponesas constrói sua existência. O território camponês é uma unidade de produção familiar e local de residência da família, que muitas vezes pode ser constituída de mais de uma família. Esse território é predominantemente agropecuário, e contribui com a maior parte da produção de alimentos saudáveis, consumidos principalmente pelas populações urbanas. (FERNANDES, 2008 p. 744).
Como espaço geográfico dentro de um assentamento, tem como identificação uma população a qual denomina camponês. Segundo Marques (2000):
O território camponês entendido como fração ou como unidade é o sítio, o lote, a propriedade familiar ou comunitária, assim como também é a comunidade, o assentamento, um município onde predominam as comunidades camponesas. (MARQUES, 2000, p.38).
Numa concepção mais ampla, o território é definido como uma unidade econômica, que visa desenvolver a lógica do trabalho familiar. Essa é a concepção de Chayanov (1974, p. 34), que define que “[...] esse território pode ser analisado como uma unidade econômica”. Ao estudar esse espaço como organização, tem-se a compreensão de território como a lógica do trabalho familiar que, diante das inúmeras referências relativas, pode chamar de território camponês.
A compreensão de território camponês, como unidade espacial, é definida pelo autor Fernandes (2000):
[...] território camponês é uma unidade espacial, mas também é o desdobramento dessa unidade, caracterizada pelo modo de uso desse espaço que chamamos de território, por causa de uma questão essencial que é a razão de sua existência. A unidade espacial se transforma em território camponês quando compreendemos que a relação social que constrói esse espaço é o trabalho familiar, associativo, comunitário, cooperativo, para o qual a reprodução da família e da comunidade é fundamental. (FERNANDES, 2000, p.744).
O cotidiano do território camponês produz e fortalece a relação social, sua cultura e que são construídas e reconstruídas a partir de sua bandeira de luta e resistência, com as
relações capitalistas. Conforme afirma Oliveira (1991) “A produção do território do capital acontece através das relações capitalistas. As relações de produção capitalistas destroem as relações de produção não capitalistas”. Mesmo que a sua produção esteja subordinada ao seu mercado, sendo que esse determina o seu valor e fica com parte de sua renda.
Segundo Fabrini (2002), no Brasil, o MST é uma das mais expressivas referências da luta de resistência camponesa pela terra e por territórios. São creditados ao MST as muitas conquistas ocorridas no campo, pela persistência e resistências das lutas. É essa luta e resistência que tem fortalecido o território camponês e tem sido o centro de suas conquistas e transformações sociais, a partir da organização camponesa do trabalho, o que a torna diferente do sistema do capital, conforme afirma Fernandes (2000):
A organização familiar do trabalho e o conjunto de características relacionado a ela diferencia o território camponês do território capitalista – territórios com lógicas e processos distintos, e que constroem diferentes modelos de desenvolvimento territorial. (FERNANDES. 2000, p. 745).
Não é o espaço como ambiente (real ou lógico) em que tudo está disposto, mas o meio em que tudo se torna possível. Nesse meio a vida social integra-se numa fonte de inter- relações, envolvendo forças, necessidades e desejos, unindo sujeito e trabalho para a o fortalecimento do desenvolvimento sustentável na agricultura camponesa. Costa (2000), define que:
É o modo de fazer agricultura e de viver das famílias que, tendo acesso à terra e aos recursos naturais que ela suporta, resolvem seus problemas reprodutivos por meio da produção rural, desenvolvida de tal maneira que não se diferencia o universo dos que decidem sobre a alocação do trabalho dos que se apropriam do resultado dessa alocação. (COSTA, 2000, p. 116- 130).
Segundo o censo de 2018, a população do território da reforma é de 26.015 habitantes no município de Santa Maria da Boa Vista – PE, sendo a população rural maior que a população urbana. O município de Santa Maria da Boa Vista – PE é o que tem o maior contingente da população campesina do território da reforma agrária do Brasil. O índice de densidade demográfica33 do município de Santa Maria da Boa Vista – PE é de 13,4 hab/Km².