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B - Jeu de morpion

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A vocação é tudo. O estado eclesiástico é perfeitíssimo, contanto que o sacerdote venha já destinado de berço. Não havendo vocação, falo de vocação sincera e real, um jovem pode muito bem estudar as letras humanas, que também são úteis e honradas. (ASSIS, 1997, p. 84).

O doutorando José Muniz Cordeiro Gitahy, um defensor da religião católica, não deixa dúvidas, em 1851, sobre a sua filiação à defesa do casamento como uma instituição sagrada e necessária para a estabilidade social. Para ele, ademais de uma relação envolvendo apenas os indivíduos, seria uma instituição importante para a “felicidade política das sociedades humanas”. Da mesma forma, o celibato seria a “violação do laço de familia”, e, portanto, “prejudicial à estabilidade das nações”, bem como “uma origem fecunda da prostituição” (GITAHY, 1851, p. 19).

O casamento seria também responsável pelo aumento da população, situação contrária àquela relacionada à prostituição. Portanto, ele defenderá um ponto de vista compartilhado com muitos autores da época, qual seja, o de que a prostituta perde com o tempo a capacidade de gerar filhos. Para Gitahy, “O casamento concorre muito para o augmento da população, prevenindo a esterilidade da mulher, porquanto a observação tem mostrado que as prostitutas são em geral estereis”. Tanto a medicina como o cristianismo (leia-se, catolicismo), “ligados assim em seus interesses”, acreditariam no casamento como capaz de “refrear a prostituição e a immoralidade.”(GITAHY, 1851, p. 19).

O celibato será um dos poucos temas a perpassar quase todo o período estudado. Encontramos, na década seguinte, a já referida tese As raças humanas descendem de uma só

origem?. Esta tese, que estaria preocupada com as raças humanas, dedica uma grande parte de suas reflexões aos perigos que a abstenção sexual, voluntária ou não, poderia acarretar tanto para o indivíduo como para a sociedade. O autor se comporta tanto como médico quanto como cientista social, ou melhor, espera debelar as doenças que atingem os seres humanos e a sociedade em que estes estavam inseridos.

Os formandos da Faculdade de Medicina baiana começavam, desde cedo, a se preparar para combater a grande doença que eles supunham estar corroendo a sociedade brasileira da época, isto é, a deterioração da moralidade. Estavam dispostos a realizar um duplo movimento para mudar a sociedade e inseri-la no contexto de um mundo moderno, que julgavam, porém, cheio de atrativos, diversões e perigos. Pretendiam contribuir para que o Brasil ingressasse no mundo civilizado e, ao mesmo tempo, nutriam certo receio em face dos perigos que esse processo modernizante poderia acarretar, principalmente para a velhice dos celibatários:

É incontestavel a influencia do celibato sobre a saude do homem, como sobre seos habitos moraes e regimen social. Emquanto a mocidade, excitada pelo turbilhão dos prazeres e pelo encanto da variedade, recebe do mundo as ovações que por sua vêz lhe tributa, o cazamento parece ser um obstaculo a essa permuta de affectos illusorios, de dedicações simuladas. Quando, porem, a decrepitude impossibilita o celibatario para essa actividade incessante que lhe faz olvidar o excepcional da sua posição, a sua existencia de então é uma compensação bem amarga da sua liberdade de outr’ora. (REBELLO, 1869, p. 16).

Uma outra preocupação relacionada com o celibato, e é esta que nos interessa mais de perto, é a relação, muitas vezes direta, que alguns doutorandos estabeleciam entre o celibato e a loucura e, conseqüentemente, o crime. O celibatário estaria mais vulnerável aos ataques ao sistema nervoso. As estatísticas inglesas comprovariam que muitos dos suicidas “pertencem ás fileiras dos celibatarios” (REBELLO, 1869, p. 17). Enfim, o hábito de manter-se longe do casamento, pois é apenas dele que muitos celibatários se mantinham distantes, procurando prostitutas para a satisfação dos desejos sexuais, era pensado como nocivo à moralidade, à religião e, de certa forma, bastante perigoso para o Estado. A crença de que a prostituta perdia a capacidade de gerar filhos, principalmente filhos não degenerados, alimentava uma gama de críticas aos homens que usavam esse expediente, e criavam, assim, dificuldades para o firme estabelecimento do Estado-nação:

Geralmente a abstenção do commercio sexual resulta: no homem, do fanatismo e da falsa apreciação dos deveres religiosos; na mulher, nem só destas causas como principal e muito justificadamente do pudôr natural, e da susceptibilidade da sua reputação que se marêa ao mais brando halito mundano [...] Se o celibato spontaneo ou livre, isto é, aquelle a que o homem ou a mulher se vota por livre arbitrio e até quando lhe apraz, influe directamente assim sobre o seo physico como seo moral, o

celibato forçado, o celibato clerical e as profissões de ambos os sexos são alem de uma tyrania cruel um insulto as leis naturaes, uma revolta contra a instituição divina da propagação das especies. As luzes do seculo hão de fazer justiça a esta conclusão da sciencia despejando os claustros de milhares de individuos que seriam uteis á sociedade da qual o preconceito os sequestrou. (REBELLO, 1869, p. 17).

Independente do período em que a crítica à abstenção sexual e, principalmente, ao celibato seja formulada, ela vem sempre acompanhada de, pelo menos, duas questões básicas: o crime social, ou seja, a privação da sociedade de membros sadios proporcionados pelos casamentos, e a preocupação com uma suposta deterioração moral que estaria ocorrendo nas sociedades mais civilizadas. Para muitos doutorandos, essas mudanças não só colocariam em xeque a estabilidade e o futuro das sociedades, como também gerariam um grande contingente de pessoas com doenças mentais e, conseqüentemente, um aumento na criminalidade. Filhos saudáveis só seriam possíveis dentro do casamento e longe das práticas nocivas que sempre apareciam eivadas de descontroles e males sociais.

O doutorando Octavio de Souza Brandão, em sua tese Do Casamento e sua

Regulamentação, defendida em 1905, formula, também, duras críticas aos celibatários. Além de concordar com outros posicionamentos dos colegas, defende que essa prática seria responsável pela decadência das raças. Ele começa suas reflexões pelas questões de ordem social, redargüindo a associação entre o aumento da natalidade e a geração de fome, no futuro, pois é sua pressuposição que, para enfrentar o problema da produção de alimentos, tornava-se necessário aumentar o contingente demográfico. Dessa forma, o progresso acarretaria, necessariamente, o aumento da quantidade de alimentos:

Por nossa vez, pensamos que a esterelidade voluntaria é um crime. E quanto ás prophecias mentirosas de Malthus, sob o ponto de vista da subsistencia, vê-se que a multiplicação dos homens em todas as nações dá incremento ao progresso em todos os ramos da industria, havendo um augmento constante dos produtos e o aperfeiçoamento em tudo, até da intelligencia. (BRANDÃO, 1905, p. 68).

Em sua dura crítica ao celibato, ele não poupa a religião católica, que considera como sendo uma chaga social. Põe-se em defesa dos protestantes, porque estes aceitariam que seus ministros se casassem e gerassem filhos. Para ele, “o celibato voluntario foi sempre a origem da libertinagem e, como tal, considerado uma das causas da decadencia das raças” (BRANDÃO, 1905, p. 81). De acordo com Brandão, a opção de não casar e ter filhos terminou gerando desprezo dos homens pelas mulheres e, conseqüentemente, a depravação dos costumes. Ele recrimina expressamente o uso de preservativos, cuja utilização constituiria um atentado à moral e aos bons costumes: “envolucros impermeaveis, ou condom, cuja venda clandestina é um attentado à moralidade e à lei.” (BRANDÃO, 1905, p. 67). Sua reclamação é

bastante compreensível se lembrarmos que o grande projeto do autor era aumentar o número de filhos por família. O preservativo, sendo um contraceptivo, aparecia, assim, como um empecilho à realização desse projeto.

De fato, para muitos doutorandos, só haveria uma alternativa para salvar a sociedade da grande avalanche de males sociais a que estava submetida. O casamento, sem sombra de dúvidas, foi o grande eleito para cumprir essa nobre tarefa, mas apenas mediante as alianças que lograssem a aprovação dos especialistas.

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