Atualmente, há uma preocupação com a presença de micropoluentes emergentes no meio ambiente, pois podem causar sérios problemas ambientais e de saúde pública. Assim como outros poluentes emergentes, o efeito dos fármacos na saúde humana deve ser analisado de maneira ordenada e qualitativa, levando em consideração as preocupações especiais e as necessidades da sociedade dentro das classes e produtos. O aumento do uso e tipos de antibióticos durante as últimas cinco décadas resultou em uma seleção genética de bactérias resistentes, com efeito em longo prazo e, provavelmente, irreversível (SANDERSONet al., 2004).
Segundo Gil e Mathias (2005), um impacto ambiental de relevância em saúde pública é o desenvolvimento da resistência. Estima-se que 55% de todos os microrganismos apresentem resistência a pelo menos um antibiótico. Alguns fatores podem contribuir para o desenvolvimento e disseminação de microrganismos resistentes: mutação em genes comuns que estendem seu espectro de resistência, transferência de genes de resistência entre diversos microrganismos e processos de seleção natural. Também, verificou-se o potencial mutagênico do produto de degradação da furosemida, um dos diuréticos mais consumidos no mundo.
A possível forma de atuar dos principais micropoluentes emergentes no ser humano, bem como o local de atuação no organismo, é mostrada na Tabela 3.
Tabela 3 - Modo de atuar e local de atuação dos micropoluentes emergentes no organismo humano.
Compostos Modo de atuar Local de atuação
Químicos Sintéticos
PCBs Agonista e inibidor enzimático Sistema neurológico e reprodutor
Dioxinas Agonista/antagonista Sistema neurológico e
imunológico
Ftalatos Antagonista Sistema reprodutor
Bisfenol A Agonista/antagonista Sistema reprodutor; neurológico
PBDEs Agonista/antagonista Sistema reprodutor; Tiroide.
Fitofarmacêuticos Pesticidas DDT e DDE Atrazina Viclozina Agonista/antagonista Agonista/antagonista Antagonista Sistema imunológico e reprodutor; câncer
Sistema reprodutor e neurológico Sistema reprodutor
Orgânicos
TBT
Agonista e inibidor enzimático Sistema imunológico, reprodutor
e obesidade Metais pesados Pb Hg Cd Inibidor enzimático Inibidor enzimático
Agonista e inibidor enzimático
Sistema reprodutor e neurológico; câncer
Sistema reprodutor e neurológico Sistema reprodutor Naturais Fitoestrogênio Isoflavonas Agonista/antagonista Possível carcinogênico Sistema reprodutor Fonte: DUARTE, 2008.
TBT: tributil-estanho; DDT e DDE: Dicloro-Difenil-Tricloroetano e diclorodifeniltricloroetileno.
Na Tabela 3, pode-se observar que a cada composto pode corresponder mais do que um modo de atuação, assim como algumas semelhanças entre o efeito originado e a forma de agir (DUARTE, 2008). Um receptor hormonal possui elevada sensibilidade e afinidade por um hormônio específico produzido no organismo. Por
isso, concentrações extremamente baixas de um determinado hormônio geram um efeito, produzindo uma resposta natural (MOREIRA, 2008).
Os compostos que se ligam ao receptor do estrogênio e imitam a sua função, estão relacionados com efeitos de feminização. Este efeito pode ser originado, também, pela ligação ao receptor do androgênio, bloqueando a ação da testosterona nos tecidos dependentes de androgênio. Outra via pode consistir na inibição da ligação aos receptores do estrogênio e da progesterona. Assim, a alteração dos níveis de hormônios sexuais, como por exemplo, um excesso de compostos estrogênicos ou a deficiência de androgênio, leva à feminização do organismo. O contrário também é verificado, havendo assim elevados níveis de androgênio, levando a efeitos de masculinização do organismo (DUARTE, 2008)
A dose e a altura em que ocorre a exposição aos DEs são muito importantes, pois os efeitos cancerígenos observados em muitos indivíduos podem ter sido ativados durante a gestação. Estes compostos conseguem desprogramar o DNA, tornando os genes mais sensíveis ao estrogênio, levando a que ativem e produzam mais genes do que deviam, originando o crescimento de tumores (SOCIETY, 2007).
Muitas das substâncias químicas desreguladoras endócrinas são transplacentárias, ou seja, conseguem ultrapassar a barreira protetora da placenta durante a gestação e atingir o feto. O chumbo, por exemplo, atravessa prontamente a placenta, indo para o feto. Estudos mostram que os DEs podem aumentar a incidência de câncer de testículo, ovário e de mama, bem como reduzir o número de espermatozóides e a fertilidade (FERREIRA, 2008; MANIERO;BILA et al., 2008).
Vários grupos de pesquisas acreditam que grande parte da população sofre com o decréscimo na qualidade do sêmen nas últimas décadas. Auger et al. (1995) analisaram, de 1973 a 1992, a qualidade do sêmen de um grupo de homens férteis saudáveis, levando em conta o volume do fluido seminal, a concentração de esperma e a mobilidade e morfologia dos espermatozoides. Os autores observaram um declínio na concentração e mobilidade dos espermas nos homens por um período de 20 anos, e esse decréscimo da qualidade do sêmen coincide com um aumento na incidência de anomalias no sistema reprodutivo masculino, incluindo câncer testicular (BILA ;DEZOTTI, 2007).
Entre os compostos que podem afetar o sistema reprodutivo humano estão os ftalatos, que podem modificar a produção de andrógenos e ter efeitos estrogênicos, levando a anomalias no sistema reprodutor. Os alquilfenóis que possuem efeitos estrogênicos em vários organismos, o PCB (policlorados de bifenila), o BPA (bisfenol A) e o nonilfenol podem imitar a ação do estrogênio. Já o DDT pode inibir a ligação dos receptores do estrogênio e da progesterona (DUARTE, 2008).
Koifman et. al. (2002) demonstraram que em alguns estados brasileiros há uma correlação entre o consumo de pesticidas e manifestações endócrinas na população exposta, com efeitos diretos no aparecimento de infertilidade, câncer do testículo, câncer de mama, câncer de próstata e de ovário. Na Região Metropolitana
da Baixada Santista, o problema toma proporções assustadoras, dada a existência de diversas substâncias químicas desreguladoras endócrinas.
3.3 Métodos de concentração de micropoluentes emergentes em matrizes