Uma das primeiras questões a ser considerada para a construção deste estudo é o fato de os ambientes de produção jornalística ser ambientes controlados. A começar pela entrada (permanência) dos sujeitos nesses locais. Foi necessária uma negociação anterior à visita às redações para permitir a presença do pesquisador nos respectivos espaços.
A autorização para a realização da pesquisa se deu através do contato com os chefes de redação. Nos dois casos, a única objeção apresentada era quanto à proposta inicial de acompanhar as equipes de reportagem nas ruas. A justificativa apresentada em ambos os casos, era que isso representava um risco, uma vez que as equipes de rua possuem seguro contra possíveis acidentes e o pesquisador não estaria coberto por este recurso, de modo que não poderiam permitir as saídas no carro da reportagem.
Outro ponto interessante na negociação foi que, embora os dois chefes de redação tenham aceitado a realização desta pesquisa, houve uma liberdade negociada aos espaços pesquisados. No período compreendido como observação piloto (ou experimental), por exemplo, era necessário avisar o dia que se pretendia estar na redação para que o acesso fosse liberado.
O mesmo mecanismo se repetiu durante os quatro primeiros dias da observação definitiva. Somente depois do período experimental e de mais quatro dias de observação diária, foi possível ter a entrada autorizada na redação sem ser “anunciado” pela recepção das emissoras pesquisadas.
Outra questão a ser destacada neste capítulo metodológico, diz respeito à relação com os jornalistas que trabalham nas emissoras pesquisadas. Muitos deles também se formaram na Universidade Estadual de Ponta Grossa (ou seja, os jornalistas eram pessoas já conhecidas desde a Universidade). Muitos foram colegas de profissão quando da atuação como jornalista entre 2009 e 2012 na imprensa regional. Além do que, como diretor do sindicato dos jornalistas do Paraná, houve a possibilidade de o contato com esses profissionais ser mantido.
Situações como essas são bastante comuns em estudos de ambientes jornalísticos regionais, uma vez que o círculo de atores envolvidos na produção da notícia é mais restrito e a chance de conhecer alguém ou ter trabalhado com um dos atores pesquisados é muito grande. Nesse sentido, a preocupação maior era a de manter a independência da pesquisa que se desenrolava. Assim, apesar dos
convites para cafezinhos, lanches da tarde ou mesmo caronas, o foco sempre foi mantido, evitando-se esses tipos de situações. Isto para que não houvesse confusão sobre o trabalho que estava em andamento na redação durante o período de observação.
Naturalmente, a decisão gerou uma reação dos jornalistas pesquisados, talvez pela falta de estudos da rotina de produção nesses locais. Um deles se mostrou confuso quanto ao meu papel dentro da redação. No período de observação, um dos produtores investigados disse se sentir inseguro com a minha presença. Ele revelou ter a impressão que eu estava ali para anotar se ele estava fazendo o trabalho certo.
Mais uma questão que envolve esta pesquisa diz respeito a um dilema que norteia todo pesquisador de rotina de produção: a sistematização dos dados. Em uma tentativa de organizar melhor o caderno de campo, elaborou-se uma classificação daquilo que se esperava encontrar nos ambientes pesquisados. A proposta reproduzida a seguir, chegou a ser testada na pesquisa exploratória, mas posteriormente foi descartada. Apesar disso, foi inserida neste capítulo, como uma tentativa de forçar a reflexão sobre a necessidade de se criar um sistema de orientação nas pesquisas deste tipo:
Quadro 5 – Classificação nos Ambientes Pesquisados
SÍMBOLO DESCRIÇÃO
O
Indica movimentos realizados pelos jornalistas. Este recurso pode ser usado para indicar a posição do sujeito dentro da redação, mas também pode indicar se jornalistas que ocupam a mesma função na redação realizam os mesmos movimentos.
X
Indica as interferências no processo produtivo. Pode ser utilizado quando a pauta muda de enquadramento (identifica o motivo desta mudança), mas também pode indicar uma pauta que não foi realizada por questões estruturais.
//
Indica a autonomia para realizar uma ação. Esse símbolo pode ajudar a entender quem tem poder de decisão dentro da redação para alterar seu trabalho sem precisar pedir orientação a um sujeito que esteja acima dele na cadeia hierárquica.
F
Indica a presença de fonte em alguma situação relevante. Seja no movimento do jornalista, na interferência ou em outra situação ainda não identificada.
Fonte: O Autor (2014)
espécie de legenda para ajudar na organização do caderno de campo. Porém, durante o período de observação, o sistema se mostrou falho e com amplas necessidades de ajustes. Talvez por ter sido construído antes de um contato efetivo com a realidade empírica do objeto estudado.
Outro fator que pode ter contribuído para a falta de sucesso na sistematização foi a maneira como a pesquisa científica se desenvolveu, com o objeto de pesquisa se revelando aos poucos de forma processual, de modo que seria muito difícil dar conta de apreender esse objeto e ao mesmo tempo conseguir oferecer uma categorização metodológica para os fenômenos que se desenvolvem em ambientes de produção.
A curiosidade dos pesquisados durante o período exploratório é outro fator de destaque. Embora o curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa tenha um grupo de pesquisa que se dedica a estudar ambientes de produção jornalística (Grupo de Lógicas de Produção e Consumo do Jornalismo), as duas redações nas quais este estudo se realizou desconheciam o papel de um pesquisador no local.
Durante a coleta de dados, tornou-se fácil identificar a curiosidade dos pesquisados naquilo que era anotado no caderno de campo. Quando algum jornalista passava por perto do local onde as anotações ocorriam, tentava olhar essas anotações. Além disso, os pesquisados ficavam atentos aos momentos nos quais algo ia ser anotado para tentar identificar qual era o interesse nas redações.
Em parte, essa curiosidade ocorreu pela não revelação específica do objeto de pesquisa para os pesquisados. Contudo, há também a possibilidade da curiosidade ter sido motivada pelo fator concorrencial que envolve as duas emissoras pesquisadas. A preocupação de que alguma informação vazasse de uma redação para outra, uma vez que se tratam de dois ambientes concorrentes, não foi percebido de maneira clara durante a coleta de dados. Após sistematizar os dados e refletir sobre o conteúdo coletado na elaboração da dissertação, foi possível identificar as marcas que apontam para essa preocupação concorrencial.
Inicialmente, a ideia era realizar a coleta empírica considerando cada função dos jornalistas presentes nas redações. Assim, pretendia-se acompanhar o trabalho do produtor, depois do repórter/repórter cinematográfico, editor e chefe de redação. Como a saída da redação com a equipe de reportagem não foi permitida pelas empresas, a tentativa foi abandonada antes mesmo de a observação iniciar.
Além disto, durante a coleta de dados, foi possível perceber que (para o objeto que se pretendia estudar) o trabalho do produtor/pauteiro era muito mais central do que as demais funções, de modo que esta foi a função mais acompanhada no processo produtivo. Além do produtor, o editor também foi observado, mas com menos intensidade que o primeiro.
Um dos focos de atenção durante a observação foi o contato que os jornalistas realizavam com as fontes. A interação era sempre realizada pelo produtor da emissora. Já no contato entre jornalista e fonte, o interesse para a pesquisa era identificar como os jornalistas reagiam à pressão desses sujeitos em seu trabalho. Tentou-se, ainda, perceber se o fato da emissora concorrente ter divulgado alguma informação que não foi publicada pela emissora da casa era utilizado pela fonte para ter seus conteúdos (interesses) publicados no telejornal.
Outro momento de grande interesse na observação corresponde às conversas entre os produtores dos telejornais com jornalistas de outros veículos de imprensa. Buscou-se identificar em que âmbito se dava essa conversa e que tipo de troca se estabelecia entre os sujeitos. Foi relevante descobrir se as trocas entre os profissionais eram chanceladas institucionalmente pelas emissoras ou se tratavam de uma ação individual de cada jornalista.