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Conforme apresentei na seção das análises, as relações no curso (abordadas pelos textos dos entrevistados) se referiram ao convívio com discentes LGBTs, discentes heterossexuais, docentes e funcionários. O maior volume das falas se concentrou sobre o relacionamento entre discentes, aparentando que este elo possui maior centralidade na prática social da graduação para os estudantes, no tocante à temática de orientação sexual.

Alguns discentes alegaram que o fato de não serem heterossexuais não aproxima os LGBTs, não sendo suficiente para a criação de identificação coletiva por parte deste grupo. Além de observar a pouca afinidade entre estes alunos, foi possível perceber a existência de intolerância entre alguns discentes gays e bissexuais, principalmente sobre aqueles que se distanciam em demasiado do modelo de performance legitimado no curso. Os alunos afeminados tendem a ser alvo maior de estigmatizações, inclusive de outros LGBTs do curso. Alguns entrevistados alegaram que discentes não assumidos ou reservados com relação a orientação sexual tendem a não querer se relacionar com eles por serem assumidos. Transcorreram ainda que observam certo temor por parte desses alunos, como se a forma como os assumidos performam ou lidam abertamente com sua orientação sexual ameaçasse a identidade oculta daqueles, ao mesmo tempo que são recriminados por desafiarem a ordem vigente e a matriz de inteligibilidade.

Ao repetirem e reiterarem as performances legitimadas, os discentes não assumidos e reservados parecem revelar certo temor dos julgamentos dos demais discentes do curso e passam a corporificar a racionalidade do senso comum, negando parcialmente sua sexualidade.

A relação com os alunos heterossexuais se apresenta mais conturbada. Mesmo que os entrevistados tenham alegado manter bom convívio com alguns colegas héteros, os relatos demonstram que parte dos discentes do curso se mantém afastada dos LGBTs e que outra parcela exterioriza seu preconceito mediante recorrentes brincadeiras de cunho pejorativo — que podem facilmente ser classificadas como discurso de ódio.

Tais "brincadeiras" parecem querer ressaltar o caráter desviante dos alunos gays e bissexuais em relação ao padrão heterossexual que vigora sobre o curso e, muitas vezes, materializam valores morais violentos que aviltam o sujeito diferente. Ao mesmo tempo em que os LGBTs são taxados como engraçados e diferentes, são colocados num lugar distinto dos demais discentes (heterossexuais). Os chistes parecem querer mascarar atos de preconceito e discriminação, além de camuflar o não reconhecimento do lugar ocupado pelos

LGBTs na Administração — principalmente daqueles que muito destoam dos códigos de significação pelos quais a matriz de inteligibilidade confere reconhecimento.

Os atos de preconceito e discriminação presentes na prática discursiva da graduação tendem a estimular constante estado de vigilância nos estudantes gays e bissexuais. Em diversos textos coletados foi possível observar (explícita ou implicitamente) sofrimento e angústia em alguns entrevistados, alimentados pelos citados atos ou ainda pela indiferença sofrida.

Na busca por se sentirem menos vulneráveis, diversos entrevistados compartilharam possuir "ciclos de segurança" formados por discentes nos quais depositam confiança e amizade. Parte destes entrevistados tentam se preservar restringindo parcialmente suas relações a esses ciclos, o que pode prejudicar a socialização desses estudantes na graduação. Outros entrevistados relataram ainda restringir seu comportamento no espaço acadêmico, optando pela introspecção como forma de defesa aos atos de intolerância.

Mesmo com a aparente instabilidade causada a partir de performances que se distanciam do padrão heteronormativo que paira sobre o curso, alguns alunos como Júnior e Lorenzo mantêm os atos performativos condizentes com a maneira com a qual se identificam. O fato de serem observados e mencionados por outros entrevistados parece demonstrar que o modo como performam tem algum impacto sobre a prática social do curso, além de me fazer concordar com o alegado por Lorenzo — "eu encaro a minha presença aqui como essa questão de desmistificar essa coisa, de mostrar para eles que existe algo mais além, que as relações podem ser construídas independente da sexualidade" — quando remete à importância de suas performances "desviantes" no processo de desconstrução dos estereótipos e das noções estáticas e normalizadas sobre a sexualidade.

Um fato inusitado nos enunciados estudantis foi que discentes homens (gays ou bissexuais) disseram ter melhor relação com mulheres, enxergando menor preconceito em suas ações quando comparadas aos homens heterossexuais; enquanto as entrevistadas bissexuais ponderaram se sentir mais a vontade com homens, por achar que eles seriam menos preconceituosos que as mulheres heterossexuais. A partir desta discordância perceptual entre os dois grupos, interpreto que há um temor generalizado por parte dos heterossexuais (homens ou mulheres) com relação a orientação sexual que possa de alguma forma ameaçar a afirmação de sua heterossexualidade, ao mesmo tempo em que a hipersexualização dos LGBT arquiteta um estereótipo de que estes podem a qualquer momento assediar os colegas heterossexuais, como se não fossem capazes de construir vínculos sem o interesse sexual.

Os entrevistados discorreram ainda sobre sua relação com os docentes e demais funcionários da instituição. A quase totalidade dos relatos descreveu convívio saudável e harmonioso com esses atores, utilizando adjetivações positivas e demonstrando manter bons vínculos. No caso em particular dos professores, diversos estudantes alegaram acreditar que o nível de instrução destes estaria diretamente associado ao maior respeito e compreensão sobre as diferenças.

Entretanto, alguns discentes levantaram a suposição de que a inexistência de atos preconceituosos e/ou discriminatórios — comuns nas relações com os discentes — estaria relacionada a poder econômico e institucional. Pressionados pelo vínculo empregatício e consequente submissão ao poder da IES, docentes e funcionários não poderiam manifestar posicionamentos intolerantes contra os discentes, já que são estes que mantêm economicamente a instituição e, em contrapartida, os salários destes trabalhadores.

Mesmo com base no raciocínio tecido, uma das discentes entrevistadas relatou perceber preconceito velado por parte de uma das professoras da instituição. Atos de preconceito velado foram relatados em distintos episódios — como mudança de comportamento e olhares enviesados ou de hostilidade —, aparentando também fazer parte da prática social do curso. De maneira geral, com base nos relatos e na concepção geral de homofobia (BORRILHO, 2015), posso afirmar que as relações estabelecidas na graduação em Administração são permeadas de atos homofóbicos.

Ao analisar os enunciados discentes, foi possível ainda identificar a hegemonia heterossexual nas relações estabelecidas na Administração, a qual estabelece padrão normativo a ser seguido no curso. A não coerência entre a orientação sexual e/ou a performance de alguns discentes com o aparato ideológico heteronormativo estabelecido estimula a produção de atos intolerantes e excludentes.

8.5 Como pode ser desenhada a prática social sobre a graduação em