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Arrêt n° 48/09 du 6 mars 2009

Dans le document LES DOSSIERS DE LA PASICRISIE LUXEMBOURGEOISE (Page 154-157)

Considerando informações e reflexões a partir de leituras dos GENEs, bem como sugestões da professora orientadora deste trabalho e das professoras participantes da banca de qualificação do estudo, algumas decisões foram tomadas para a realização da pesquisa:

1. incluir apenas jovens em formação para a vida religiosa consagrada, ou seja, jovens que moravam em um instituto de vida consagrada. Isso facilitaria o acesso aos participantes, considerando a intenção de entrevistá-los, no mínimo, duas vezes ao longo de dois anos;

2. selecionar participantes de congregações ou ordens religiosas distintas, a fim de deixar o jovem mais à vontade para partilhar informações referentes à vida cotidiana na casa de formação; e

3. incluir jovens que, ao longo da participação no estudo, experimentassem o noviciado. Essa terceira decisão foi uma maneira de buscar proximidade entre experiências dos participantes, considerando a vivência do noviciado um momento de transição pessoal e institucional importante naquele contexto. Cabe ressaltar que o noviciado finaliza com a profissão temporária dos votos, portanto é uma preparação para um reconhecimento institucional do jovem como religioso consagrado.

Considerando essas decisões, foram selecionados quatro participantes para o estudo principal: quatro estudos de caso. São dois homens e duas mulheres, membros de diferentes institutos de vida consagrada que, em 2014, ao iniciarem a participação no estudo, tinham entre 19 e 24 anos. Portanto, a seleção destes quatro jovens considerou os seguintes critérios: (1) que pertencessem a Congregações ou Ordens religiosas diferentes; (2) que estivessem na etapa de

formação denominada noviciado ou ingressassem nesta antes da finalização do estudo empírico e, por fim, (3) concordasse em ser entrevistado, ao menos, duas vezes no decorrer de dois anos. Um deles já estava na etapa de formação noviciado e três ingressariam em, no máximo, quatro meses.

O estudo principal teve como instrumentos de construção de informações duas entrevistas narrativas individuais e presenciais: a primeira do tipo história de vida (Anexo V, utilizado com os quatro participantes) e a segunda do tipo episódica (roteiros individualizados, anexos VI, VII, VIII e IX). As entrevistas foram gravadas e realizadas individualmente, em local e horário negociados com os participantes. O Quadro 1 apresenta os quatro estudos de caso que compõem esta investigação e suas respectivas entrevistas:

Quadro 1

Participantes do estudo principal

Primeira entrevista Segunda entrevista

Data Idade do participante Tempo de duração Data Idade do participante Tempo de duração Cecília 05/07/2014 23 anos 1:05:48 16/02/2016 24 anos 1:38:42 Fátima 05/09/2014 19 anos 1:36:59 09/02/2016 20 anos 1:04:45 Francisco 04/09/2014 24 anos 1:21:02 17/12/2016 25 anos 1:31:10 Vicente 03/09/2014 21 anos 2:54:57 30/01/2016 22 anos 1:57:51

Como uma construção psíquica e intelectual, narrar a própria história é representar fatos e acontecimentos que o sujeito seleciona a respeito de si, considerando contextos culturais e históricos. Segundo Goolishian e Anderson (1996), “os seres humanos são agentes conscientes, intencionais que se co-criam a si mesmos e a seu entorno numa permanente interação comunicativa com os demais” (p. 196). Dessa forma, a narração é um fenômeno intersubjetivo que resulta na criação e recriação constante de significados e realidades, tendo por base o diálogo e as interações simbólicas (Goolishian & Anderson, 1996).

Ao iniciar a primeira entrevista, voltei a explicar os objetivos centrais do estudo, esclarecendo ao participante o interesse no conhecimento da gênese e história do seu desejo de ser um religioso consagrado. Assim, sugeri que fossem abordadas experiências vividas na infância, na adolescência, nos contextos da família, da escola e de grupos de amigos, bem como na aproximação, no ingresso e na permanência na instituição religiosa — momentos significativos de mudança e perspectivas em relação ao futuro.

Numa abordagem semiótica, a questão norteadora da entrevista bem como o esclarecimento dos objetivos da pesquisa canalizam a maneira como os participantes tecem a narrativa da própria trajetória de vida. Vários são os aspectos considerados na seleção de fatos e

acontecimentos narrados. É provável que o participante opte por episódios que fazem sentido para ele na busca de justificar o porquê de ser quem é, ter chegado aonde chegou etc. — no caso desta pesquisa, o porquê de estar vivendo em uma instituição católica de vida consagrada. Sobre essa atitude ativa e responsiva do ouvinte, Bakhtin (1992) ressalta que,

de fato, o ouvinte que recebe e compreende a significação (liguística) de um discurso adota simultaneamente, para com o discurso, uma atividade responsiva ativa: ele concorda ou discorda (total ou parcialmente), completa, adapta, apronta-se para executar etc., e esta atitude do ouvinte está em elaboração constante durante todo o processo de audição e de compreensão desde o início do discurso, às vezes já nas primeiras palavras emitidas pelo locutor (p. 290).

Portanto, o momento de entrevista é marcado por negociações semióticas, construções de significados entre pesquisador e participante. Este último seleciona fatos e acontecimentos da sua trajetória que, de certa forma, correspondam às expectativas do pesquisador e aos objetivos da pesquisa, revelados ao participante e interpretados por ele.

Por um lado, as entrevistas abordaram a trajetória de desenvolvimento dos participantes de modo retrospectivo; por outro, possibilitaram construir informações sobre sentimentos experienciados e expectativas sobre acontecimentos futuros. Nesse sentido, a ênfase recai sobre as mudanças vividas num tempo irreversível, especialmente sobre transições de desenvolvimento, ajustes e desajustes na relação eu–outro. A partir das narrativas dos participantes, busquei analisar as expectativas futuras e a trajetória de desenvolvimento vivida e imaginada, no intuito de apreender dinâmicas de transformações (movimentos) no sistema de self.

A segunda entrevista narrativa individual ocorreu entre 15 e 19 meses após a realização da primeira. As experiências do sujeito acerca de um tema podem ser lembradas nas formas de conhecimento narrativo-episódico e semântico (Flick, 2004; McAdams, 2001; Murray, 2008), por isso essa entrevista foi do tipo episódica. Os episódios foram selecionados pelo pesquisador, levando em consideração as informações obtidas nos dois momentos anteriores (narrativa escrita e entrevista do tipo história de vida). Na segunda entrevista, apenas uma participante ainda estava no noviciado; os outros três já haviam concluído essa etapa.

Um último encontro individual foi realizado com os quatro participantes do estudo principal, no mês de fechamento da tese, para apresentar as informações até então construídas bem como os resultados ainda em aberto das análises. Antes da elaboração das considerações finais do estudo, buscou-se ter, novamente, os participantes como parceiros na pesquisa. Na oportunidade, o participante ouviu e opinou sobre as informações construídas relacionadas à sua participação no estudo. Acredito que essa metodologia avança na busca de aprofundar estudos de caso e contribui para pensar aspectos particulares e gerais da dinâmica configuração do self na adolescência e

juventude. Ela também pode proporcionar um olhar mais amplo sobre o fenômeno, considerando não só a perspectiva do investigador, mas também a perspectiva dos participantes.

Um diário de campo foi utilizado pelo pesquisador para registros complementares, realizados logo após cada entrevista. Esse foi um importante instrumento no registro de atitudes, comportamentos, gestos e outros aspectos metacomunicativos percebidos nos momentos de interação entre pesquisador e participante. Tais informações auxiliaram na análise das informações. No diário de campo, também foram registradas reflexões, questionamentos e insights do pesquisador ocorridos durante e após os encontros com os participantes.

Este estudo buscou discutir processos de desenvolvimento e transições juvenis, considerando a experiência religiosa como contexto de desenvolvimento dos jovens vocacionados. É importante ressaltar que a experiência religiosa se inicia antes do ingresso do jovem na ordem ou congregação. Portanto, experiências não apenas em relação à religiosidade, vividas antes de o jovem tornar-se um vocacionado à vida consagrada, também importam, pois orientam, de modo afetivo, experiências vividas no presente, bem como expectativas relacionadas aos futuros imaginados. Da mesma forma, as experiências vividas no presente, bem como os novos significados e reposicionamentos dos jovens ao ingressarem em uma instituição religiosa, possibilitam novas leituras de si, do outro, do seu passado e das possibilidades de futuro.

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